
Fundada em primeiro de agosto de 1927. OUSAR LUTAR! OUSAR VENCER!
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
É um trágico erro separar a classe burguesa em “nacional” e “estrangeira”... - Por: Elisseos Vagenas
A posição dos comunistas contra toda união imperialista é um critério fundamental
Elisseos Vagenas – Membro do Comitê Central do Partido Comunista Grego (KKE), responsável da Seção de Relações Internacionais do CC
"Desgraçadamente, estas análises não são apoiadas apenas pelas forças burguesas, mas também partidos caracterizados como “de esquerda” e, inclusive, comunistas,como o PC do Brasil (enquanto as uniões nas regiões da América Latina) ou o PC da Federação Russa (na denominada região da Eurásia)".
(Publicado em “Rizospastis” em 15 de janeiro de 2012)
A crise capitalista global, consequência da contradição básica do sistema capitalista, conduz a um maior aprofundamento das contradições interimperialistas e à aparição de novas e poderosas potências imperialistas. Estas potências tratam de formar novas uniões interestatais com múltiplos objetivos: o fortalecimento de sua posição frente a seus rivais globais, o controle das matérias primas, a energia, as rotas de transporte de energia, o controle de esferas de mercado para favorecer seus monopólios, assim como uma maior exploração da classe trabalhadora e o reforço do poder burguês em todos os países, utilizando as “ferramentas” que provêem das uniões interestatais imperialistas.
Assim, assistimos, junto a nossas “bem conhecidas” uniões, como a UE, que surgem novas uniões no território da antiga URSS e na América Latina. Tais uniões podem ser novas, porém as “raízes” de sua criação não são outras que as assinaladas nas obras de Lênin: que na época do imperialismo, fase final do capitalismo, são formadas uniões internacionais de capitalistas que repartem o mundo.
Uma tentativa de mascarar as intenções
Certas forças estão levando a cabo uma tentativa de “mascarar” este objetivo das classes burguesas dessas regiões, em nome da formação de um “mundo multipolar”. Segundo este ponto de vista, é positivo para os povos que surjam outros “pólos” fortes no cenário internacional, além dos EUA e da UE. Como argumento adicional, é citado o período de existência da URSS, que operava como um “contrapeso”.
Ao mesmo tempo, a tentativa de “mascarar” as novas uniões interestatais afirma que estas uniões aparecem para ajudar ao “capital nacional” contra o denominado capital “comprador submetido aos estrangeiros”, reforçando assim “o desenvolvimento”, impedindo a penetração dos EUA e de outras organizações imperialistas, como a OTAN e a UE, nestas regiões e, inclusive, salvaguardando a “soberania nacional”, que de outra forma estaria ameaçada pelo imperialismo internacional.
Desgraçadamente, estas análises não são apoiadas apenas pelas forças burguesas, mas também partidos caracterizados como “de esquerda” e, inclusive, comunistas, como o PC do Brasil(enquanto as uniões nas regiões da América Latina) ou o PC da Federação Russa (na denominada região da Eurásia).
O que está sendo esquecido
Não obstante, estes partidos se esquecem de observar o assunto sob a perspectiva de classe. Se eles não tivessem esquecido, teriam observado que a União Soviética não se parecia com estas novas uniões interestatais. Atualmente, nós enfrentamos as uniões que estão construídas sobre o terreno do capitalismo monopolista, do imperialismo. Além disso, o imperialismo não deve ser entendido de maneira simplista, como uma política agressiva das potências mais fortes que vem impor-se aos povos, de fora para dentro, com o poder do dinheiro e das armas. Nas condições atuais, todo país em que prevaleçam as relações de produção capitalistas, independentemente do nível do desenvolvimento de suas forças produtivas, se incorpora ao sistema imperialista internacional, sendo uma seção do mesmo.
Então, se analizarmos o processo de formação de novas uniões interestatais, que estão sendo criadas na Eurásia ou na América Latina, com um enfoque de classe, veremos que estas não estão se formando para servir aos interesses dos povos, mas para promover os interesses do capital de países concretos e de seus monopólios.
Por exemplo, o Brasil, onde o capital está vendo hoje um importante crescimento de sua rentabilidade, opera como “motor” nas novas uniões interestatais que estão sendo criadas na América Latina. A atividade econômica e diplomática do estado brasileiro tem o objetivo de converter o Brasil num forte competidor capitalista no marco da “pirâmide” imperialista. Já em alguns mercados da América Latina são predominantes as empresas multinacionais brasileiras, que gozam de financiamento público. A Rússia opera de forma similar, assim como os monopólios russos, no território da antiga URSS.
Com a formação de novas uniões interestatais, que constituem expressões de unificação capitalista regional e sempre surgem sobre a base das leis da economia de mercado, as classes burguesas tratam de unir suas forças contra seus rivais e às custas da classe trabalhadora. A política de apoio a estas uniões transforma o movimento comunista e operário numa ferramenta de apoio ao “desenvolvimento” capitalista, o que fortalece as posições do capital e leva os trabalhadores à “câmara de tortura”, ao consenso social favorável ao investimento da “competitividade” da “economia nacional” e ao fortalecimento da união interestatal imperialista específica.
Por outro lado, o “mundo multipolar” não é realmente mais pacífico e seguro para os povos, já que é um mundo de duras e predadoras alianças e conflitos imperialistas, que se fundamentam em todas as formas possíveis: econômicas, políticas, diplomáticas, espionagem, militar, etc.
Tal enfoque de apoio às novas uniões imperialistas poderia ser catastrófico para o movimento comunista, já que deixaria ao povo a incumbência de escolher entre imperialistas. Poderia levar a posições e ações que o deixariam exposto.
Não a toda união imperialista
Não há dúvida de que todas as potências imperialistas e, sobretudo, os EUA e a UE, obstaculizam o surgimento e funcionamento de outras uniões imperialistas, posto que ambos operam conforme seus interesses. Além disso, sabe-se que as potências imperialistas têm mecanismos muito diversos de intervenção, desde os meios de comunicação eletrônica às ONG’s, até “institutos de investigação”, aos quais dão dinheiro para que influam e corrompam as consciências, etc. Existem informações específicas sobre o papel jogado por uma série de agências imperialistas no treinamento de forças que estiveram ativas na denominada primavera árabe e/ ou estariam ativas agora na Síria.
Está claro que não podemos ignorar os interesses e planos de cada potência imperialista em distintas regiões e em distintos momentos. A luta contra os planos imperialistas deve fortalecer-se em todos os lugares. Não obstante, nós comunistas cairemos em trágicos erros e adotaremos posições inaceitáveis se substituirmos o enfoque de classe para analisar os acontecimentos por teorias não classistas, supostamente “geopolíticas”, que exijam a escolha do lado imperialista, ocultando a contradição básica entre capital e trabalho, que é a mesma em todos os países capitalistas.
Por isso, é um erro separar a classe burguesa em “nacional” e “estrangeira”. É igualmente perigoso e equivocado escolher apoiar uma união imperialista ou outra. Os movimentos comunista e operário devem ter um posicionamento claro de oposição a toda união imperialista, lutando pela saída de nossos países dos planos e das uniões imperialistas, com o simultâneo derrocamento do sistema capitalista que as cria.
Tradução: Maria Fernanda M. Scelza (PCB)
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Pinheirinho, novo patamar do "higienismo" fascista em São Paulo
Veja a Página do PCB – www.pcb.org.br
Partido Comunista Brasileiro – Fundado em 25 de Março de 1922
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Um outro mundo é possível... e necessário: O Socialismo!!!
todas as armas são boas
pedras
noites
poemas”
Paulo Leminski
A União da Juventude Comunista (UJC), Juventude do Partido Comunista Brasileiro (PCB) saúda os participantes do Fórum Social Mundial Temático 2012 e propõe debates necessários na construção de mudanças estruturais na sociedade vigente.
Mais uma vez, o Brasil se torna centro de diversos movimentos, entidades e partidos do campo popular de todo o mundo. Estudantes, trabalhadores urbanos e do campo, sem terras, indígenas, negros, mulheres, dentre outros, se unem em um grande evento mundial para denunciar as mazelas produzidas por aqueles que detêm o poder econômico e político.
Vivemos uma conjuntura de crise do capitalismo, porém já há algum tempo o FSM - Fórum Social Mundial deixou de lado sua artilharia contra o modo de produção vigente, ao propor como solução para os crescentes problemas sociais, econômicos e ambientais que afligem a humanidade, um pacto por um capitalismo mais humanizado e sustentável. O capitalismo, para nós Comunistas, hoje, entra em choque com as demandas mais básicas para as necessidades humanas como moradia, saúde, educação, ou seja, é impossível humanizar o capitalismo!!!
A estrutura atual do Fórum Social Mundial é descentralizada, mas quem “dá as cartas” são as ONGs e os grupos social-democratas que dirigem os espaços de organização e debate do Fórum, negando a importância de partidos e organizações revolucionárias, assim como de espaços deliberativos que confrontem a ordem. Entre avisos e faixas de que “Outro Mundo é Possível", não se permite dizer o nome deste outro mundo, nem tão pouco falar em superação do capitalismo, mas falar em igualdade, distribuição mais justa, protagonismo, tudo isso se ouve aos montes. Da Fundação Ford até o Instituto Luis Eduardo Magalhães, a ABRINQ e a ABONG todos estão comprometidos com a integração de culturas, a defesa da Amazônia e com um futuro melhor. Mas que futuro é esse? Com certeza o outro mundo possível e necessário para os trabalhadores não é o mesmo destas organizações e sujeitos que vivem da exploração do trabalho.
Porém, mesmo no clima de dispersão montado por sua organização, o Fórum pode ser válido na articulação de organizações, entidades e pessoas inseridas na luta popular anticapitalista. Para nós comunistas, as lutas pelas necessidades básicas para os trabalhadores como a luta contra as privatizações da saúde e educação, pelo direito a moradia, ao transporte público e barato, pela soberania e paz entre os povos, são lutas que entram em choque com a própria necessidade de expansão dos lucros e interesses dos capitalistas. Por isso, propomos que neste Fórum consigamos articular experiências e lutas concretas que possibilitem edificarmos uma frente política e unitária anticapitalista e anti-imperialista.
No campo da saúde, precisamos fortalecer a unidade de luta e proposição da frente nacional contra a privatização da saúde. Lutar contra a privatização da saúde também representa colocar na ordem do dia a luta por um SUS público, estatal e de alta qualidade. Para a educação, em particular nas universidades, nós da UJC destacamos a necessidade de durante o FSM pensar um projeto de universidade alternativo ao projeto do capital. O projeto hegemônico para a universidade brasileira é global e dinâmico, é nossa tarefa questioná-lo e contrapô-lo, o que exige que trabalhemos não somente a partir de ações pontuais e reativas a seus avanços, mas principalmente a partir da formulação de um projeto alternativo igualmente global. Desta forma, a discussão em torno de uma educação e universidade popular se revela muito mais do que uma oposição às reformas universitárias atuais, visto que se insere na reflexão ativa sobre um outro projeto de sociedade, a ser protagonizado por todos os setores explorados e oprimidos pela sociabilidade vigente.
O chamado à luta popular é uma tarefa árdua e deve ser tratada de maneira criativa valorizando experiências locais ligadas a um projeto global de superação do capitalismo. É neste sentido que convidamos as organizações, entidades e indivíduos a realizar e apoiar atividades paralelas que evidenciem o caráter predatório do capitalismo em crise, a luta anti-capitalista dos povos, na Grécia, em toda Europa e no Oriente, e também a lógica elitista do governo brasileiro de Dilma (PT), que se coloca a serviço da classe dominante, quando beneficia setores do agronegócio, da especulação financeira e do empresariado em detrimento dos trabalhadores.
E não nos furtamos de chamar a atenção de que a humanidade pode caminhar para dois rumos opostos: o Socialismo ou a Barbárie! Por isso afirmamos que um outro mundo é possível... e necessário: o mundo socialista!!!
União da Juventude Comunista
CIRCULAR A TODOS OS MILITANTES, SIMPATIZANTES E AMIGOS DO PCB
90 ANOS DO PCB!
Em 25 de março de 2012, o PCB estará comemorando 90 anos de uma extraordinária história, de alegrias e tristezas.
Em função de vários períodos de clandestinidade, da repressão de ditaduras e da ação de oportunistas, dispomos em nossos arquivos de poucos documentos (livros, fotografias, áudios, vídeos, objetos e outros registros políticos, históricos e literários) que retratem a intensa vida do PCB nestes 90 anos.
Carecemos também de depoimentos escritos ou gravados, com narrativas sobre aspectos diversos da vida partidária, curiosidades, histórias inéditas, alegres ou tristes.
O Secretariado Nacional do PCB está encarregado de centralizar a recepção de todo este material espalhado pelo país. O material pode ser enviado ao PCB pessoalmente, por via postal ou eletrônica.
Com a tecnologia hoje disponível, você não precisa se desfazer do seu acervo pessoal, que certamente tanto lhe orgulha. Fotos e documentos podem ser escaneados e enviados por via eletrônica. Se o doador não tiver conhecimentos tecnológicos ou recursos materiais para a reprodução e remessa de sua contribuição, providenciaremos formas de ajudá-lo, inclusive com a interação de camaradas do PCB em sua região.
Todo este material será divulgado nos sítios eletrônicos do PCB e da Fundação Dinarco Reis, ligada ao Partido. Muitas das doações serão aproveitadas para publicações e outras iniciativas comemorativas dos 90 anos. Os doadores só serão identificados, se desejarem.
VEJAM AS FORMAS DE ENTREGA DO MATERIAL:
Por via postal:
- PCB – Partido Comunista Brasileiro
Rua da Lapa, 180 – grupo 801 – Lapa (Rio de Janeiro) – CEP 20.021-180.
Por telefone:
(021) 2262-0855 (secretária eletrônica)
Por via eletrônica:
pcb@pcb.org.br
(Secretariado Nacional do PCB), janeiro de 2012
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
CHEGA DE DISCRIMINAÇÃO! TODO APOIO À COMUNIDADE DO PINHEIRINHO! (NOTA POLÍTICA DO PCB/SP)
Mathey Loureiro, que determinou a Reintegração de Posse da área ocupada
pelos trabalhadores e trabalhadoras do Pinheirinho, ignorando o processo de
legalização e regularização do terreno que já estava em andamento.
Repudiamos também a ação da Polícia Militar do Estado de São Paulo ocorrida
no dia 05/01/2012 que, sob pretexto de busca e apreensão de “foragidos” e
drogas, implementou mais uma ação autocrática e discriminatória contra a
população pobre do Pinheirinho, gerando apenas pânico e mais sofrimento a
esta comunidade.
Exigimos do governador do Estado, Geraldo Alckmin, que respeite a suspensão
da ação de reintegração de posse e efetive a imediata regularização da área
ocupada pela população, implementando políticas que atendam os seus direitos
básicos, humanos e constitucionais.
Por fim, o PCB solidariamente se coloca à disposição da Comunidade do
Pinheirinho naquilo em que possamos colaborar.
São Paulo, 17 de janeiro de 2012.
Partido Comunista Brasileiro – PCB
Comissão Política Regional – CR/SP
sábado, 14 de janeiro de 2012
12 mitos do capitalismo
São muitos e variados os tipos e meios de manipulação em que a ideologia burguesa se foi alicerçando ao longo do tempo. Um dos tipos mais importantes são os mitos. Trata-se de um conjunto de falsas verdades, mera propaganda que, repetidas à exaustão, acriticamente, ao longo de gerações, se tornam verdades insofismáveis aos olhos de muitos.
Um comentário amargo, e frequente após os períodos eleitorais, é o de que “cada povo tem o governo que merece”. Trata-se de uma crítica errónea, que pode levar ao conformismo e à inércia e castiga os menos culpados. Não existem maus povos. Existem povos iletrados, mal informados, enganados, manipulados, iludidos por máquinas de propaganda que os atemorizam e lhes condicionam o pensamento. Todos os povos merecem sempre governos melhores.
A mentira e a manipulação são hoje armas de opressão e destruição maciça, tão eficazes e importantes como as armas de guerra tradicionais. Em muitas ocasiões são complementares destas. Tanto servem para ganhar eleições como para invadir e destruir países insubmissos.
São muitos e variados os tipos e meios de manipulação em que a ideologia capitalista se foi alicerçando ao longo do tempo. Um dos tipos mais importantes são os mitos. Trata-se de um conjunto de falsas verdades, mera propaganda que, repetidas à exaustão, acriticamente, ao longo de gerações, se tornam verdades insofismáveis aos olhos de muitos. Foram criadas para apresentar o capitalismo de forma credível perante as massas e obter o seu apoio ou passividade. Os seus veículos mais importantes são a informação mediática, a educação escolar, as tradições familiares, a doutrina das igrejas, etc. (*)
Apresentam-se neste texto, sucintamente, alguns dos mitos mais comuns da mitologia capitalista.
• No capitalismo qualquer pessoa pode enriquecer à custa do seu trabalho.
Pretende-se fazer crer que o regime capitalista conduz automaticamente qualquer pessoa a ser rica desde que se esforce muito.
O objectivo oculto é obter o apoio acrítico dos trabalhadores no sistema e a sua submissão, na esperança ilusória e culpabilizante em caso de fracasso, de um dia virem a ser também, patrões de sucesso.
Na verdade, a probabilidade de sucesso no sistema capitalista para o cidadão comum é igual à de lhe sair a lotaria. O “sucesso capitalista” é, com raras excepções, fruto da manipulação e falta de escrúpulos dos que dispõem de mais poder e influência. As fortunas em geral derivam directamente de formas fraudulentas de actuação.
Este mito de que o sucesso é fruto de uma mistura de trabalho afincado, alguma sorte, uma boa dose de fé e depende apenas da capacidade empreendedora e competitiva de cada um, é um dos mitos que tem levado mais gente a acreditar no sistema e a apoiá-lo. Mas também, após as tentativas falhadas, a resignarem-se pelo aparente falhanço pessoal e a esconderem a sua credulidade na indiferença. Trata-se dos tão apregoados empreendedorismo e competitividade.
• O capitalismo gera riqueza e bem-estar para todos
Pretende-se fazer crer que a fórmula capitalista de acumulação de riqueza por uma minoria dará lugar, mais tarde ou mais cedo, à redistribuição da mesma.
O objectivo é permitir que os patrões acumulem indefinidamente sem serem questionados sobre a forma como o fizeram, nomeadamente sobre a exploração dos trabalhadores. Ao mesmo tempo mantêm nestes a esperança de mais tarde serem recompensados pelo seu esforço e dedicação.
Na verdade, já Marx tinha concluído nos seus estudos que o objectivo final do capitalismo não é a distribuição da riqueza mas a sua acumulação e concentração. O agravamento das diferenças entre ricos e pobres nas últimas décadas, nomeadamente após o neo-liberalismo, provou isso claramente.
Este mito foi um dos mais difundidos durante a fase de “bem-estar social” pós guerra, para superar os estados socialistas. Com a queda do émulo soviético, o capitalismo deixou também cair a máscara e perdeu credibilidade.
• Estamos todos no mesmo barco.
Pretende-se fazer crer que não há classes na sociedade, pelo que as responsabilidades pelos fracassos e crises são igualmente atribuídas a todos e portanto pagas por todos.
O objectivo é criar um complexo de culpa junto dos trabalhadores que permita aos capitalistas arrecadar os lucros enquanto distribui as despesas por todo o povo.
Na verdade, o pequeno numero de multimilionários, porque detém o poder, é sempre auto-beneficiado em relação à imensa maioria do povo, quer em impostos, quer em tráfico de influências, quer na especulação financeira, quer em off-shores, quer na corrupção e nepotismo, etc. Esse núcleo, que constitui a classe dominante, pretende assim escamotear que é o único e exclusivo responsável para situação de penúria dos povos e que deve pagar por isso.
Este é um dos mitos mais ideológicos do capitalismo ao negar a existência de classes.
• Liberdade é igual a capitalismo.
Pretende-se fazer crer que a verdadeira liberdade só se atinge com o capitalismo, através da chamada auto-regulação proporcionada pelo mercado.
O objectivo é tornar o capitalismo uma espécie de religião em que tudo se organiza em seu redor e assim afastar os povos das grandes decisões macro-económicas, indiscutíveis. A liberdade de negociar sem peias seria o máximo da liberdade.
Na verdade, sabe-se que as estratégias político económicas, muitas delas planeadas com grande antecipação, são quase sempre tomadas por um pequeno número de pessoas poderosas, à revelia dos povos e dos poderes instituídos, a quem ditam as suas orientações. Nessas reuniões, em cimeiras restritas e mesmo secretas, são definidas as grandes decisões financeiras e económicas conjunturais ou estratégicas de longo prazo. Todas, ou quase todas essas resoluções, são fruto de negociações e acordos mais ou menos secretos entre os maiores empresas e multinacionais mundiais. O mercado é pois manipulado e não auto-regulado. A liberdade plena no capitalismo existe de facto, mas apenas para os ricos e poderosos.
Este mito tem sido utilizado pelos dirigentes capitalistas para justificar, por exemplo, intervenções em outros países não submissos ao capitalismo, argumentando não haver neles liberdade, porque há regras.
• Capitalismo igual a democracia.
Pretende-se fazer crer que apenas no capitalismo há democracia.
O objectivo deste mito, que é complementar do anterior, é impedir a discussão de outros modelos de sociedade, afirmando não haver alternativas a esse modelo e todos os outros serem ditaduras. Trata-se mais uma vez da apropriação pelo capitalismo, falseando-lhes o sentido, de conceitos caros aos povos, tais como liberdade e democracia.
Na realidade, estando a sociedade dividida em classes, a classe mais rica, embora seja ultra minoritária, domina sobre todas as outras. Trata-se da negação da democracia que, por definição, é o governo do povo, logo da maioria. Esta “democracia” não passa pois de uma ditadura disfarçada. As “reformas democráticas” não são mais que retrocessos, reacções ao progresso. Daí deriva o termo reaccionário, o que anda para trás.
Tal como o anterior este mito também serve de pretexto para criticar e atacar os regimes de países não capitalistas.
• Eleições igual a Democracia.
Pretende-se fazer crer que o acto eleitoral é o sinonimo da democracia e esta se esgota nele.
O objectivo é denegrir ou diabolizar e impedir a discussão de outros sistemas politico-eleitorais em que os dirigentes são estabelecidos por formas diversas das eleições burguesas, como por exemplo pela idade, experiencia, aceitação popular, etc.
Na verdade é no sistema capitalista, que tudo manipula e corrompe, que o voto é condicionado e as eleições são actos meramente formais. O simples facto da classe burguesa minoritária vencer sempre as eleições demonstra o seu carácter não representativo.
O mito de que, onde há eleições há democracia, é um dos mais enraizados, mesmo em algumas forças de esquerda.
• Partidos alternantes igual a alternativos.
Pretende-se fazer crer que os partidos burgueses que se alternam periodicamente no poder têm políticas alternativas.
O objectivo deste mito é perpetuar o sistema dentro dos limites da classe dominante, alimentando o mito de que a democracia está reduzida ao acto eleitoral.
Na verdade este aparente sistema pluri ou bi-partidário é um sistema mono-partidário. Duas ou mais facções da mesma organização política, partilhando políticas capitalistas idênticas e complementares, alternam-se no poder, simulando partidos independentes, com políticas alternativas. O que é dado escolher aos povos não é o sistema que é sempre o capitalismo, mas apenas os agentes partidários que estão de turno como seus guardiões e continuadores.
O mito de que os partidos burgueses têm politicas independentes da classe dominante, chegando até a ser opostas, é um dos mais propagandeados e importantes para manter o sistema a funcionar.
• O eleito representa o povo e por isso pode decidir tudo por ele.
Pretende-se fazer crer que o político, uma vez eleito, adquire plenos poderes e pode governar como quiser.
O objectivo deste mito é iludir o povo com promessas vãs e escamotear as verdadeiras medidas que serão levadas à prática.
Na verdade, uma vez no poder, o eleito auto-assume novos poderes. Não cumpre o que prometeu e, o que é ainda mais grave, põe em prática medidas não enunciadas antes, muitas vezes em sentido oposto e até inconstitucionais. Frequentemente são eleitos por minorias de votantes. A meio dos mandatos já atingiram índices de popularidade mínimos. Nestes casos de ausência ou perda progressiva de representatividade, o sistema não contempla quaisquer formas constitucionais de destituição. Esta perda de representatividade é uma das razões que impede as “democracias” capitalistas de serem verdadeiras democracias, tornando-se ditaduras disfarçadas.
A prática sistemática deste processo de falsificação da democracia tornou este mito um dos mais desacreditados, sendo uma das causas principais da crescente abstenção eleitoral.
• Não há alternativas à política capitalista.
Pretende-se fazer crer que o capitalismo, embora não sendo perfeito, é o único regime politico/económico possível e portanto o mais adequado.
O objectivo é impedir que outros sistemas sejam conhecidos e comparados, usando todos os meios, incluindo a força, para afastar a competição.
Na realidade existem outros sistemas politico económicos, sendo o mais conhecido o socialismo cientifico. Mesmo dentro do capitalismo há modalidades que vão desde o actual neo-liberalismo aos reformistas do “socialismo democrático” ou social-democrata.
Este mito faz parte da tentativa de intimidação dos povos de impedir a discussão de alternativas ao capitalismo, a que se convencionou chamar o pensamento único.
• A austeridade gera riqueza
Pretende-se fazer crer que a culpa das crises económicas é originada pelo excesso de regalias dos trabalhadores. Se estas forem retiradas, o Estado poupa e o país enriquece.
O objectivo é fundamentalmente transferir para o sector publico, para o povo em geral e para os trabalhadores a responsabilidade do pagamento das dividas dos capitalistas. Fazer o povo aceitar a pilhagem dos seus bens na crença de que dias melhores virão mais tarde. Destina-se também a facilitar a privatização dos bens públicos, “emagrecendo” o Estado, logo “poupando”, sem referir que esses sectores eram os mais rentáveis do Estado, cujos lucros futuros se perdem desta forma.
Na verdade, constata-se que estas politicas conduzem, ano após ano, a uma empobrecimento das receitas do Estado e a uma diminuição das regalias, direitos e do nível de vida dos povos, que antes estavam assegurados por elas.
• Menos Estado, melhor Estado.
Pretende-se fazer crer que o sector privado administra melhor o Estado que o sector público.
O objectivo dos capitalistas é, “dourar a pílula” para facilitar a apropriação do património, das funções e dos bens rentáveis dos estados. É complementar do anterior.
Na verdade o que acontece em geral é o contrário: os serviços públicos privatizados não só se tornam piores, como as tributações e as prestações são agravadas. O balanço dos resultados dos serviços prestados após passarem a privados é quase sempre pior que o anterior. Na óptica capitalista a prestação de serviços públicos não passa de mera oportunidade de negócio. Neste mito é um dos mais “ideológicos” do capitalismo neoliberal. Nele está subjacente a filosofia de que quem deve governar são os privados e o Estado apenas dá apoio.
• A actual crise é passageira e será resolvida para o bem dos povos.
Pretende-se fazer crer que a actual crise económico-financeira é mais uma crise cíclica habitual do capitalismo e não uma crise sistémica ou final.
O objectivo dos capitalistas, com destaque para os financeiros, é continuarem a pilhagem dos Estados e a exploração dos povos enquanto puderem. Tem servido ainda para alguns políticos se manterem no poder, alimentando a esperança junto dos povos de que melhores dias virão se continuarem a votar neles.
Na verdade, tal como previu Marx, do que se trata é da crise final do sistema capitalista, com o crescente aumento da contradição entre o carácter social da produção e o lucro privado até se tornar insolúvel.
Alguns, entre os quais os “socialistas” e sociais-democratas, que afirmam poder manter o capitalismo, embora de forma mitigada, afirmam que a crise deriva apenas de erros dos políticos, da ganância dos banqueiros e especuladores ou da falta de ideias dos dirigentes ou mecanismos que ainda falta resolver. No entanto, aquilo a que assistimos é ao agravamento permanente do nível de vida dos povos sem que esteja à vista qualquer esperança de melhoria. Dentro do sistema capitalista já nada mais há a esperar de bom.
Nota final:
O capitalismo há-de acabar, mas só por si tal decorrerá muito lentamente e com imensos sacrifícios dos povos. Terá que ser empurrado. Devem ser combatidas as ilusões, quer daqueles que julgam o capitalismo reformável, quer daqueles que acham que quanto pior melhor, para o capitalismo cairá de podre, O capitalismo tudo fará para vender cara a derrota. Por isso quanto mais rápido os povos se libertarem desse sistema injusto e cruel mais sacrifícios inúteis se poderão evitar.
Hoje, mais do que nunca, é necessário criar barreiras ao assalto final da barbárie capitalista, e inverter a situação, quer apresentando claramente outras soluções politicas, quer combatendo o obscurantismo pelo esclarecimento, quer mobilizando e organizando os povos.
(*) Os mitos criados pelas religiões cristãs têm muito peso no pensamento único capitalista e são avidamente apropriados por ele para facilitar a aceitação do sistema pelos mais crédulos. Exemplos: “A pobreza é uma situação passageira da vida terrena”. “Sempre houve ricos e pobres”. “O rico será castigado no juízo final”. “Deve-se aguentar o sofrimento sem revolta para mais tarde ser recompensado.”
SOLIDARIEDADE COM A POETISA ANGYE GAONA PRESA PELO GOVERNO DA COLÔMBIA
Em janeiro de 2011, foi detida e encarcerada durante 4 meses em uma prisão de média segurança sem que fosse iniciado qualquer julgamento durante sua detenção. Depois de uma intensa campanha de petições de alcance internacional, foi posta em liberdade provisória, pois já se passava o tempo limite para iniciar seu julgamento.1
A promotoria colombiana acusa a poetisa de "conspiração criminosa agravada por delito de narcotráfico e rebelião". No meio da desordem da promotoria e dos tribunais na Colômbia, um julgamento injusto está para começar na cidade de Cartagena de Indias, a mais de 800 km de Bucaramanga, cidade onde Angye reside. Testemunhas de defesa estão impossibilitadas de viajarem para cidade do julgamento.
Apesar de ter uma vida difícil, com menos do necessário para alimentar a sua filhinha – com quem compartilha um apartamento em um bairro humilde de Bucaramanga, Angye Gaona se solidarizou, por meio de seu trabalho cultural e poético, com os milhares de presos políticos que padecem nos cárceres de seu país. A resposta do estado colombiano, como para todos aqueles que desafiam a ordem de terror estabelecida no país, não poderia ser outra.
Angye Gaona foi integrante da equipe organizadora do Festival Internacional de Poesia de Medellín, organizando assim em 2001 a primeira exposição do festival Internacional de Poesia Experimental. Também tem cultivado a escultura e a produção radiofônica. Trabalha realizando atividades de promoção das potências da poesia em sua cidade natal. Seus poemas foram incluídos em antologias e publicações impressas e digitais na Colômbia e no exterior.
Em 2009, publicou seu primeiro livro: Nascimento Volátil (Ilustrações de Natalia Rendón), e participou do Encontro Internacional de surrealismo atual: O Umbral Secreto, (Santiago do Chile), a maior mostra já realizada do movimento surrealista na América Latina. Em 2010 realizou o poema experimental, Os Filhos do Vento. Sua obra foi traduzida parcialmente em francês, catalão, português e inglês.
Em 2011 ganhou o Salão metropolitano das artes Mire. Em 2012 participará da Exposição Internacional Surrealismo 2012 (Pennsylvania, EUA), se não for encarcerada até lá.Um Dossiê Especial bilingüe lhe será dedicado, no próximo número da revista poética francesa La voix de autres, que será publicada em março de 2012.2
Atualmente se estima que a Colômbia tenha mais de 7.500 presos políticos, e é um dos países que mais desrespeita os direitos humanos no mundo.
No Brasil está sendo criado o Comitê Brasileiro de Solidariedade à Angye Gaona. O comitê já conta com um site, onde podem ser visualizadas maiores informações, orientações para ajuda e poemas de Angye, traduzidos para português. Além disso, o comitê pretende estender sua solidariedade com os outros presos políticos colombianos.
O endereço do site é: http://angyegaonalivre.wordpress.com/.
COMO AJUDAR?
- Divulgar estas informações para o máximo de pessoas;
- Enviar carta postal para o juiz do caso (modelo e endereço ao final desta página) e nos informar do envio (jeffvasques@gmail.com);
- Enviar email para embaixada da Colômbia no Brasil cobrando posicionamento (email: ebrasili@cancilleria.gov.co) e nos informar do envio (jeffvasques@gmail.com);
- Organizar atividades artísticas e politicas em defesa da liberdade de Angye Gaona e dos demais presos políticos da Colômbia (entrar em contato conosco para divulgar a atividade!)
- Visitar periodicamente este site para saber das novidades.
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políticas. A poesia e as modestas condições de vida de Angye Gaona refletem sua inocência, melhor do que poderia apontar o melhor advogado. Seu único crime é o de dizer a verdade através de sua obra poética. Parece-me essencial para a comunidade colombiana, que se respeite a vida e a liberdade de seus poetas, que são um pouco a alma de seu povo. Esperamos, senhor. Esperamos, senhor Juiz, que você seja quem garanta um julgamento justo que honre as instituições de Colômbia, rogo-lhe que aceite a expressão de meu respeito,
FORA RODAS E O PSDB DA USP! (Nota do PCB/SP)

Na USP, com a presença de uma polícia sabidamente despreparada para lidar civilmente com situações corriqueiras e com uma cultura historicamente autocrática, está acontecendo o que especialistas, professores, funcionários e estudantes previam: um crescendo de conflitos cotidianos da PM com a comunidade acadêmica.
Mal começou o semestre letivo e já vemos uma grave ocorrência no Centro de Convivência da USP, quando um sargento e um soldado da Polícia Militar de São Paulo agindo de maneira tresloucada agridem o estudante da USP-Leste, Nicolas Menezes Barreto. O fato, grave de per si, ganha dimensões profundas quando o sargento André Luís Ferreira, claramente transtornado, interpela furiosamente o estudante em questão, diga-se, o único negro presente na local e, após pedir a identificação do estudante aos gritos, saca a arma e o ameaça. Ato contínuo, o expulsa do local a empurrões e tapas.
Nesse episódio de extrema gravidade, verificam-se várias situações de ilegalidade da ação policial. De um lado a agressão pura e simples a um cidadão e de outro o fato de o único estudante agredido ser negro. Caracteriza-se ai um racismo explícito onde as imagens do vídeo divulgado no Youtube falam por si.
A PM tem agido com truculência no Campus da USP, sentindo-se à vontade para assim agir porque respaldada tanto pelo “reitor” biônico, senhor João Grandino Rodas – homem sem legitimidade acadêmica, com um histórico de conivência com o arbítrio e com a autocracia – como, e principalmente, pelo governador Geraldo Alckmin.
A indicação de Rodas para o cargo de reitor por José Serra, a criminalização dos movimentos políticos, a perseguição ao Movimento estudantil e aos sindicalistas são partes integrantes dos objetivos do PSDB de implementar a privatização das Universidades estaduais paulistas, em particular a USP.
O PCB vem a público condenar as arbitrariedades e a truculência que ocorrem numa das mais importantes Universidades do mundo. É inaceitável a permanência de uma política antiacadêmica que despreza o diálogo, a inteligência e a democracia, que ignora a especificidade do mundo universitário e atua com a polícia militar como braço armado do mandonismo e do arbítrio.
Os comunistas entendemos que é necessário dar um basta às violações da ética e da democracia universitárias e da política do PSDB de destruição da Universidade pública.
Apoiamos firmemente a luta dos estudantes, funcionários e professores pela liberdade de expressão e de organização, condições vitais para a livre produção do conhecimento e a luta pela defesa da Universidade Pública.
Exigimos a renúncia de Rodas, a bem da Universidade de São Paulo, na defesa da democracia, da liberdade acadêmica e na defesa da Universidade pública, gratuita e de qualidade.
Fora Rodas e o PSDB da USP!
A Comissão Política Regional do PCB de São Paulo
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Entrevista de Karl Marx à Chicago Tribune - dezembro de 1878

[In: J. Chasin (org). Marx Hoje. V. 1. 3 ed. São Paulo: Ensaio, 1988. P. 81-98]
Apresentação: Bert Andréas*
A entrevista, publicada abaixo, permaneceu ignorada até o presente[1], foi um pesquisador novaiorquino, Louis Lazarus, quem, há pouco tempo, redescobriu o texto[2]. Ele houve por bem nos comunicar o seu achado, agregando diversas informações, o que lhe agradecemos vivamente.
Nem Marx nem Engels fazem alusão a esta entrevista nas cartas que, tanto quanto se sabe, trocaram entre dezembro de 1878 e princípios de abril de 1879.[3] Talvez seja possível encontrar referências nas cartas endereçadas por Marx ou Engels a um terceiro ou, ainda, nas cartas trocadas no interior do círculo de seus íntimos. Seja como for, tais indícios, parece, não são necessários para estabelecer a autenticidade de uma entrevista que a ausência de qualquer desmentido, por parte dos interessados, é suficiente para demonstrar.
De fato, essa autenticidade está fora de dúvida. O teor da entrevista corresponde estreitamente àquilo que Marx e Engels escreveram à época, nas cartas e artigos por eles assinados, tanto quanto àquilo que disseram em seguida. Por certo, o jornalista americano poderia ter forjado "uma entrevista de Marx", a partir de documentos impressos ou mesmo de manuscritos que lhe tivessem caído sob os olhos. Mas é difícil conceber que ele se tenha deixado levar por este joguinho, não ignorando que se arriscava, nesse caso, a se ver o oposto a um rude desmentido. O repórter foi surpreendido pelo conhecimento dos textos legislativos e administrativos norte-americanos que Marx testemunhou diante dele; isso se explica facilmente, quando se sabe que para redigir, entre outros trabalhos, o II volume do Capital, Marx recorreu, nesse assunto a ajuda de Sorge e de Harney.[4] Durante a entrevista, Marx sublinhou certas particularidades do desenvolvimento da Alemanha: a aparição simultânea da grande indústria e de um partido operário independente, fato ressaltado ainda uma vez por Engels, cerca de dez anos mais tarde.[5] E encontra-se, também da autoria de Engels, uma concepção análoga da imprensa como instrumento para manter os liames entre os diversos partidos operários, suscetível de atenuar, em certa medida, o eclipse da tribuna política da Internacional.[6] E é ainda Engels quem, do ponto de vista socialista, se pronunciou publicamente, em termos quase idênticos, contra o tiranicídio.[7] Quanto à idéia, segundo a qual a política de Bismarck teria involuntariamente por função objetiva reforçar o movimento operário, é suficientemente conhecida.[8] Também, e de maneira semelhante, Engels negará mais tarde toda originalidade a Bismarck e sustentará que este último não havia podido realizar seus objetivos políticos.[9] Por fim, Engels empregará uma linguagem muito próxima daquela da entrevista para denunciar as ameaças provocadoras do "Chanceler de Ferro".[10]
O Chicago Tribune, fundado em 1846, pendia para o lado dos republicanos; no momento da entrevista, seu chefe de redação era Joseph Medill, que era contado entre os amigos de Abraham Lincoln. A tiragem do jornal era das mais elevadas para a época: a edição diária matutina (na qual a entrevista foi publicada) atingia mais de 25 mil exemplares, a edição tri-semanal vespertina ultrapassava dez mil e a do meio-dia, publicada uma vez por semana, estava em torno de cinqüenta mil. O arquivista do Tribune nos fez o favor de precisar que a entrevista não foi inserida nas outras edições e que não existe nos arquivo do jornal nada que permita descobrir a identidade exata do correspondente "H". A entrevista data provavelmente da primeira semana de dezembro de 1878: Marx assinala com efeito a entrada em vigor do estado de sítio, que tinha sido proclamado em Berlim a 30 de novembro.[11] E é impossível sabe se Marx solicitou essa entrevista para comunicar aos trabalhadores norte-americanos as lições que deviam ser tiradas das lutas de seus camaradas alemães,[12] ou se ele se valeu de uma oportunidade inesperada para dar sua opinião, com máxima publicidade, sobre o agravamento da situação na Alemanha. O fato de que o Chicago Tribune fosse estranho no movimento operário[13] depõe a favor da segunda hipótese, porque nem Marx, nem Engels se encontravam, então, em contato direto com os diversos órgãos especificamente operários existentes na América.[14] Três desses jornais, entretanto, retomaram em parte o texto da entrevista: o New Yorker Wolkszeitung[15] e o Vorbote de Chicago[16] publicaram, tanto um como o outro, uma versão alemã bastante defeituosa e, às vezes, adaptada a fins propagandísticos evidentes; The Socialist, hebdomadário em língua inglesa de Chicago e "órgão oficial do Partido Socialista do Trabalho"reproduziu, por sua vez, a última resposta de Marx ao se interlocutor.[17] O órgão do partido dinamarquês, o Social-Demokraten de Copenhaguem, reproduziu o texto com base na versão do Vorbote. [18]
O anonimato do entrevistador, a forma jornalística do texto e o fato de que Marx jamais tenha assinalado a existência dessa entrevista, proíbem, certamente, que dele sejam tiradas conclusões devidamente estabelecidas, no que concerne a certos pontos de teoria e de história, tais como, por exemplo, a questão de saber em que medida os interesses dos diversos partidos operários se diferenciam uns dos outros, e outras questões levantadas no curso dos vinte anos de intercâmbio epistolar entre Lassalle e Marx. Mais ainda, é verossímil que nem o assunto nem a terminologia marxiana fossem muito familiares ao jornalista americano; também a entrevista, provavelmente, não deixa de ter algumas inexatidões e deformações. É, portanto, com essas restrições que o texto abaixo pode oferecer um complemento de informações para o conhecimento de Marx. Além dessas reservas e do fato de que o caráter de entrevista do texto não permite que lhe seja atribuída uma autenticidade absoluta, será preciso ainda se resignar aos deslizes de sentido que uma tradução inevitavelmente comporta.
As respostas de Marx foram traduzidas tão fielmente quanto possível a partir do original inglês. Não consideramos necessário reter os subtítulos, devidos à redação do Chicago Tribune, e substituímos, pelas simples fórmulas "Pergunta" e "Marx", as expressões floreadas com que o entrevistador salpicou seu texto.
* * *
KARL MARX: Entrevista com o fundador do socialismo moderno[19] – Do nosso correspondente exclusivo em Londres
Londres, 18 de dezembro (1878). – Karl Marx, fundador do socialismo moderno, mora numa pequena casa em Haverstock Hill, bairro do noroeste de Londres. Banido em 1844 de sua pátria, a Alemanha, por ter propagado teorias revolucionárias, vive desde então no exílio. Retornou ao seu país em 1848, mas foi expulso dois meses depois de seu retorno. Marx estabeleceu-se, em seguida, em Paris, onde, já no ano seguinte, suas idéias políticas lhe valeram uma nova expulsão. Desde então, fez de Londres o seu quartel-general.[20] Suas convicções não cessaram, desde o primeiro dia, de lhe criar dificuldades e, a julgar pelo aspecto de sua casa, elas não lhe proporcionaram grande conforto. Durante todo esse tempo, Marx pregou suas convicções com uma obstinação indubitavelmente fundada na certeza que tem da justeza delas. Por mais que se possa ser contrário à difusão de idéias, é preciso admitir que a abnegação deste homem, atualmente em idade venerável, merecer certa apreciação.
Encontrei-me duas ou três vezes com o Dr. Marx, que me recebeu em sua biblioteca, sempre com um livro numa mão e um cigarro na outra. Ele deve ter mais de setenta anos.[21] É um homem solidamente constituído, de ombros largos e porte ereto. Tem a fronte intelectual e os modos do judeu culto; sua cabeleira e sua barba são longas e grisalhas; sobrancelhas espessas sombreiam seus olhos negros e brilhantes. Nada inclinado à circunspecção, reserva aos estrangeiro em geral a melhor acolhida. Todavia; o venerando alemão, que recebe o visitante, não aceita dialogar com qualquer de seus compatriotas senão quando este lhe apresenta uma carta de recomendação. Assim que se adentra à biblioteca e Marx tenha ajustado seu monóculo, maneira de assumir a postura intelectual, abandona a reserva que até aí demonstrara. Então ele expõe, diante do visitante cativado, seu conhecimento dos homens e das coisas de todos os recantos do mundo. Ao longo da conversa, longe de se revelar um espírito limitado, toca em tantos assuntos quantos são os volumes dispostos sobre as prateleiras de sua biblioteca. Pode-se julga-lo a partir dos livros que lê. O leitor terá uma idéia quando lhe tiver dito o que me revelou uma rápida olhada às prateleiras: Shakespeare, Dickens, Thacheray, Molière, Racine, Montaigne, Bacon, Goethe, Voltaire, Paine; coleções administrativas (Blues books) inglesas, americanas e francesas; obras políticas e filosóficas em russo, alemão, espanhol, italiano etc.
Para minha grande surpresa, nossos colóquios me revelaram que Marx conhecia a fundo os problemas americanos dos últimos vinte anos. A singular justeza das críticas que dirigia ao nosso sistema legislativo, tanto o da União quanto o dos Estados, me deu a impressão de que possuía dados de fontes bem-informadas.[22] Contudo, esse saber não se limita à América, mas engloba, igualmente toda a Europa.
Quando chega ao seu tema predileto, o socialismo, não se lança às tiradas melodramáticas que lhe são geralmente atribuídas. Atém-se a seus planos utópicos de "emancipação do gênero humano" com uma gravidade e uma energia que demonstram que está convencido de suas teorias se realizarão um dia, no próximo, se não for neste século.
O Dr. Karl Marx talvez seja conhecido na América sobretudo por sua dupla qualidade de autor de O Capital e de fundador da Internacional, ou, pelo menos, como um de seus principais sustentáculos. A entrevista que segue esclarecerá o que ele pensa desta associação na sua forma atual. Eis aqui, antes de mais nada, alguns excertos dos estatutos publicados em 1871 aos cuidados do Conselho Geral, que permitem, a qualquer um, formar um juízo imparcial sobre o objeto e a finalidade da Internacional[23].
Durante a minha visita, assinalei ao Dr. Marx que J. C. Bancroft Davis havia juntado ao seu relatório oficial de 1877 um programa que me parecia ser, até ao presente, a mais clara e concisa exposição dos objetivos do socialismo[24]. Respondeu-me que esse programa fora extraído da ata do Congresso socialista de Gotha, realizado em maio de 1875, mas que a tradução estava repleta de equívocos. O Dr. Marx fez-me o favor de corrigi-la e transcrevo aqui o texto tal como me foi ditado[25].
1.º) Sufrágio universal, igual, direto, secreto e obrigatório para todos os cidadãos maiores de vinte anos e para todas as eleições gerais e comunais. O dia da eleição será um domingo ou um dia feriado.
2.º) Legislação popular direta. A guerra e a paz decididas pelo povo.
3.º)Nação Armada. Substituição do exército permanente pela milícia popular.
4.º) Supressão das leis de exceção, notadamente das leis sobre a imprensa, reuniões e associações; em geral, de todas a leis que restringem a livre manifestação das opiniões, da liberdade de pensamento e pesquisa.
5.º) Instituição de tribunais populares. Gratuidade da justiça.
6.º) Educação geral e igual do povo pelo Estado. Obrigação escolar. Instrução gratuita em todos os estabelecimentos escolares[26].
7.º) Máxima extensão possível dos direitos e liberdade, no sentido das reivindicações acima citadas.
8.º) Imposto único e progressivo sobre a renda, para o Estado e as comunas, em lugar de todos os impostos indiretos, especialmente daqueles que sobrecarregam o povo.
9.º) Direito ilimitado de associação.
10.º) Jornada de trabalho correspondente às necessidades sociais. Proibição do trabalho aos domingos.
11.º) Interdição do trabalho das crianças, bem como do trabalho cuja natureza prejudique a saúde e seja ofensivo à moral da mulher.
12.º) Leis de proteção à vida e à saúde dos trabalhadores. Controle sanitário dos alojamentos operários. Fiscalização do trabalho nas usinas, fábricas e oficinas, bem como do trabalho a domicílio, por funcionários eleitos pelos trabalhadores. Lei delimitando claramente as responsabilidades.
13.º) Regulamentação do trabalho nas prisões.[27]
A comunicação de Bancroft Davis contém ainda um décimo segundo artigo, o mais importante de todos, que reivindica:
"O estabelecimento de cooperativas socialistas de produção com a ajuda do Estado, sob o controle democrático da população trabalhadora."
Quando pergunto ao Doktor por que ele omitiu este artigo, ele me responde:
Marx – Na época do Congresso de Gotha, em 1875, havia uma cisão na social-democracia. Os partidários de Lassalle formavam uma de suas alas; a outra havia adotado em geral do programa da Internacional e era chamada de partido dos eisenachianos. O décimo segundo artigo, de que estamos tratando aqui, não pertencia ao programa propriamente dito, mas fora inserido na introdução geral como uma concessão aos lassalianos. Não se voltou a falar dele depois disso. O senhor Davis não se refere ao fato de que este artigo foi introduzido no programa a título de compromisso, sem nenhuma importância particular. No entanto, enfatiza-o, com a maior seriedade, como se se tratasse de um ponto fundamental.[28]
Pergunta – Mas os socialistas não consideram, então, a passagem dos meios de trabalho à propriedade social coletiva como o grande objetivo do movimento?
Marx – Certamente, dizemos que tal será o resultado do movimento. É portanto uma questão de tempo, de educação e do desenvolvimento de formas sociais superiores.
Pergunta – Este programa é aplicável unicamente à Alemanha e a mais um ou dois outros países?
Marx – Extrair de um programa apenas essas conclusões seria desconhecer as atividades do movimento. Numerosos pontos deste programa não têm a menor significação fora da Alemanha. A Espanha, a Rússia a Inglaterra e a América do Norte têm seus próprios programas particulares. O único ponto comum é o objetivo final.
Pergunta – E esse objetivo final é o poder operário?
Marx – É a emancipação dos trabalhadores.[29]
Pergunta – Os socialistas europeus encaram com seriedade o movimento americano?
Marx – Sim. Esse movimento é o resultado natural do desenvolvimento desse país. Tem-se dito que lá o movimento operário foi importado do estrangeiro. Quando, há uns cinqüenta anos, o movimento operário tinha dificuldades em abrir caminho na Inglaterra o mesmo foi pretendido. E isso muito tempo antes de se falar em socialismo! Na América, o movimento operário adquiriu, a partir de 1857, uma importância maior[30]. Foi quando os sindicatos locais tomaram impulso, na seqüência uma central sindical reuniu diversas categorias profissionais, depois do que surgiu a União Nacional dos Trabalhadores. Esses progressos cronológicos demonstram que o socialismo nasceu na América, sem apoio estrangeiro, pura e simplesmente da concentração do capital e das mudanças ocorridas nas relações entre operários e patrões.
Pergunta – O que o socialismo conseguiu até hoje?
Marx – Duas coisas: os socialistas demonstraram que, em toda parte, ma luta geral opõe o Capital ao Trabalho, em suma, demonstraram o seu caráter cosmopolita. Em conseqüência, procuraram efetivar um acordo entre os trabalhadores de diversos países. Este acordo é tanto mais necessário visto que os capitalistas se tornam cada vez mais cosmopolitas. Não é somente na América, mas também na Inglaterra, França e Alemanha, que trabalhadores estrangeiros são engajados para serem utilizados contra os trabalhadores do próprio país. Criaram-se, imediatamente, vínculos internacionais entre os trabalhadores de diversos países. Eis o que provou que o socialismo não era unicamente um problema local, mas, antes, um problema internacional, que deve ser resolvido pela ação igualmente internacional dos trabalhadores. A classe operária põe-se espontaneamente em movimento, sem saber para onde o movimento a conduzirá. Os socialistas não criaram o movimento, mas explicaram aos operários seu caráter e seus objetivos.
Pergunta – Quer dizer, a derrubada da ordem social dominante?
Marx – Neste sistema, o capital e a terra são propriedades dos empresários, enquanto o operário não possui nada além de sua força de trabalho, que é constrangido a vender como uma mercadoria. Afirmamos que este sistema não constitui nada mais do que uma fase histórica, que ele desaparecerá e cederá lugar a uma ordem social superior. Notamos por toda parte a existência de uma sociedade dividida (em classes). O antagonismo entre essas duas classes caminha, lado a lado, com o desenvolvimento dos recursos industriais nos países civilizados. Do ponto de vista socialista, os meios para transformar revolucionariamente a fase histórica presente já existem. Em numerosos países, organizações políticas tomaram impulso a partir dos sindicatos. Na América, é evidente, hoje, a necessidade de um partido operário independente. Os trabalhadores não podem mais confiar nos políticos. Os especuladores e as "claques" se apoderaram dos órgãos legislativos e a política tornou-se uma profissão. Não é somente o caso da América, mas aí o povoe mais resoluto do que na Europa; as coisas amadureceram mais rápido, não se faz rodeios e se vai direto aos fatos.
Pergunta – Como o senhor explica o rápido crescimento do partido socialista na Alemanha?
Marx – O atual partido socialista teve um nascimento tardio. Os socialistas alemães não tiveram de romper com os sistemas utópico, que alcançaram certa importância na França e na Inglaterra. Os alemães, mais do que outros povos, são inclinados à teoria e tiraram outras conclusões práticas das experiências anteriores. Não esqueça, acima de tudo, que na Alemanha, ao contrário de outros países, o capitalismo moderno é coisa completamente nova. Coloca, na ordem do dia, questões já um tanto quanto esquecidas na França e na Inglaterra. As novas forças políticas, às quais os povos desses países se submeteram, encontraram em face delas, na Alemanha, uma classe operária já convicta das teorias socialistas. Assim, os trabalhadores puderam formar m partido político independente, quase simultaneamente à instalação da indústria moderna (em seu país). [31] Eles têm seus próprios representantes no Parlamento. Como não existe nenhum partido de oposição à política governamental, este papel recai sobre o partido operário. Retraçar aqui a história do partido levaria demasiado longe, mas posso dizer o seguinte: se a burguesia alemã não fosse composta pelos maiores poltrões, ao contrário das burguesias americana e inglesa, ela de há muito teria se oposto politicamente ao regime.
Pergunta – Quantos lassalianos existem nas fileiras da Internacional?
Marx – Enquanto partido, os lassalianos não existem. É claro, podem ser encontrados, entre nós, alguns adeptos, mas apenas um pequeno número. Anteriormente, Lassale fazia uso dos nossos princípios gerais. Quando lançou seu movimento, depois do período de reação que se seguiu a 1848, acreditava que o melhor meio de reanimar o movimento operário consistia em pregar a cooperativa operária de produção. Ele queria, desse modo, estimular os trabalhadores à ação; era, a seus olhos, um simples meio de atingir o objetivo real do movimento. Possuo cartas de Lassale que vão nesse sentido[32].
Pergunta – Era, então, de certa forma, uma panacéia?[33]
Marx – Exatamente. Ele procurou Bismarck para lhe expor suas intenções. E Bismarck encorajou as aspirações de Lassale de todas as maneira concebíveis.
Pergunta – O que Bismarck tinha em mente?
Marx – Ele queria jogar a classe operária contra a burguesia oriunda da Revolução de 1848.
Pergunta – Diz-se que o senhor é a cabeça e o guia do movimento socialista e que, da sua casa, o senhor puxa todos os cordéis das organizações, revoluções etc. É verdade?
Marx – Eu sei disso. É uma coisa absurda, mas que tem seus aspectos cômicos. Assim, dois meses antes do atentado de Hödel, Bismarck queixou-se, na Norddeutsche Zeitung, da aliança que eu teria estabelecido com o Superior dos jesuítas, Beckx; teria sido por culpa nossa que ele não pudera encetar o movimento socialista[34].
Pergunta – Mas é mesmo a vossa "Associação Internacional" de Londres que dirige o movimento?
Marx – A Internacional teve sua utilidade, mas seu tempo expirou e ela deixou de existir. Ela teve sua atividade, dirigiu o movimento. Mas o crescimento do movimento socialista, no curso dos últimos anos, a tornou supérflua. Em diversos países surgiram jornais, que mantém relações recíprocas. Este é o único vínculo que os partidos de diversos países conservam entre si.[35] A Internacional foi criada, antes de tudo, com o objetivo de reunir os trabalhadores e de lhes mostrar que valia a pena congregar suas diversas nacionalidades no seio de uma organização. Mas os interesses dos partidos operários não são idênticos nos diversos países. O espectro de um chefe da Internacional, sediado em Londres, é uma pura e simples invenção. Entretanto, é exato que demos instruções às organizações operárias, na época em que a associação das Secções Internacionais estava solidamente estabelecida. Desse modo, fomos obrigados a excluir algumas secções de Nova Iorque, entre outras, aquela na qual figurava em primeiro plano a senhora Woodhulll. Isto aconteceu em 1871. Havia numerosos políticos americanos que teriam, deliberadamente, feito do movimento um negócio pessoal. Não quero citar nomes: os socialistas americanos os conhecem muito bem.
Pergunta – Atribui-se ao senhor, como a seus partidários, Dr. Marx, toda sorte de propósito incendiários contra a religião. Com toda certeza, o senhor veria com prazer a eliminação radical deste sistema?
Marx – Não ignoramos que é insensato tomar medidas violentas contra a religião. Segundo nossas concepções, a religião desaparecerá à medida que o socialismo se fortalecer. A evolução social vai, infalivelmente, favorecer esse desaparecimento, no qual cabe à educação um papel importante.
Pergunta – Recentemente, em uma conferência, o pastor Joseph Cook[36], de Boston, enfatizava que seria preciso dizer a Karl Marx que uma reforma do trabalho é realizável, sem revolução sangrenta, nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, talvez também na França, mas que na Alemanha e na Rússia, assim como na Itália e na Áustria, será preciso derramar sangue para isso.
Marx – Já ouvi falar do senhor Cook. Ele não conhece grande coisa de socialismo. É desnecessário ser socialista para observar e prever que revoluções sangrentas se produzirão na Rússia,[37] na Alemanha, na Áustria e talvez na Itália, se os italianos continuarem a progredir na direção em que se encontram atualmente. Nesses países, acontecimentos comparáveis aos da Revolução Francesa poderiam efetivamente se produzir. Trata-se, neste caso, de uma evidência que salta aos olhos de qualquer um que esteja informado sobre a situação política. Mas essas revoluções serão feitas pela maioria. As revoluções não serão mais feitas por um partido, mas por toda a nação.
Pergunta – O referido religioso citou uma passagem de uma carta, que o senhor teria enviado em 1871 aos comuneiros parisienses, na qual se lê: "Hoje somos três milhões ou mais. Mas, em vinte anos, nós seremos cinqüenta ou talvez cem milhões. Então, o mundo nos pertencerá uma vez que não apenas Paris, Lyon e Marselha, mas também Berlim, Munique, Dresden, Londres, Liverpool, Manchester, Bruxelas, São Petersburgo e Nova Iorque, em suma, o mundo inteiro sublevar-se-á contra o odioso capital. Em face dessas novas insurreições, jamais vistas pela história até agora, o passado se dissipará como um pesadelo apavorante: o incêndio popular, lavrando em cem lugares ao mesmo tempo, aniquilará até mesmo a lembrança do passado." Doutor, admite ter escrito essas linhas?
Marx – Nem uma única palavra! Jamais escrevi semelhante absurdos melodramáticos. Reflito maduramente aquilo que escrevo. Isto foi forjado, e apareceu no Fígaro com a minha assinatura. Naquele momento, fizeram circular centenas de cartas desse gênero. Escrevi ao Times de Londres para declará-las falsas. Mas se quisesse desmentir tudo que se diz e escreve a meu respeito seria necessária empregar vinte secretárias.
Pergunta – Mas, mesmo assim, o senhor escreveu em favor da Comuna de Paris?
Marx – De certo que fiz, em face do que fora dito a respeito nos editoriais. Todavia, alguns correspondentes parisienses desmentiram bastante, na imprensa inglesa, alegações daqueles editoriais relativos a dissipações etc. A Comuna não executou mais do que umas sessenta pessoas, aproximadamente. Marechal Mac Mahon e seu exército de carniceiros mataram mais de sessenta mil. Nenhum movimento desse gênero foi tão caluniado quanto a Comuna.
Pergunta – Os socialistas consideram o assassinato e o derramamento de sangue necessários à realização de seus princípios?
Marx – Nenhum grande movimento nasceu sem derramamento de sangue. Os Estados Unidos da América não adquiriram sua independência senão pelo derramamento de sangue. Napoleão III conquistou a França através de atos sangrentos e foi vencido da mesma maneira. A Itália, Inglaterra, Alemanha e os outros países fornecem uma pletora de exemplos do mesmo gênero. Quanto ao homicídio político, não é uma novidade pelo que se sabe. Orsini, sem dúvida, tentou matar Napoleão III, mas os reis mataram mais homens do que ninguém. Os jesuítas mataram, e os puritanos de Cromwell mataram. Tudo isso se passou muito antes de que se tivesse ouvido falar dos socialistas. Hoje, no entanto, se lhes atribui a responsabilidade de todo atentado contra os reis e os homens de Estado. A morte do imperador da Alemanha seria, agora, particularmente deplorada pelos socialistas: ele é muito útil em seu posto, e Bismarck fez mais por nosso movimento do que qualquer outro homem de Estado, pois impeliu as coisas ao extremo[38].
Pergunta – O que pensa de Bismarck?
Marx – Antes de sua queda, tinha-se Napoleão III por gênio; depois ele foi chamado de louco. Acontecerá o mesmo com Bismarck. Sob pretexto de unificar a Alemanha, ele se pôs a edificar um regime despótico. Quem não vê onde ele quer chegar? Suas manobras mais recentes não são nada mais do que um golpe de estado travestido, mas Bismarck fracassará. Os socialistas alemães e franceses protestaram contra a guerra de 1870, mostrando que se tratava de uma guerra puramente dinástica. Em seus manifestos, advertiam o povo alemão que, se ele permitisse a transformação da pretensa guerra de defesa em guerra de conquista, seria punido pela instauração de um despotismo militar e pela opressão brutal das massas trabalhadoras. Naquela época, o partido social-democrata da Alemanha realizou reuniões e publicou manifestos nos quais se pronunciava em favor de uma paz honrosa com a França. O governo prussiano desencadeou imediatamente as perseguições contra o partido e muitos de seus dirigentes foram presos. Apesar disso, seus deputados, eles e somente eles, no Reichstag, ousaram protestar com a maior veemência contra a anexação pela força de uma província francesa. Bismack, entretanto, impôs sua política pela violência e falou-se do gênio de Bismarck. A guerra estava terminada como ele não podia fazer novas conquistas, mas devia fabricar idéias originais faliu lamentavelmente[39]. O povo perdeu a fé que tinha nele e sua popularidade está em declínio. Com a ajuda de uma pseudoconstituição e com vistas a realizar seus planos militares e de unificação, impôs pesados impostos ao povo, a um ponto que o povo não aceita mais, e ele tenta agora fazê-lo aceitar sem constituição. A fim de poder continuar a sangrá-lo a seu gosto, pôs-se a agitar o espectro socialismo e fez[40] todo o possível para provocar uma sublevação popular.
Pergunta – O senhor recebe, regularmente, relatórios de Berlim?
Marx – Sim, sou muito bem informado pelos meus amigos. Berlim está perfeitamente tranqüila e Bismarck decepcionado. Ele interditou a permanência de quarenta e oito dirigentes, entre os quais os Deputados Hasselmann e Fritzche, bem como a Rackow, Baumann e Auer da Freie Presse.[41] Estes homens exortaram o povo berlinense a manter a calma e Bismarck o sabe. Também sabe muito bem que, em Berlim, 75.000 operários estão à beira de morrer de fome. Ele conta firmemente com que, afastados os dirigentes, produzir-se-ão os motins que darão o sinal para um banho de sangue.[42] Então, poderia algemar todo o Império alemão e dar livre curso à sua cara política militarista; não haveria mais limites para a elevação dos impostos. Até o presente, nenhuma desordem aconteceu e Bismarck, desolado, se apercebe de que é a si próprio que deve censurar, diante de todos os homens de estado.
NOTAS
* A entrevista de Marx ao Chicago Tribune foi traduzida, aos cuidados de Bert Andréas (1914-1984), para o alemão no Archiv fur Sozialgeschichte, V, 1965, p. 363-76, sob o título: "Marx uber die SPD, Bismarck und das Socialistengesetz". As notas foram redigidas e acrescentadas pelo apresentador, quando da versão francesa, publicada, no primeiro trimestre de 1968, pelo Número Especial (7) de L'Homme et la Société, por ocasião do 150º Aniversário do Nascimento de Karl Marx. Tradução do francês por W. M. David. Revisão técnica de J. Chasin.
1. [1] Karl Oberman reproduziu, a partir da segunda edição russa das Obras Completas de Marx-Engels (Sotchinenya XXXIV, p. 404), a única passagem da qual teve conhecimento, cf.: "Die Beziehungen Von Marx un Engels suramerikanischen Arbeiterbewegung in der Zeit Zwischen der I. um II Internacionale", Zeitschrift für Geschichtswissenschaft, 1964, 1, p. 62-71.
2. Cf. "Second Supplement to Marx and Engels: American manuscripts and imprints 1846 till 1894", prepared by Louis Lazarus", no Library Bulletin, n.º 40, mai 1964, do Taminent Institute Library, de N. Iorque, onde figura sob o n.º E 33. A maior parte dessa bibliografia, e uma primeira lista suplementar, foram publicadas nos ns. 35 e 39 do Library Bulletin, janeiro e novembro de 1963. Lazarus não menciona o fragmento publicado por Oberman.
3. De 28 de novembro de 1878 a 10 de abril de 1879, ambos trocaram segundo tudo indica, não mais do que seis cartas.
4. Cf. nota 22.
5. Cf. nota 32.
6. Cf. nota 35.
7. Cf. nota 37.
8. Cf. nota 38.
9. Cf. nota 39.
10. Cf. nota 42.
11. Cf. nota 41.
12. Oberman parece inclinado a pensar que a entrevista não deixava de ter relação com os "desvios anarquistas que então ganhavam terreno em Chicago" (cf. art. cit. p. 67, n.º 1). Os primeiros germes, daquilo que devia tornar-se o movimento anarquista, aparecem no seio da social-democracia americana durante o verão de 1879, em Chicago, e é em Alleghany, no 2.º Congresso Nacional do Partido Socialista do Trabalho, que os anarquistas constituíram um pequeno grupo. Most, seu futuro porta-voz, chegou à América do Norte, pela primeira vez, no fim de 1882. No momento a entrevista ele ainda visitava Marx. Quem – como ele escrevia a Sorge, a 19 de setembro de 1879 – observava a seu respeito uma atitude "passiva".
13. Algumas semanas antes de editar a entrevista, a Tribune publicou um curto histórico do movimento socialista nos Estados Unidos, no qual Marx e seus amigos eram apresentados nos seguintes termos: "Essa gente tem por princípios e por objetivo a subversão e os piores excessos. Eles deixarão os campos em paz durante um certo tempo, mas nas cidades é preciso contar com o surgimento do perigo do internacionalismo" (The Chicago Tribune, Its First Hundred Years, Chicago, 1946, II, p. 190).
14. ] Dos numerosíssimos jornais fundados durante os anos de crise e de lutas de 1876-1878, sobreviviam, entre outros, no início de 1879, os diários de língua alemã Philadelphia Tageblatt, New Yorker Volkszeitung e Vorbote, assim como semanários em língua inglesa Labor Standart de New York e The Socialist de Chicago.
15. 10 de janeiro de 1879, Ano 2, n.º10, p. 2, col. IV-VI.
16. 11 de janeiro de 1879, Ano 2, n.º8, p. 8, col. II-VI.
17. Cf. nota 34.
18. O Social-Demokraten era um diário. Publicou sua tradução sob o título: "Colóquio de Karl Marx com jornalista americano", em seus números de 9 e 10 de abril de 1879 (Ano 5, nº 84, p. 1, col. I-IV, e n.º 85, p. 1, col. IV, p. 2, col. III).
19. The Chicago Tribune, Ano 39, 5 de janeiro de 1879, p. 7, col. I-III.
20. [20] A passagem evidencia a imprecisão do jornalista norte-americano quanto aos lances reais do exílio de Marx. Basta referir que o "retorno" de 48 (abril), quatro anos e meio depis de ter abandonado a Alemanha em outubro de 43, não findará "dois meses depois", mas após algo mais de uma ano: a ordem de expulsão que Marx recebe em Colônia é de 16 de maio de 1849, vai para Paris onde permanece até 24 de agosto, quando abandona a França e se estabelece em Londres. (Nota da Ed. Brasileira)
21. Marx tinha, então, sessenta e um anos.
22. Em uma carta a Danielson (10 de abril de 1879), Marx menciona "a massa de materiais que recebeu, não somente da Rússia, mas também dos Estados Unidos etc.". E, a 15 de novembro de 1878, confia ao mesmo Danielson um prognóstico concernente ao desenvolvimento econômico dos Estados Unidos. Marx obtinha suas informações sobre a administração norte-americana de "fontes bem informadas", entre as quais figuravam principalmente, além de Sorge, antigo secretário do conselho geral da Internacional, Harney, um antigo dirigente cartista, que, desde o princípio dos anos 70, exercia funções administrativas em Boston, e o diretor dos levantamentos estatísticos sobre mão-de-obra, em Boston. Esse último, conforme Jürgen Kuczynski amavelmente assinala, chamava-se Carol D. Wright; Eleonor, a filha de Marx, falando de Wright, se exprime em termos muito calorosos. Um outro jornalista norte-americano com que Marx se entrevistou em Ramsgate, durante a segunda quinzena de agosto de 1880, escreve por sua vez: "Marx é um observador das coisas americanas; suas observações certas forças vivas e configuradoras da sociedade norte-americana iam muito longe", John Swinton, The Sun (New York), 6 de setembro de 1880; reproduzindo no Bulletin da Society for the Study of Labor History (Londres, n.º 12, 1966, p. 21-25). Swinton esclarece igualmente que Marx lhe declarou que o terceiro volume do Capital devia tratar do crédito e para tanto "ser clareado por numerosos exemplos tirados da história dos Estados Unidos, onde o crédito conheceu um desenvolvimento espantoso".
23. É supérfluo retomar aqui os excertos publicados pelo jornalista americano; os estatutos da Internacional são, com efeito, suficientemente conhecidos e foram, além do mais, frequentemente reimpressos por ocasião do centenário da Internacional.
24. John Chandler Bancroft Davis foi de 1874 a 1877 ministro plenipotenciário dos Estados Unidos em Berlim. A exposição sobre o socialismo na Alemanha aparece em seu relatório oficial, datado de10 de fevereiro de 187, ao ministro das Relações Exteriores norte-americano, Hamilton Fish: cf. United States Departament, Papers relating to Foreign Relations of the United States, Washington, 1877, p. 175-80.
25. O texto corresponde ao Protokoll de 1875 e conserva, em conseqüência, a numeração dos artigos do programa no original alemão, do qual o texto da entrevista se afasta.
26. Marx deixou de lado a última reivindicação formulada neste artigo: "A religião é declarada coisa privada". Em suas Glosas marginais ao programa do partido operário alemão (Crítica do Programa de Gotha, 1875, N.E.B), Marx havia repelido esta reivindicação como "burguesa", convidando o partido a proclamar sua vontade de "libertar as consciências da fantasmagoria religiosa".
27. Após dois parágrafos que servem de preâmbulo, o programa de Gotha articula seis reivindicações de caráter geral, numeradas de 1 a 6 (artigos acima, de 1 a 6) e oito reivindicações a serem atendidas "no seio da sociedade atual", numeradas novamente de 1 a 8 (artigos 7 a 13 acima). Falta aqui, em contrapartida, a última dessas oito reivindicações ("Administração rigorosamente autônoma de todas as caixas de assistência e de seguro mútuo").
28. O relatório citado na nota 24 não é de nenhuma maneira a tradução dos artigos do programa de Gotha, mas somente um condensado desse programa em doze pontos abreviados. Os artigos 1 a 3 (aqui 7 a 9) não figuram na tradução, e no final a reivindicação aqui discutida, que provém do preâmbulo, aparece sob o número 12. De resto, Marx se engana quando censura Davis de ter acentuado particularmente este artigo. Lê-se, com efeito, no relatório de Davis: "O ministro do Interior, conde de Eulenburg insistiu vigorosamente, neste ponto, em seu discurso de fevereiro de 1876 no Reischstag. Os socialistas querem, dizia ele, que os meios de produção se tornem propriedade do Estado e que a produção seja repartida e utilizada em função das necessidades coletivas".
29. Essa passagem – pergunta e resposta – foi suprimida, entre outras atrocidades cometidas a péssima e viciada edição espanhola da Entrevista, que apareceu em Angiolina Arru, Clase y Partido em la Internacional, Comunication, Serie B. N.º 38, Madrid. (N.E.B).
30. A crise econômica de 1857 provocou nos Estados Unidos um desemprego como nunca se tinha visto até então. Os diversos sindicatos locais se esforçaram a partir de 1858, com força sempre crescente e também com êxito na maioria das vezes, para elevar o nível dos salários, rebaixado ao longo da crise.
31. Cf. O estudo que Engels começou a redigir em 1888, a propósito do Papel da Violência na História, onde escreve: "A grande indústria e, com ela, a burguesia e o proletariado se constituíram (na Alemanha) numa época em que, quase ao mesmo tempo em que a burguesia, o proletariado estava em condições de ingressar na cena política" (Werke, XXI, p. 454).
32. Ambos, Marx e Lassale, afirmaram que seus contatos epistolares afrouxaram em finais de 1862. Não se encontra nenhuma menção, nas cartas de Lassale a Marx, àquilo que este último apresenta, mais acima, como uma consideração tática: Lassale lançou sua campanha de agitação título "Programa operário", onde não falava ainda em recorrer à ajuda do Estado em favor das cooperativas operárias de produção. Esta reivindicação aparece pela primeira vez, sob a pena de Lassale, na Offnes Antwortschreiben ("Resposta Pública") datada de março de 1863. É possível que Lassale tenha dado as referidas explicações, após sua ruptura tácita com Marx, em carta a um terceiro, da qual Marx teria tido conhecimento.
33. Na sua crítica ao programa de Gotha, Marx caracteriza esta reivindicação como a "panacéia do profeta".
34. Pierre-Jean Beckx era, desde 1853, Superior da Ordem dos Jesuítas. Em outubro-novembro de 1877, um jornal fiel a Bismarck, Norddeutsche Allgemeine Zeitung, já fazia eco às "combinações de Marx e Beckx".
35. Engels escrevia neste sentido à J. Ph. Becker, a 10 de fevereiro d e1882: "De um certo ponto de vista a Internacional subsiste efetivamente. O vínculo entre os partidos revolucionários de todos os países, na medida em que possa ser mantido, tem efetivamente existido. Todo jornal socialista constitui um centro internacional. De Genebra, Zurique, Londres, Paris, Bruxelas, Milão partem os fios se cruzam em todas as direções".
36. O pastor Joseph Cook, antigo aluno da Universidade de Harvard, fazia, depois de 1873, nos Estados Unidos, conferências de vulgarização científica nas quais se esforçava em provar que a religião cristã e a Bíblia estavam em perfeito acordo com a ciência. Essas conferências foram publicadas aproximadamente à mesma época da entrevista sob os títulos: Labor (Boston, 1879) e Socialism (Boston, 1880).
37. Cf. esta passagem de uma carta que Engels escrevia a 21 de março de 1879 à Plebe, a propósito das leis de exceção na Alemanha, e que o jornal italiano publicou a 30 do mesmo mês: "Na Rússia, o homicídio político é o único meio que os homens inteligentes, razoáveis e de caráter firme têm para se defender contra os agentes de um despotismo inaudito" (Werke, XIX, p. 149).
38. Cf. Engels, falando da política militarista de Bismarck no artigo "Offziöses Kriegsgeul" ("Rumor de botas nos bastidores") publicado no Volkstaat de 23 de abril de 1875: "Não é senão a partir de seu próprio interior que o sistema será abalado até o topo (...), não é senão em razão de seus efeitos inelutáveis que o sistema poderá findar um dia por desabar. E quanto mais essas oscilações se ampliarem, mais cedo ele deverá desmoronar" (Werke, XVIII, p. 583).
39. Engels exprime-se de modo absolutamente idêntico a respeito de Bismarck, no texto de 1888 que citamos na nota 27, ao visualizar retrospectivamente a ação política deste último, depois da guerra vitoriosa de 1870/71: "Tratava-se, agora, de saber o que (Bismarck) ia fazer daquela potência (...), ele precisava traçar planos, mostrar que idéias podiam germinar em sua cabeça". E Engels acrescenta mais à frente, depois de uma análise circunstanciada da política interna de Bismarck: "A mesquinharia da concepção, a baixeza do ponto de vista (...) correspondem completamente ao caráter desse senhor (...) É válido, portanto, se espantar que seus grandes êxitos não lhes tenham permitido se elevar, apenas por um momento, acima de si próprio" (Werke, XXI, p. 449 e 456).
40. A partir desse ponto, o texto da entrevista foi publicado sob forma ligeiramente modificada, no Socialist (Chicago) de 11 de janeiro de 1879 (Ano 1, n.º 18 ), com o título "Karl Marx Weel – Informed". Obermann deu uma tradução alemã dessa passagem no artigo citado à nota 1 (art. cit. p. 66).
41. Ao todo não foram 48, mas "67 de nossos camaradas, os mais conhecidos do partido (...) que tiveram sua permanência interditada", dos quais "a maioria devia abandonar a cidade em 48 horas" (A. Bebel, Aus Meinem Leben, Stuttgart, 1914, III, p. 24). O jornalista americano, ou Marx, confundiu as duas cifras. A menção às medidas de interdição de permanência permite supor que a última conversa entre Marx e o repórter do Chicago Tribune ocorreu na primeira semana de dezembro de 1878: o correio expresso de Londres a Chicago gastava então cerca de três semanas para chegar ao destino.
42. Cf. a carta enviada, mais ou menos ao mesmo tempo, por Engels a J. Ph. Becker, em 12 de dezembro de 1878, na qual figura esta passagem: "Bismarck espera que os bandos anarquistas e duhringianos venham a romper a coesão dos nossos e engendrar assim aquilo que ele mais deseja uma tentativa de putsch que lhe permitirá disparar".