segunda-feira, 30 de maio de 2011

Antissemitismo? Em memória de Simón Radowitzky e Raymundo Gleyzer (Néstor Kohan)

Néstor Kohan

Conheci pessoalmente Néstor Kohan, em Caracas, há dois meses, quando ambos participamos de duas mesas em eventos promovidos pelo Movimento Continental Bolivariano: um seminário sobre Marx e um ato público pelo Dia do Direito à Rebelião dos Povos.

Convivemos alguns dias e surgiu logo uma grande empatia. Conversamos muito, numa mistura de espanhol e português. Mas nos entendemos bem e descobrimos muitas identidades em nossa visão do mundo. Jamais perceberia sua origem familiar e étnica, se ele não me autorizasse a traduzir e publicar o seu texto abaixo. Mandou-me em solidariedade ao PCB, acusado recentemente de antissemita. Sabia apenas do detalhe de que o marxista Néstor é argentino, como podia ser brasileiro, afegão, angolano: afinal, ele é um internacionalista. Mas conhecer mais este detalhe sobre o camarada Nestor me faz ficar mais orgulhoso de o ter conhecido.

Ivan Pinheiro - secretário geral do PCB

Os fatos

O que se sabe: saiu publicado na capa do Clarín e foi exibido em vários canais de televisão. Na Argentina, ocorreu um pequeníssimo ato – algumas poucas centenas de pessoas, não chegavam a quinhentas –, em comemoração ao estado Israel, organizado pela embaixada desse país junto com o governo portenho da direita neoliberal clássica, vinculada ao empresário Maurício Macri. Um grupo muito pequeno de manifestantes – menos de duas dezenas – tentavam divergir do sionismo, distribuindo panfletos no ato. Armou-se um alvoroço. Repressão policial. Os manifestantes, críticos do sionismo, foram golpeados e presos. Uma brutal campanha midiática para ilegalizar a esquerda. A acusação central: "anti-semitismo". Perseguições, invasões, prisões, julgamentos. Tentativa de eliminar projetos sociais e os questionamentos de todo movimento piqueteiro não-oficial.

Sob pressão da embaixada do estado de Israel e da embaixada dos Estados Unidos na Argentina, o governo de Cristina Kirchner e os juízes invadiram um local piqueteiro, na cidade de Buenos Aires, prenderam outros dez militantes, mais os que já estavam presos pelo ato. Histeria midiática acusa toda a esquerda não institucional – principalmente de origem marxista – de... "anti-semita".
Quem escreve e quem opina?
Alguns anti-semitas dissimulam e escondem seus preconceitos com o confuso e manipulado "tenho um amigo judeu". Eu não tenho um amigo judeu. Simplesmente, parte de minha família foi torturada e massacrada pelos genocidas nazistas (genocídio que não teve nada de "holocausto". Não foi "um castigo de Deus", mas sim um empreendimento político bem mundano e terreno, planejado e executado de forma burocrática, a partir de um projeto de reordenamento e contra-revolução capitalista, de cobrança europeia ocidental, cujas pretensões imperialistas apontavam para todo o planeta). Mesmo se minha família não tivesse sofrido esse genocídio na própria carne, teria, igualmente, o direito de opinar.

Nosso vínculo com os presos

Conhecemos muitos deles e delas. Com alguns, compartilhamos militância, formação política e estudo durante anos e décadas, nos bairros da periferia, da cidade de Buenos Aires, na Argentina. Da mesma forma, nas escolas de formação política do Movimento Sem Terra (MST), no Brasil. Assim como em atividades conjuntas com povos originários e indígenas da Bolívia. Todos nos conhecemos bem, principalmente, os companheiros do Movimento Teresa Rodríguez (MTR).

Assistiram nossa Cátedra Che Guevara durante anos: primeiro, na Universidade Popular Madres de Plaza de Mayo, depois, no Hotel Bauen.

Precisamente no local invadido pela polícia, conhecido no bairro Florencio Varela (um dos mais humildes da cidade de Buenos Aires) como Conselho de Castelli, criamos uma escola de formação política para moradores com estes companheiros que hoje estão na prisão, acusados de "anti-semitas". A escola foi feita de maneira totalmente gratuita, absolutamente voluntária, sem cobrar, jamais, um só peso.

Com as pessoas das comunidades, líamos e estudávamos Antonio Gramsci e Che Guevara. Gravíssimo! Terrível! Também discutíamos sobre história argentina. Assistíamos a filmes com os moradores dos bairros, donas de casa, trabalhadores empregados, trabalhadores desempregados, rapazes e moças humildes, da classe trabalhadora. Por exemplo, vimos e discutimos "Os traidores", de Raymundo Gleyzer (o que terão sentido com relação ao filme aqueles que hoje prendem estes companheiros?). Fizemos com estes companheiros, algumas vezes, oficinas de filosofia nos bairros, onde, juntos com trabalhadores e trabalhadoras, donas de casa e muitos jovens, analisamos o capítulo sete do livro Cosmos, do pesquisador, professor e astrônomo da NASA (instituição norte-americana, senhor embaixador dos Estados Unidos... Sim, norte-americana... Que horror!), Carl Sagan: "O espinhaço da noite". Gravíssimo! Perigo! Turmas de filosofia nas periferias? No meio da rua das comunidades? Em meio a crianças correndo e com cachorros latindo ao redor? Inconcebível! Gravíssimo! A filosofia é para as crianças da elite, não para gente humilde e para trabalhadores de comunidades. Terroristas! Inadaptados! Autoritários! Como ousam socializar o saber? Subversivos! Deveríamos voltar a falar latim para que a cultura seja para poucos! Loucos-varridos!

A demonização midiática é tremenda. Apresentam estes companheiros como se fossem os obscuros e monstruosos "terroristas" dos filmes mais baratos de Hollywood. Conhecemos bem esses companheiros. Se não fosse trágico, daríamos boas risadas. Certamente, riremos juntos quando estes companheiros saírem do cárcere...

O estado de Israel defende o povo judeu?

Os acusam de "anti-semitas"? Israel protege o povo judeu? A embaixada de Israel e a embaixada ianque da Argentina são os «pais» do povo judeu?

O estado de Israel fala hoje em nome das vítimas do genocídio nazista, dos sobreviventes e de suas famílias. Para legitimar-se, se auto-intitula "protetor" dos judeus, além de representante dos familiares e vítimas do nazismo.

Pensemos um pouco. Façamos memória.

Se Israel nos protege, não entendo porque o estado de Israel foi um aliado estreito e fiel de Videla e Massera, ditadores simpatizantes de Adolf Hitler (como todas as Forças Armadas argentinas, segundo demonstra o documentário «Panteón militar», do historiador e jornalista periodista Osvaldo Bayer). O general Videla era um católico ultraconservador, que preconizava a guerra contra-insurgente como se fosse uma guerra santa contra os ateus marxistas. Todos os manuais de ensino médio daquela época comprovam isso. Por sua vez, almirante Massera era integrante da organização neonazista P2. Por que o estado de Israel tinha uma aliança tão estreita com esta ditadura militar?

Nessa época, o Movimento Judeu pelos Direitos Humanos (MJDH) havia calculado que, dos 30.000 desaparecidos e desaparecidas na Argentina, aproximadamente entre 1.500 e 2.000, eram de origem judia. Uma proporção bastante maior (na realidade, corresponde a 16 vezes mais) se comparar a relação quantitativa da comunidade judia com o conjunto da população total de nosso país. Não foi casual.

Isso é explicado, ao menos, por duas razões. Em primeiro lugar, pela ativa militância do judaísmo progressista e de esquerda nas organizações revolucionárias argentinas (incluindo as político-militares PRT-ERP, FAR, Montoneros e outras similares). Em segundo lugar, pelo caráter brutalmente anti-semita dos militares argentinos. Existem numerosos testemunhos, por exemplo, no Nunca mais (um livro que não possui posições de "ultra-esquerda" precisamente, já que o prólogo de Ernesto Sábato tristemente fortaleceu a célebre "teoria dos dois demônios"), sobre a ira especial dos torturadores militares com os prisioneiros e sequestrados de origem judia, as torturas "especiais", as marchas nazistas que eles faziam escutar nas câmaras de torturas, etc. O general Camps, chefe policial que se responsabilizou pelo desaparecimento e assassinato de 5.000 prisioneiros, era um confesso anti-semita. Sempre que podia, expressava seu ódio aos judeus. Não era o único, apenas um dos mais conhecidos e cínicos.

O que fez o estado de Israel para proteger não os 30.000 desaparecidos e desaparecidas em geral, mas, especialmente, os 1.500 ou 2.000 desaparecidos judeus?

Segundo reconhece Pinjas Avivi, o então cônsul da embaixada do estado de Israel na Argentina (entre 1978 e 1981), quando acompanhou o jornalista Jacobo Timerman (um dos poucos, talvez o único, que conseguiu se salvar) ao aeroporto de Ezeiza, pediu que não denunciasse a ditadura e as tremendas torturas sofridas... Mas o contrário! "Pedi-lhe que não atacasse o governo militar porque nosso trabalho corria perigo" (Página 12, 8/9/2001). O funcionário israelense reconhece que este tipo de atitude correspondia a: "não queríamos prejudicar as relações diplomáticas entre Israel e Argentina". O mesmo funcionário diz que "houve detidos que recusaram nossa ajuda. Eles nos acusaram: vocês são colonialistas, genocidas e conquistadores. Não queremos a ajuda de vocês. São piores que os generais»" (http://www.hagshama.org.il [1/2/2000]). Iosi Sarid, um dos deputados de Israel da Frente de Esquerda Meretz, revelou que nos arquivos da chancelaria israelense e no ministério de Defesa de Israel, existem provas que negam a versão acerca da suposta "ignorância" do estado de Israel a respeito dos massivos desaparecimentos, sequestros e torturas de judeus na Argentina, "provas que trataram de ocultar para não incomodar as «boas relações» e, entre elas, a venda de armas" (18/11/2003, www.wzo.org.il).

A colaboração do estado de Israel – venda de armas, votos da ditadura a favor de Israel nas Nações Unidas, etc. – com a ditadura militar, genocida e anti-semita do general Videla não foi uma exceção. O mesmo aconteceu com outros regimes fascistas ou de extrema direita, como os de Augusto Pinochet (que usava o uniforme nazista) no Chile, Anastasio Somoza, na Nicarágua, ou o regime neonazista do apartheid, na África do Sul. Todos estreitos aliados, como Israel, da cabeça da serpente mãe extremista, o estado norte-americano: USA. Uma casualidade?
O apoio entusiasta à Somoza tinha a ver com "a defesa do judaísmo"? Os comandos israelenses hoje combatem a insurgência marxista das FARC-EP ou assessoram os narco-militares de Uribe nas selvas e montanhas da Colômbia para "defender os judeus"? Quais são os judeus que vivem nas montanhas ou selvas da Colômbia? Queremos conhecê-los para compartilhar algumas comidas ou assistirmos juntos alguns filmes de Woody Allen!

Quando o famoso intelectual norte-americano Noam Chomsky (de origem judia, que viveu vários anos em Israel e que de lá saiu sumamente decepcionado e amargurado) afirmou que as FARC-EP da Colômbia não são terroristas e que, em contrapartida, a política oficial do estado de Israel é de extrema direita, não somente no Oriente, mas em todo mundo, será ele, por acaso, um "terrorista anti-semita"?
Longe da tradição humanista de Sigmund Freud, Albert Einstein e Karl Marx, que soube defender o querido escritor judeu Isaac Deutscher, hoje Israel faz culto à limpeza étnica e à discriminação, constrói um muro de intolerância (pelo qual ninguém se "ofende", como ocorreu hipocritamente com o muro de Berlim...), legaliza a monstruosidade da tortura (chamando-a com o mesmo eufemismo utilizado pelos "democratas" norte-americanos: "interrogatórios fortes") e pratica sobre os demais o mesmo que o povo judeu sofreu na própria carne. Como bem alertou em sua época o pensador judeu Martín Buber: "Deveremos enfrentar a realidade de que Israel não está inocente nem redentora. E que em toda sua criação e expansão, nós judeus temos causado o que sofremos historicamente: uma população de refugiados na diáspora".

Como escreveu em seu livro Ser judeu o filósofo judeu e marxista argentino, León Rozitchner: "Que estranha inversão se produziu nas entranhas desse povo humilhado, perseguido, assassinado, para humilhar, perseguir e assassinar aqueles que reclamam o mesmo que os judeus reclamavam antes para si mesmos? Que estranha vitória póstuma do nazismo, que estranha destruição inseminou a barbárie nazista no espírito judeu? Que estranha capacidade volta a despertar neste apoderar dos territórios distantes, onde a segurança que se reclama é, no fundo, a destruição e dominação do outro pela força e pelo terror? Se vê, então, que quando o estado de Israel enviava suas armas aos regimes da América Latina e da África, já ali era visível a nova e estúpida coerência dos que se identificam com seus próprios perseguidores. Não esqueceremos os judeus latino-americanos. Tampouco esqueceremos Chatila e Sabra".
Quem é o inimigo?
Permitem-nos um conselho? Aos jovens do MOSSAD e das Forças Armadas de Israel, humildemente, sugerimos que se o que buscam é adrenalina e vingança pelos ferozes assassinatos nazistas do passado contra o povo judeu, pois bem, então, por que não planificar e preparar-se para atacar, de forma mortífera e demolidora, as grandes empresas europeias e norte-americanas que se enriqueceram com o genocídio nazista? Como bem explica o formidável livro Negócios são negócios. Os empresários que financiaram a ascensão de Hitler ao poder, do escritor judeu Daniel Muchnik, o nazismo não foi uma "anomalia".

As hierarquias políticas, militares e ideológicas do nazismo são conhecidas: Hermann Göring, Joseph Goebbels, Ernst Röhm, Alfred Rosemberg, Ulrich F.J.von Ribbentrop, Heinrich Himmler, Rudolf Hess, Gottfried Feder, Josef Mengele, entre outros. No entanto, muito menos o são os empresários beneficiários-cúmplices, sócios de interesses, aliados ou colaboracionistas do nazismo na Alemanha.

A lista é longa e Muchnik a percorre minuciosamente. Entre outros, inclui as empresas Siemens (elétrica), a BMW e a Volkswagen (automotivas), Fritz Thyssen (industrial siderúrgico que morreu em Buenos Aires, em 1951), Gustav Krupp (dono da gigante do aço alemão), Ernst Heinkel ("führer econômico-militar" desde 1938) e Emil Kirdorf (empresário do carvão). Estes empresários, recorda amargamente Muchnik, que utilizavam mão de obra escrava dos prisioneiros judeus, comunistas ou ciganos, saíram ilesos dos julgamentos de Nuremberg... Uma mera casualidade?

Por acaso, hoje em dia – volta a perguntar-se Muchnik – não continuam operando com total impunidade empresas de origem nazista (derivadas da IG Farben, que fabricava o raticida das câmaras de gás) como a Bayer, a Hoesch ou a BASF, acusadas por sobreviventes do genocídio nazista?

Muchnik apresenta, então, uma quantidade enorme de dados sobre a colaboração sistemática, os negócios ou, inclusive, a simpatia ideológica que mantiveram com Hitler – ainda durante a segunda guerra mundial – empresas como a General Motors (associada com IG Farben), a General Electric, a Brown Boveri (filial de Westing House), a britânica Unilever, a Shell, a United Steel, o Chase Manhattan Bank de Rockefeller, a Standard Oil, a TEXACO, a ITT (a mesma do golpe de estado de 1973, no Chile), o National City Bank, o grupo editorial Bertelsman, dono da RCA e acionista majoritário do American On Line (o principal provedor de Internet dos EUA) e a Ford. Todos eles se encheram de dinheiro com o nazismo e, hoje, em pleno século XXI, continuam engordando suas contas bancárias e suas ações com total impunidade!

Aí, os jovens do MOSSAD e das Forças Armadas de Israel teriam que atacar e dirigir sua violência mortal, não aos refugiados palestinos, não às escolas palestinas, não aos hospitais palestinos, não às famílias palestinas... O inimigo tampouco são os piqueteiros da Argentina, a insurgência da Colômbia, os negros da África do Sul. O inimigo são as grandes empresas que ganharam fortunas com o nazismo.

Jovens, confundiram-se de inimigos ou vocês são amigos e cúmplices desse inimigo? Leiam esse livro, "desinformados" jovens do MOSSAD...
Os revolucionários são "terroristas anti-semitas"?
A literatura sionista, a grande imprensa do poder (monopólico), a embaixada dos Estados Unidos e a embaixada de Israel estão construindo um grande sofisma. Todo revolucionário é... "um terrorista". Quando se questiona a política de estado de Israel ou dos Estados Unidos é, além disso, um "terrorista anti-semita".

Como os dirigentes sionistas e os monopólios de (in)comunicação chamariam um dos principais fundadores das FAR (Forças Armadas Revolucionárias) da Argentina dos anos 70, o militante de origem judia e comunista Marcos Osatinsky? Marcos Osatinsky não só era guevarista, como promovia uma opção político-militar, era aliado de Cuba e defendia a causa palestina. Esteve preso pela ditadura militar no cárcere de Rawson, escapou do "massacre de Trelew", passou pelo Chile de Salvador Allende e chegou a Cuba, onde desenvolveu trabalhos voluntários e foi fotografado com Mario Robi Santucho e outros revolucionários antiimperialistas daquela época. Este grande revolucionário de origem judia está desaparecido. Marcos era um "terrorista anti-semita"?

Como os dirigentes sionistas e os monopólios de (in)comunicação chamariam o jovem trabalhador judeu libertário Simón Radowitzky? Radowitzky, em começos do século, justiçou com um explosivo o feroz coronel da polícia, Ramón Falcón, quando este último massacrou trabalhadores indefesos durante um ato pelo primeiro de maio, numa praça portenha. Simón Radowitzky foi castigado com mais de duas décadas de torturas, vexames e reclusão nas piores prisões do sul argentino. Depois da deportação para Montevidéu, marchou para combater, com as armas em punho, junto aos batalhões internacionalistas da guerra civil espanhola. Simón era um "terrorista anti-semitista"?

Como os dirigentes sionistas e os monopólios de (in)comunicação chamariam Teresa Israel, jovem advogada de guerrilheiros e militantes populares? Esta jovem judia comunista, advogada de presos políticos, foi uma das mais audazes que incursionou no tenebroso quartel militar de Campo de Mayo, denunciando as torturas dos detidos. Nos anos 70, se metia nos quartéis para tentar salvar a vida dos revolucionários sequestrados e torturados pelos militares argentinos (aliados do estado de Israel). Hoje está desaparecida. Muitos centros culturais e comunitários levam o nome de Teresa, jovem judia revolucionária. Teresa era uma "terrorista anti-semita"?

Como os dirigentes sionistas e os monopólios de (in)comunicação chamariam Raymundo Gleyzer? Era um jovem militante judeu, comunista e combatente do guevarista Partido Revolucionário dos Trabalhadores-Exército Revolucionário do Povo (PRT-ERP). Na casa de Raymundo, fundou-se o teatro IFT, um dos baluartes culturais do judaísmo progressista argentino, hoje situado no bairro de Once. Raymundo, brilhante e apaixonado, dirigiu o grupo Cine da Base e foi o grande cineasta da insurgência argentina, amiga da causa palestina. Raymundo era um "terrorista anti-semita"?

A lista de exemplos segue e é incontável. Não só da Argentina, mas de toda a América Latina e do mundo.

O jovem dirigente uruguaio Jorge Zabalza, que começou militando no agrupamento judeu Hashomer Hatzair, visitou Israel, viveu num kibbutz e, ao regressar, se converteu num dos comandantes e num dos nove reféns históricos do Uruguai, pertencentes ao Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros, organização amiga da causa palestina. O «tambero», como o chamam no Uruguai, é um "terrorista anti-semita"?

E Mauricio Rozencof, igualmente judeu, outro dos fundadores dos Tupamaros do Uruguai? Era um "terrorista anti-semita"?

E Enrique Oltusky, jovem militante judeu cubano, que se converteu em estreito colaborador do comandante Ernesto Che Guevara (Oltusky, junto com seu amigo Orlando Borrego, foi o organizador das Obras Completas do Che, conhecidas pelo título O Che na revolução cubana. Os três, Oltusky, Borrego e Guevara, estudaram juntos O Capital, em Cuba). Como seu chefe Guevara, Oltusky era amigo da causa palestina. Era Enrique um "terrorista anti-semita"?

E se formos ainda mais para trás... O jovem guerrilheiro socialista Mordejai Anielevich que, enquanto os grandes papas do sionismo negociavam com os nazistas, organizava no gueto de Varsóvia o único caminho para enfrentar os fascistas, isto é, com luta armada... Era um "terrorista anti-semita"?
A criminalização macarthista dos revolucionários – especialmente daqueles que possuem ou assumem posições radicalizadas – e a falácia de identificá-los com o brutal e monstruoso anti-semitismo de origem nazista, não possui como base a menor análise histórica. Visa, unicamente, a condição de apagar, não só a heróica resistência palestina, mas, inclusive, a própria história de honra e valentia do judaísmo revolucionário e socialista – impulsionador da luta armada. Como se pode aceitar a propaganda oficial do MOSSAD, o estado de Israel e a embaixada dos Estados Unidos?
A esquerda piqueteira é "anti-semita"?
Todavia, hoje permanece sem solução o atentado à AMIA. Enquanto a direção oficial do sionismo se abraçava com os políticos do sistema e aplaudia o presidente Carlos Saúl Menem, todo mundo sabia que estava em processo um atentado. Atentado que não se fez nos bairros onde viviam os judeus ricos e milionários, mas no bairro Onde, um dos mais populares da cidade de Buenos Aires (precisamente o mesmo bairro onde, em princípios do século XX, teve lugar a "semana trágica", quando os "bons filhos" dos empresários e as tropas para-policiais reprimiram trabalhadores insurretos e caçaram "judeus bolcheviques", humilhando mulheres e crianças, assassinando, à sangue frio, em nome da "pátria"). No local do atentado à AMIA, todo mundo suspeitava que a polícia da cidade de Buenos Aires, conhecida popularmente como "a bonaerense", havia posto sua garra suja e corrupta ali. Também se suspeitou que os militares caras-pintadas – ex-instrutores de contra-insurgência nas escolas ianques do canal do Panamá – tinham colaborado.

Porém, a ninguém, absolutamente a ninguém, nem sequer aos mais delirantes, ocorreu que o movimento piqueteiro esteve misturado com o atentado à AMIA.

Então, por que agora esse ódio e essa histeria que vemos em todos os monopólios da (in)comunicação contra a esquerda piqueteira?

Pedimos permissão para contar uma história. Há alguns anos, uma das organizações de vítimas do atentado à AMIA, os companheiros da APEMIA, organizaram um ato nas ruas Corrientes e Pasteur, no bairro de Once, Capital Federal da Argentina. O ato teve bastante concorrência. Quando um trabalhador morocho e muito humilde do Pólo Obrero tentou subir no palanque para solidarizar-se com as famílias das vítimas, alguns sionistas que estavam na plateia começaram a insultá-lo, vaiá-lo e tentaram tirá-lo. Quase nos agarramos a golpes.

Por que esse ódio de classe? Ao sionismo interessa o povo judeu ou, na realidade, defende seus próprios interesses, inclusive contra os próprios judeus? Se, de verdade, interessa o bem-estar dos judeus, NUNCA, repito, NUNCA deveriam ter apoiado uma ditadura anti-semita como a de Videla e Massera.
O sionismo nos protege?
Peço permissão para contar outra história pessoal, esta da adolescência. Ocorreu numa escola secundária, onde militávamos no grêmio estudantil. Alguns de nossos amigos eram judeus, outros católicos e um companheiro de origem árabe, ainda que de fé católica. Sem renegar nossa origem, nós éramos (e somos) ateus. No entanto, aproveitando o "dia do perdão", faltamos à aula, como grande parte dos adolescentes, tentando escapar da disciplina escolar. Junto com os de sobrenome judeu, também faltaram nosso amigos de origem católica e o de origem árabe. O que esse grupo de amigos encontrou no dia seguinte, ao regressar à aula? Em cada uma de nossas cadeiras de madeira haviam pintado uma imensa cruz suástica (nazista), de cor vermelha, com cada um de nossos nomes. A primeira reação, instintiva, foi irmos fechando os punhos. Porém, rapidamente, pensando politicamente, como militantes do grêmio estudantil. Fizemos uma denúncia pública contra este gravíssimo ato antissemita. Como dirigentes do grêmio estudantil, recorremos a inúmeros jornais. Ninguém publicou nada. O único jornal que publicou a denúncia foi Nueva Presencia, órgão jornalístico que havia sido, nos tempos ditatoriais, baluarte cultural da resistência popular. Dirigido pelo jornalista Herman Schiller (conheci Herman pessoalmente muitos anos depois, já militando com as madres de plaza de mayo), Nueva presencia deu lugar em suas páginas à colorida família da esquerda argentina, judia e não judia.

Imediatamente depois da denúncia, vieram à escola alguns dirigentes sionistas. Não recordo agora se eram da OSA ou da DAIA. Porém, era um dirigente de peso e renome. Veio averiguar e pedir explicações pelo feito anti-semita. O reitor da escola, fascista disfarçado de liberal, jurista legitimador dos golpes de estado e colunista do jornal de extrema-direita La Prensa, chamou os estudantes agredidos e também o agressor (que veio junto com seu pai), que tinha pintado as cruzes nazistas. Em meio à discussão, o reitor disse ao dirigente sionista, apontando-me com o braço estendido: "Porque este estudante é marxista e milita no fascismo vermelho". Automaticamente, seus olhos se cruzaram com os do dirigente sionista. Nesse instante, esqueceram-se do jovem neonazista, das cruzes suásticas, da agressão anti-semita e começaram a me insultar. Eu não entendia nada. Não vinha nos defender dos nazistas? Nós não éramos os atacados? Não! Para o dirigente sionista, que não era um jovem ignorante, mas um alto dirigente do sionismo argentino, era mais perigoso um estudante marxista judeu que um nazista que pintava suásticas... Incrível!!! Naquela época eu era muito garoto. Não entendi nada. A situação me parecia um absurdo e absolutamente ridícula. De agredido e denunciante, eu tinha terminado sendo acusado... Nada menos que por outro judeu! Anos depois, o compreendi muito bem...
Os palestinos nos odeiam?
Os palestinos nos odeiam? Não é certo. Gravíssimo erro confundir judaísmo com sionismo. Confusão claramente falsa, exercida em defesa do estado de Israel ou contra Israel. A resistência palestina – ao menos em suas vertentes e organizações mais lúcidas, as oriundas de um tronco antiimperialista laico e socialista – luta contra a política de estado de Israel, não contra os judeus em geral.

Se me permite, gostaria de contar uma terceira história para ilustrar este pensamento.

Quando se inaugurou a Escola Nacional «Florestan Fernandes», em São Paulo, por iniciativa do Movimento Sem Terra (MST) do Brasil, encontramos militantes de muitas partes do mundo, todos unidos pelas mesmas bandeiras e os mesmos ideais, os mais nobres conhecidos pela humanidade até o momento. Existiam, entre inúmeras pessoas, judeus não israelenses. Também estavam presentes alguns marxistas israelenses e, igualmente, mães palestinas. Estas últimas, vestidas com seus lenços e túnicas tradicionais. Todavia, recordo com uma emoção indescritível o imenso abraço internacionalista e fraterno que estas mães nos deram, a todos e todas por igual, incluindo os judeus não israelenses e os marxistas de Israel, sabendo perfeitamente quem era cada um. Ninguém me contou. Não li em nenhum livro. Não vi em nenhum filme. Esse abraço íntimo, afetuoso e fraternal de palestinas e judeus, palestinos e judias, simbolizou para nós um avanço, de como poderíamos viver e conviver se, neste mundo cruel e mesquinho não governassem o imperialismo e as burguesias, com todo seu primitivismo político, ódio racial, opressão nacional e fanatismo religioso, mas como povos organizados sobre um projeto socialista de alcance mundial. Não é um sonho delirante. É algo possível e ao alcance das mãos, com a condição de tirarmos de cima os donos do poder burguês, do mercado, do capital e da guerra fratricida.

Por isto tudo, pedimos aos senhores defensores do sionismo que façam toda a propaganda que queiram, mas, por favor...
Já basta! Não façam em nosso nome!
Não usem a memória dos nossos avós e bisavós torturados, perseguidos e massacrados pelo nazismo, para fins mesquinhos, egoístas e indefensáveis!
Viva a causa dos irmãos e irmãs palestinas!
Viva o socialismo!
Liberdade a todos as presas e presos políticos!
23 de maio de 2009
Autor: Néstor Kohan

* Montoneros (Guerrilla de origen peronista revolucionaria, nacionalista radical)
* PRT-ERP (Partido Revolucionario de los Trabajadores – Ejército Revolucinario del Pueblo)
* Cine de la Base: expresión cinematográfica de la guerrilla marxista
* FAR (Fuerzas Armadas Revolucionarias)
* PC: Partido Comunista
* Ashomer Atzair: La joven guardia
* MLN Tupamaros: Movimiento de Liberación Nacional Tupamaros (de Uruguay)
* MOSSAD (En hebreo ha-Mossad, acronismo de le-Modiin ule-Tafkidim Meyuhadim, (Instituto para Inteligencia y Operaciones Especiales). son los servicios de Israel)
* IFT: El Teatro IFT es miembro del ICUF -Federación de Entidades Culturales Judías de Argentina- ( la vertiente del Partido Comunista al interior de la comunidad judia argentina, en ese espacio se solía hablar el idioma judía de la diáspora idish, además del castellano, y no se hablaba el hebreo) y de ARTEI -Asociación Argentina del Teatro Independiente.-
* DAIA: Delegación de Asociaciones Israelitas Argentinas (sionista)
* AMIA: Asociación Mutual Israelita Argentina (sionista)
* A.P.E.M.I.A: Agrupacion Por el Esclarecimiento de la Masacre Impune de la AMIA (http://apemia.blogspot.com/ fracción encabezada por Laura Ginsberg, de izquierda, enfrentada a la direccion del sionismo local y de todos los gobiernos (Menem, De la Rua, Kirchner)
* Polo Obrero: Expresión piquetera del Partido Obrero (trotskista)
* "La Bonaerense: Expresión popular para referirse a la policia de la provincia de Buenos Aires.
* Carapintadas: Corriente de las Fuerzas Armadas, de pose y retórica "nacionalsita" enfrentada a los militares liberales. Sus líderes fueron instructores en contrainsugencia en las escuelas yanquis de Panamá







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quarta-feira, 25 de maio de 2011

A DIREITA APROVA DILMA!

Brasil
imagemCrédito: PCB


Sérgio Domingues

Dilma mantém o essencial da política de seu antecessor, com uma vantagem. Dilma é Lula sem o jogo de cena. Não precisa dizer que faz o que pode. Ela faz o que deve ser feito, segundo as receitas neoliberais.

O governo Dilma completou 100 dias em 10 de Abril passado. A grande imprensa fez seu balanço. E, como se sabe, os editoriais dos jornalões brasileiros são porta-vozes de vários sectores da direita nacional. Para “O Globo”, o saldo é positivo. A “Folha” diz que é “auspicioso”. O “Estadão” limitou-se a cobrar um “estilo”. Ou seja, a esperança venceu o medo… dos empresários.

Parece ter ficado para trás o clima de terror fanático que reinou durante as eleições presidenciais do ano passado. As demonstrações de boa vontade em relação à presidenta não foram poucas. Em programas de TV populares, em entrevistas cordiais, visitas de celebridades. E, claro, no reconhecimento de que o governo Dilma mantém o essencial da política de seu antecessor, com uma vantagem. Dilma é Lula sem o jogo de cena. Não precisa dizer que faz o que pode. Ela faz o que deve ser feito, segundo as receitas neoliberais.

É o que demonstrou ordenando um corte de R$ 50 bilhões no orçamento de 2011. As áreas atingidas? Gastos com pessoal foram reduzidos em R$ 3,5 milhões, incluindo congelamento dos salários dos servidores. Foram também cortados R$ 5 bilhões no Programa “Minha Casa Minha Vida”. O ministério da Reforma Agrária ficou sem R$ 929 milhões. Na área da Educação, corte de R$ 3,1 milhões. Na Saúde, R$ 578 milhões. R$ 1,5 bilhão, nos Desportos. Quase R$ 400 milhões no Meio Ambiente. R$ 2,3 bilhões dos Transportes.

Gastos sociais são sacrificados, mas Dilma mantém em dia o pagamento da enorme dívida pública. Um rombo e um roubo que consumiu 44% do orçamento federal no ano passado. Em 2010, foram reservados mais de R$ 78 bilhões para pagar os juros dessa dívida. É o chamado superávit primário, cujo pagamento é sagrado, mesmo que se destine a banqueiros e especuladores nacionais e estrangeiros.

O resultado já se fez sentir. O superávit primário do primeiro trimestre deste ano foi 105% maior em relação ao mesmo período do ano passado.

O balanço dos movimentos populares, dos trabalhadores e da esquerda em geral deveria ser outro. Nada positivo. A começar pela luta pelo reajuste do salário mínimo. O governo barrou um aumento maior, dando mais uma demonstração de “responsabilidade” ao empresariado. As centrais sindicais não gostaram. Mas as mágoas logo se dissiparam.

Na mesma época, os trabalhadores de obras do PAC entraram em greve. Os sindicalistas pelegos agiram prontamente. As centrais sindicais oficiais, incluindo a CUT, saíram em defesa dos patrões e das obras. Entre elas, Belo Monte, que recebeu uma licença ambiental ilegal por pressão do governo. Depois de muita negociação, a solução aceite pelos sindicalistas foi vergonhosa: 3 mil demissões.

A direcção do MST reclama do desprezo do governo quanto à reforma agrária. Não deveria. Não foram poucas as lideranças dos Sem-Terra que acusaram o governo Lula de fazer menos pela reforma agrária do que FHC. Dilma, cuja candidatura foi apoiada por muitas dessas lideranças, apenas continua Lula.

Operações urbanas como os “choques de ordem” multiplicam-se nas grandes cidades. Na verdade, são acções de expulsão das populações pobres dos centros urbanos em busca de revalorização para especulação imobiliária. Processo que deve se radicalizar durante a preparação para a Copa Mundial e Olimpíadas. Tudo isso contando com a cumplicidade activa do governo federal.

Muita gente defendia o voto em Dilma para manter a política externa de Lula. O novo governo condenou o Irão e seus ataques ao povo iraniano. Mas falta coerência. Nada fez contra a intervenção militar estrangeira na Líbia. Ao mesmo tempo, recebeu Obama com tapete vermelho e as maiores honrarias. O chefe da potência mais violenta do mundo teve uma recepção quase monárquica. Depois, foi à China mendigar acordos comerciais para as multinacionais brasileiras. Em nome disso, fechou os olhos para a falta de liberdades e a feroz repressão do Estado chinês a movimento populares e de trabalhadores.

É o lulismo em pleno funcionamento. Uma engenharia política que favorece os poderosos; pede calma aos explorados e alivia a fome dos miseráveis com migalhas. Daí, um início com grande apoio popular do governo Dilma. A herança de Lula lhe garantiu a melhor avaliação para um presidente dos últimos 12 anos. No início de Abril, registaram-se 56% das pessoas pesquisadas pelo Ibope considerando o governo Dilma óptimo ou bom.

O grande álibi utilizado pelos apoiadores de esquerda do governo Lula eram os ataques da grande media. Apesar de tudo o que o governo petista fez para manter intacto o monopólio dos meios de comunicação, estes não engoliam o ex-sindicalista.

Dilma tem um inimigo diferente. É a extrema-direita. Um sector que não perdoa seu passado de guerrilheira. Bom álibi para a esquerda que defende a presidenta. Mas, diferente dos gorilas fardados, Dilma não nega seu passado nem está presa a ele. Sua tarefa actual é a manutenção de uma ordem injusta e opressora.

Ao mesmo tempo, a verdadeira oposição popular ao lulismo continua a tropeçar em suas próprias dificuldades. O movimento sindical combativo não consegue se unificar. Houve divergências e debates intermináveis até para decidir os locais de manifestações do 1º de Maio. Os partidos de esquerda são incapazes de unir forças, não somente em eleições, mas nas lutas e frentes em que actuam lado a lado.

As principais lideranças dos movimentos sociais se deixaram vencer pelas políticas de cooptação de governos e instituições. Principalmente em relação à dependência financeira. O MST reclama dos efeitos desmobilizadores do Bolsa-Família, mas a maioria de suas lideranças alinha-se ao governo quase incondicionalmente. Além disso, o maior problema é o apoio decidido do governo petista ao agronegócio, que enfraquece a agricultura familiar a passos largos. Compromete o horizonte camponês que atrai e impulsiona a luta da maioria dos integrantes do movimento.

Outro aspecto importante é a institucionalização dos conflitos. Algo que já vinha se impondo antes dos governos petistas, mas que se aprofundou. Foi imposta aos movimentos sociais e sindical a lógica do “lobby”. A pressão popular passa a ser direccionada para gabinetes parlamentares, órgãos governamentais e instituições oficiais. Importantes decisões são tomadas em consultas públicas controladas pelo poder económico. Os espaços e instrumentos de luta se esvaziam, fragmentam e são domesticados. A militância torna-se cada vez mais profissionalizada a serviço de ONGs e na disputa por espaço para sua “clientela” em programas sociais.

Para começar a superar tais dificuldades é preciso romper com uma trajectória de crescente dependência da institucionalidade. Um caminho que vem sendo seguido há quase três décadas, marcado pela valorização exagerada da conquista de aparelhos sindicais e pela montagem de grandes estruturas burocratizadas em partidos e entidades de luta.

O problema é que esse tipo de superação não depende apenas da vontade militante. Ela precisa ser empurrada pelas contradições que somente as lutas e conflitos de classe podem fazer surgir. Uma situação que se apresenta principalmente em momentos de crise social. Momentos que deixam à mostra a exploração dos trabalhadores e da população como verdadeiro motor de um desenvolvimento económico desigual e injusto.

Não é possível profetizar quando tais momentos podem surgir. Mas há sinais de que o crescimento económico a partir do qual o lulismo se fortaleceu pode sofrer abalos em breve. A economia nacional conseguiu escapar às piores consequências da crise económica de 2008. Para isso, contou com um forte aumento no preço de produtos nos sectores do agronegócio, mineração e =petróleo. Sectores em que a produção brasileira se destaca.

É inegável o considerável crescimento no consumo interno através de uma pequena mas inédita elevação de renda entre os mais pobres. Em especial, através do Bolsa-Família e do microcrédito. É o que se convencionou chamar de crescimento da “classe C”. O fenómeno é ainda bastante recente e de difícil compreensão. Mas tudo indica que se trata muito mais de um acesso maior ao mercado consumidor do que a direitos básicos como saúde, educação, secularidade social, habitação e cultura.

No entanto, a dependência em relação à produção de sectores como agronegócio, mineração e petróleo é perigosa. São ramos do chamado sector primário, que criam poucos empregos e geram pouco valor. Uma tonelada de minério de ferro, por exemplo, vale menos que um par de ténis importado. Trocamos mercadorias do sector primário por produtos dos sectores secundário e terciário, mais dinâmicos, rentáveis e avançados tecnologicamente.

Por outro lado, a enorme dívida pública brasileira vem atraindo dólares ao país. Os especuladores trocam a moeda americana, que anda desvalorizada, por papéis do governo que pagam os maiores juros do planeta. Esse movimento inunda a economia brasileira de dólares e valoriza o real. As importações ficam baratas. Produtos estrangeiros, incluindo máquinas e equipamentos, invadem o mercado nacional. Derrubam a produção nacional e começam a frear a criação de empregos e ocupações. É o que os especialistas chamam de desindustrialização e reprimarização.

Além disso, o crescimento do mercado interno, que vem sustentando boa parte da actividade económica, pode encontrar dois obstáculos. Um deles é a capacidade de consumo das famílias, que pode estar chegando a seu limite. Outro é a inflação causada, principalmente, pelo aumento nos preços de alimentos em nível mundial. Este último problema talvez não fosse tão grave, não fosse a fobia que os neoliberais sentem em relação ao aumento de preços em larga escala. Um medo ligado ao terror de que isso leve ao aumento da temperatura da luta de classes, com trabalhadores exigindo constantes e elevados reajustes salariais.

Como a equipe económica do governo petista compartilha dessa fobia, começam a se suceder aumentos nas já elevadas taxas de juros praticada no país. Uma medida que desestimula a produção, dificulta a venda a crédito e, portanto, diminui as oportunidades de empregos. Enfim, o crescimento económico pode diminuir muito de ritmo, causando mais problemas de desemprego, com a consequente pressão por salários menores e maiores dificuldades económicas para a maioria da população.

Outro elemento complicador do cenário económico pode ser um novo abalo económico mundial. Uma nova rodada de problemas envolvendo a quebradeira de países e instituições financeiras. Fenómeno que já se pode sentir em alguns países da Europa. Desta vez, algo assim poderia causar uma fuga de recursos e dólares do país, em relação aos quais a economia vem desenvolvendo uma relação de dependência perigosa. Pode-se até temer a formação de bolhas financeiras que venham a colocar o País entre os atingidos por uma nova manifestação da crise que teve início em 2008.

As possibilidades de ocorrer um cenário como este não são poucas. Mas estão longe de configurar uma situação inevitável e previsível. De qualquer maneira, as crises no capitalismo são constantes. A esquerda combativa deve se preparar para saber como intervir quando tais condições ocorrerem. Elas proporcionam momentos “grávidos de possibilidades”, como diria Rosa Luxemburgo.

Só saberemos aproveitá-los se combinarmos a análise da realidade com a busca incessante de formas de organização da luta dos explorados e oprimidos. E esta passa actualmente por dois combates. O primeiro tem como alvo as ilusões geradas pelo governo Dilma e pelo lulismo em geral junto aos movimentos sociais.

Mas a melhor maneira de desmascarar tais ilusões é nos mostrarmos prontos para fazer o combate principal. Aquele que deve ser travado contra os ataques bastante reais e concretos da burguesia, nosso inimigo principal. Para isso é preciso combinar presença nas lutas, debate fraterno e firme com o conjunto da militância socialista e propostas concretas de unidade e acção.

Fonte: http://www.odiario.info/?p=2078

terça-feira, 24 de maio de 2011

SIONISTAS TENTAM CRIMINALIZAR O PCB E CASSAR O REGISTRO DO PARTIDO NO TSE (Nota Política do PCB)

Fomos informados de que uma entidade chamada CONIB (Confederação Israelita do Brasil) teria formalizado, no início deste mês, representação contra o PCB (Partido Comunista Brasileiro), junto ao TSE, alegando prática de "antissemitismo", por ter a página do partido na internet publicado artigo denominado "Os Donos do Sistema: o Poder Oculto; de Onde Nasce a Impunidade de Israel".

Na apresentação de seu portal, a entidade se assume sionista, posiciona-se "na linha de frente do combate ao antissemitismo" e oferece "links" para todas as organizações sionistas de Israel, dos Estados Unidos e de âmbito mundial ou nacionais, a imensa maioria de direita.

Apesar de ainda não conhecermos os termos da representação (não divulgada pela entidade), inferimos que sua verdadeira intenção é tentar cassar o registro do PCB, como se se fosse possível calar a voz dos verdadeiros comunistas brasileiros. Nosso partido – o mais antigo do Brasil, fundado em 1922 - foi escolhido criteriosamente para esta ofensiva por razões que nos orgulham. Além de lutarmos pela superação do capitalismo, praticamos com firmeza e independência o internacionalismo proletário, a solidariedade a todos os povos em luta contra o imperialismo e o sionismo, cujo significado não se refere ao seu conteúdo original, mas ao caráter atual do movimento, hegemonicamente fascista e imperialista.

A nosso ver, trata-se de uma ação política, muito mais do que jurídica.

O texto que provocou a reação da CONIB é de autoria do jornalista argentino Manuel Freytas, divulgado originalmente no sítio eletrônico IAR Notícias, e reproduzido mundialmente em pelo menos mais de trinta portais progressistas e anti-imperialistas, listados ao final desta nota.

Segundo a apócrifa nota publicada pela citada CONIB (www.conib.org.br), o texto se utiliza "de imagens apelativas, distorções da realidade e argumentos conspiratórios e claramente anti-semitas", revelando "alto grau de desconhecimento do cenário político-econômico internacional", por repetir (agora no século 21!) chavões da obra "Os Protocolos dos Sábios de Sião, farsa montada pela polícia czarista da Rússia, no século 19". Assim, o PCB é acusado de "incentivar a discriminação e a proliferação da intolerância religiosa, étnica e racial em nosso país".

Termina a nota afirmando que a representação baseia-se na Lei Orgânica dos Partidos Políticos, com a "finalidade de evitar que abusos e inverdades desencadeiem preconceitos contra a comunidade judaica brasileira".

Diante deste fato, o PCB vem a público se pronunciar:

1 – O PCB não se intimidará diante da pressão de organizações sionistas de direita e continuará prestando ampla, geral e irrestrita solidariedade ao povo palestino, vítima da escandalosa impunidade de Israel, tema do artigo considerado ofensivo. Desrespeitando todas as Resoluções da ONU, o estado israelense continua ampliando a ocupação de territórios dos palestinos, derrubando suas casas, criando o chamado "Muro do Apartheid", invadindo e cercando a Faixa de Gaza, onde impede a entrada de ajuda humanitária (inclusive alimentos e medicamentos), assassinando e prendendo militantes palestinos, mantendo mais de 11.000 deles em condições abjetas em seus cárceres. Mais do que isso, continuaremos a denunciar que Israel se transformou numa enorme base militar norte-americana no Oriente Médio. O país é o primeiro destino da ajuda militar estadunidense no mundo e o único do Oriente Médio a ter direito a armas nucleares, sem permitir a inspeção internacional que exige de outros países.

2 – Esta ofensiva contra o PCB se deve ao fato de que apoiamos e participamos dos diversos Comitês de Solidariedade ao Povo Palestino que se consolidam e se multiplicam pelo Brasil. No nosso portal, este texto foi escolhido aleatoriamente, pois com uma simples pesquisa se pode verificar que ali os artigos e informações sobre a luta contra a política terrorista do Estado de Israel se contam às centenas, muitos deles mais contundentes que o escolhido para ofender a liberdade de imprensa consagrada em nosso país e tentar intimidar e criminalizar o PCB. Publicamo-lo exatamente há um ano, mas só agora ele foi "descoberto".

3 – É significativo que esta atitude intimidatória (que está se dando em vários países) ocorra no exato momento em que as duas maiores organizações políticas palestinas (Fatah e Hamas) anunciam a retomada de seus entendimentos e o desejo de dividir a responsabilidade pela administração dos territórios palestinos, que foram separados arbitrariamente pelas forças militares israelenses com o uso da violência e da ocupação.

4 – A unidade dessas duas organizações contraria os planos imperialistas de divisão sectária entre os palestinos – exatamente porque cria melhores condições para o reconhecimento internacional do Estado Palestino e para uma negociação pela paz na região -, tudo que Israel não deseja, apesar das reiteradas resoluções da ONU nesse sentido.

5 – Esta atitude arbitrária de perseguição política coincide também com a satanização do mundo muçulmano, este sim vítima de preconceitos e estigmatização, sem que a mídia burguesa se utilize de expressões como "anti-islamismo", "anti-xiitismo", "anti-sunitismo" etc. Coincide também com a proximidade da Assembleia Geral da ONU que, no próximo mês de setembro, discutirá o reconhecimento do Estado Palestino.

6 - Coincide ainda com a movimentação imperialista para ampliar seletivamente a agressão militar no Norte da África e no Oriente Médio, para além do Iraque e do Afeganistão. Coincide com a descarada intervenção militar na Líbia, com as provocações contra a Síria e o Irã, acusados de solidários aos palestinos e de apoio ao "terrorismo".

7 - As raivosas declarações das autoridades israelenses sobre a unidade das citadas organizações políticas palestinas deixam em evidência que Israel não tem qualquer interesse na paz na região e muito menos na criação do Estado Palestino. Fica claro que o objetivo do sionismo é ocupar todo o território palestino, através dos assentamentos ilegais, transformando o antigo território palestino no que chamam de Grande Israel, para inviabilizar na prática uma decisão da ONU, de 1948 - da coexistência pacífica de dois Estados, no território até então exclusivamente palestino -, boicotada pelos israelenses há mais de sessenta anos!

8 – Não tememos qualquer processo judicial, porque conhecemos as leis brasileiras, que têm como cláusula pétrea constitucional o livre direito de expressão e a proibição da censura.

9 – Mesmo que prosperasse esta absurda afronta às liberdades democráticas, estamos certos de que teríamos a solidariedade firme e militante de centenas de organizações políticas e sociais e personalidades democráticas, não só do Brasil, mas de todo o mundo.

10 – Não há, em qualquer documento do PCB, qualquer intolerância religiosa, étnica e racial contra qualquer povo ou comunidade. Criticar a direita sionista não significa criticar a comunidade judaica que, no Brasil e no mundo, é composta também por militantes democratas, humanistas e comunistas, que lutam contra a política terrorista e imperialista do Estado de Israel e se solidarizam com o povo palestino. O PCB tem uma vasta e orgulhosa tradição, desde a sua fundação até os dias de hoje, de contar com militantes e amigos de origem judaica.

11 - Os comunistas, em todo o mundo, somos contra qualquer intolerância religiosa ou étnica, contra preconceitos e nacionalismos xenófobos, porque lutamos por um mundo de iguais, sem fronteiras, sem Estado, sem forças armadas, sem opressores e oprimidos. Não entendemos o que a CONIB quer dizer com a expressão "intolerância racial", pois todos os povos pertencem à mesma raça humana. A não ser que assim pensem os que se acreditam pertencentes a uma "raça superior", escolhida por alguma divindade.

12 - Os comunistas do mundo inteiro tiveram papel decisivo na luta contra o nazi-fascismo que vitimou dramaticamente os judeus, mas também a muitos outros povos. O povo russo, dirigido pelo Partido Comunista da União Soviética, foi o que entregou mais vidas em defesa da humanidade, mais de 20 milhões, principalmente de seus jovens.

13 – O sítio do PCB na internet é um espaço de difusão não apenas das opiniões do Partido, mas de outras organizações e personalidades com alguma afinidade política, porque objetiva também prestar informação e fomentar o debate sobre questões candentes, nacionais e internacionais. Na primeira página de nosso portal (www.pcb.org.br), deixamos claro que:
"Só publicamos nesta página textos que coadunam, no fundamental, com a linha política do PCB, a critério dos editores (Secretariado Nacional do CC). Quando não assinados por instâncias do CC, os textos publicados refletem a opinião dos autores".

14 - Com o texto questionado pela central sionista brasileira temos uma identidade política, na medida em que ele denuncia a impunidade de Israel, os massacres que este Estado comete contra o povo palestino, o seu importante papel econômico e militar no contexto do imperialismo. Publicamo-lo como contribuição a um debate necessário, ainda que algumas opiniões ali expostas possam diferir, em alguns aspectos, de nossa análise marxista da luta de classes no âmbito mundial. Para nós, o sionismo não é o "Comitê Central" do imperialismo nem o único "dono do poder", mas sócio e parte importante de sua engrenagem, uma significativa linha auxiliar com forte lobby internacional, enorme peso na mídia hegemômica, na economia mundial e na máquina de guerra imperialista.

15 – Sem preocupação com ameaças de qualquer tipo, estamos aqui oficialmente oferecendo à direção da Confederação Israelita do Brasil o direito de resposta, no mesmo espaço em que divulgamos o artigo criticado, para que a entidade possa se contrapor aos argumentos expostos pelo autor do texto "Os Donos do Sistema". Como certamente o texto da CONIB será uma exceção ao nosso critério da afinidade política, nos reservaremos o direito de publicá-lo com comentários de nosso Partido.

16 – Este convite, além de democrático, atende à preocupação da CONIB, embora injustificada, de que sua finalidade, ao adotar a medida judicial, é "evitar que abusos e inverdades desencadeiem preconceitos contra a comunidade judaica brasileira". Portanto, estejam à vontade para enviar ao nosso endereço eletrônico os seus pontos de vista.

17 – Esperamos também que a recíproca seja verdadeira, ou seja, que a CONIB publique em sua página a íntegra da presente nota política do PCB. Aproveitamos para sugerir que, no documento que nos mandarem, possamos conhecer suas posições em relação às Resoluções do último Congresso Nacional do PCB, a respeito do tema, e que transcrevemos aqui na íntegra:

"XIV Congresso Nacional do PCB (outubro de 2009):
DECLARAÇÃO DE APOIO À CONSTRUÇÃO DO ESTADO PALESTINO DEMOCRÁTICO, POPULAR E LAICO, SOBRE O SOLO PÁTRIO HISTÓRICO:
1) Pelo fim imediato da ocupação israelense nos territórios tomados em 1967, fazendo valer o inalienável direito à autodeterminação do povo palestino sobre estes territórios;
2) Aplicação de todas as resoluções internacionais não acatadas pelo sionismo;
3) Garantia aos refugiados (atualmente, 65% da totalidade do povo palestino) de retorno às terras de onde foram expulsos (Resolução 194 da ONU);
4) Libertação imediata dos cerca de 11.000 prisioneiros, entre eles Ahmad Saadat, Secretário Geral da FPLP, e outros dirigentes da esquerda;
5) Reconstrução da OLP, ou seja, reconstrução da unidade política necessária às tarefas que estão colocadas para o bravo povo palestino, com garantia de participação democrática de todas as forças políticas representativas dos palestinos;
6) Apoio irrestrito a todas as formas de resistência do povo palestino;
7) Destruição do muro do apartheid, conforme resolução do Tribunal de Haia;
8) Demolição e retirada de todos os assentamentos judaicos na Cisjordânia/Jerusalém;
9) Fim imediato do bloqueio assassino a Gaza;
10) Pelo fomento de campanha internacional para levar os criminosos de guerra sionistas aos tribunais de justiça, dentre os quais, o Tribunal Internacional de Haia.
11) Estabelecimento de sólida relação entre os partidos comunistas irmãos para concretizar ações de solidariedade e, em especial, apoio logístico à materialização desta luta;
12) Apoio a todas as iniciativas que visem estreitar laços entre os partidos da esquerda palestina, em especial a Frente Democrática pela Libertação da Palestina (FDLP), a Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP), Partido do Povo Palestino, em unidade concreta programática e de ação.
POR UM ESTADO PALESTINO DEMOCRÁTICO, POPULAR, LAICO, SOBRE O SOLO PÁTRIO HISTÓRICO! PELA TOTAL INDEPENDÊNCIA E AUTONOMIA DOS TERRITÓRIOS OCUPADOS EM 1967! PELO RETORNO DOS REFUGIADOS E JERUSALÉM CAPITAL! LIBERTAÇÃO DE TODOS OS 11.000 PRISIONEIROS PALESTINOS! PELA CONDENAÇÃO INTERNACIONAL DOS CRIMINOSOS DE GUERRA!"
18 – Mas voltando ao artigo que gerou a representação, para que as críticas da CONIB se centrem na contestação às informações ali prestadas - ao invés de se esconderem sob o manto autoritário do carimbo "antissemita" -, sugerimos que releiam o texto, sem sectarismo nem preconceito. Verão que ele pode ter equívocos na forma de sua correta condenação ao Estado de Israel, mas não tem qualquer intolerância religiosa ou étnica.

19 – O texto, em nenhum momento, atinge o povo judeu, mas à sua liderança hegemônica - direitista, sionista e terrorista - deixando claro que nem todos os judeus concordam com seus métodos e que há vários intelectuais, organizações e militantes judeus que condenam e protestam contra o genocídio em Gaza e outras violências do Estado de Israel.

20 – Leiamos novamente algumas passagens do artigo de Manuel Freytas:
"Israel não invadiu nem perpetrou um genocídio militar em Gaza com a religião judia, senão com aviões F-16, bombas de rácimo, helicópteros Apache, tanques, artilharia pesada, barcos, sistemas informatizados, e uma estratégia e um plano de extermínio militar em grande escala. Quem questione esse massacre é condenado por "anti-semita" pelo poder judeu mundial distribuído pelo mundo".
"O lobby sionista pró-israelense não reza nas sinagogas, senão na Catedral de Wall Street: um detalhe a ter em conta, para não confundir a religião com o mito e com o negócio".
"As campanhas de denúncia de antissemitismo com as quais Israel e organizações judias buscam neutralizar as críticas contra o massacre, abordam a questão como se o sionismo judeu (sustentáculo do Estado de Israel) fosse uma questão "racial" ou religiosa, e não um sistema de domínio imperial que abarca interativamente o plano econômico, político, social e cultural, superando a questão da raça ou das crenças religiosas".
"A esse poder (o lobby sionista internacional), e não ao Estado de Israel, é o que temem os presidentes, políticos, jornalistas e intelectuais que calam ou deformam diariamente os genocídios de Israel no Oriente Médio, temerosos de ficarem sepultados em vida, sob a lápide do "antissemitismo".

22 - Estejam certos de que não calarão nem sepultarão o PCB em vida, tarefa que não foi possível nem para as mais cruéis ditaduras de direita que marcaram a história do nosso país. Prenderam, exilaram, assassinaram, desapareceram com muitos comunistas, no Brasil e no mundo, por lutarem contra a opressão, pela autodeterminação dos povos, pelas liberdades democráticas e contra o nazi-fascismo.
Exigimos respeito!

Partido Comunista Brasileiro
Comissão Política Nacional
Maio de 2011
Observações:

1 – Este e outros artigos de Manuel Freytas são publicados, entre muitos outros, nos seguintes sítios:
2 - Segundo levantamento feito pela Federação Árabe-Palestina, apenas em 2011, a CIA destinou 120 milhões de dólares, para financiar o sistema de difamação da religião islâmica no Brasil.

3 – O mesmo texto usado pelo sionismo contra o PCB é usado como pretexto para o mesmo tipo de ação intimidatória na Venezuela, num relatório denominado "Antisemitismo en Venezuela", de autoria de uma organização à qual a CONIB é ligada, chamada ADL (Anti-Defamation League), que em português significa Liga contra a Difamação. Apesar do nome genérico da entidade, ela só criminaliza e intimida o que considera difamação "anti-semita". Veja a página 16 do sítio htpp://www.adl.org.

4 – neste momento, Israel está usando os céus da Grécia, por autorização do governo local, para treinar seus pilotos e testar seus aviões militares para um possível ataque ao Irã, cuja topografia tem características semelhantes às do país helênico.

5 – nos próximos dias, estaremos publicando aqui nesta página vários textos de judeus progressistas e comunistas, inclusive israelenses, contra o sionismo e a utilização do carimbo "antissemitismo" como forma de censurar denúncias contra o Estado de Israel.

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Veja a Página do PCB – www.pcb.org.br

Partido Comunista Brasileiro – Fundado em 25 de Março de 1922




terça-feira, 17 de maio de 2011

PCB DESMASCARA GRUPO FRACIONISTA EM SÃO PAULO E SEGUE FIRME EM SUA RECONSTRUÇÃO REVOLUCIONÁRIA (Nota Política do PCB)


Um grupo reduzido de militantes do PCB de São Paulo anunciou, em nota pública, sua decisão de retirar-se das fileiras do Partido. Este grupo era dirigido por um pequeno núcleo de dirigentes partidários de São Paulo.

Trata-se de uma articulação cujos primeiros sintomas apareceram já no XIV Congresso do Partido, em outubro de 2009, quando esse núcleo dirigiu ação organizada de um grupo de delegados paulistas, alguns desconhecidos da direção do partido em SP. Foi a única delegação em que esse fenômeno se deu, pois na tradição dos congressos comunistas os delegados são plenos e não representantes de Estados e muito menos de grupos.

Frustrados em sua ilusão de ganhar projeção no Congresso, e sem apresentar nenhuma divergência política que pudesse dar base a uma justificativa para a saída da organização, partiram para um projeto de se fortalecer como grupo em SP, com métodos antileninistas, tentando construir no Estado um "bunker" para tentar levar a luta interna em âmbito nacional, com os olhos voltados para o próximo congresso. Chegaram recentemente, sem sucesso, a promover viagens a outros Estados para tentar abrir dissidências regionais.

Mais alguns fatores abortaram este plano que, como veremos, dialoga com interesses externos ao Partido. O primeiro fator foi a abertura de um processo disciplinar para apurar indícios de formação de grupo, que até agora havia resultado na expulsão de um único militante (o mais deletério e desagregador) e na suspensão de um outro que, convidado a esclarecer suas divergências ao CC (Comitê Central), não compareceu às reuniões convocadas.

Mas o fator mais importante foi a divulgação de uma Nota Política da CPN (Comissão Política Nacional) do PCB, a partir de uma decisão do Congresso e do Comitê Central, sobre a questão sindical, que aqui analisaremos mais adiante.

É importante esclarecer que nenhum militante foi expulso por divergir politicamente. Pelo contrário, a postura da Direção Nacional foi sempre de trazer o debate para o campo político, como a decisão de chamar os envolvidos para que apresentassem seus motivos nas instâncias adequadas ao debate, ao invés de usarem - como fizeram e ainda estão fazendo mesmo fora do Partido - meios eletrônicos para além dessas instâncias e até das fronteiras partidárias.

No entanto, para o grupo dissidente, o debate político não interessava, uma vez que sua tática era imolar-se como vítimas de uma perseguição injusta. A expulsão de um único militante, que se recusou reiteradamente a exercer o direito de defesa para fazer a discussão política, se deu por causas muito precisas: recusa a acatar o chamamento do CC para apresentar sua defesa; boicote a resoluções partidárias; ameaças constantes de agressão física e intimidações a dirigentes e militantes de base; práticas renitentes de insuflar a militância e os amigos do PCB contra o Partido e sua direção e outras ações fracionistas e desagregadoras.

As táticas utilizadas pelo grupo para recrutamento foram a calúnia e o envenenamento político contra membros da direção nacional e regional, o acirramento de uma falsa contradição entre militantes e intelectuais orgânicos do Partido, como se o trabalho no movimento de massas fosse incompatível com a produção teórica e como se esta fosse da responsabilidade apenas de acadêmicos. Trata-se de uma postura própria de um obreirismo primitivo, vinda de militantes de classe média que se autoimaginam operários, numa construção tipicamente pequeno-burguesa.

Outra tática utilizada foi a criação de falsas polêmicas. A mais grosseira delas é a "acusação" de que a direção nacional do PCB está mudando a linha política do partido, conciliando com o programa democrático popular, o governo Dilma e correntes reformistas.

Com estas práticas fracionistas e contando com uma infraestrutura e recursos acima das possibilidades materiais das demais direções estaduais do PCB, esse pequeno núcleo acabou por levar alguns jovens militantes a se organizarem numa "cruzada" dos "militantes sociais", para salvar o PCB dos "intelectuais, pequenos burgueses e reformistas". Um verdadeiro Exército de Brancaleone, que não merecerá a mínima referência na história do PCB, da mesma forma como aconteceu com os que tentaram o mesmo tipo de ação – voltada diretamente para o ingresso em outra agremiação política – no XIII Congresso do Partido, em 2005. Vão para o lixo da história e vagarão erraticamente à procura de organizações que estejam à altura de sua "combatividade".

Não se envergonham inclusive de espalhar notícias mentirosas, tentando insinuar que a saída de militantes se dá em âmbito nacional. Não tiveram êxito em "levantar" o PCB em qualquer outro Estado e, em São Paulo, envolveram poucos militantes. Na reduzida relação dos signatários do manifesto, metade é de apenas uma cidade de São Paulo (Campinas). Ainda constam nomes de desconhecidos, de pessoas que abandonaram há muito tempo o trabalho partidário, de não militantes do PCB e inclusive de alguns que foram incluídos à sua revelia e que já começam a informar à direção do Partido sua contrariedade com o uso de seus nomes.

Estamos certos de que alguns dos militantes que assinaram este documento e que não forem para o campo do anticomunismo, acabarão se envergonhando de terem sido cúmplices, a maioria como inocentes úteis, de mais uma infrutífera tentativa de desagregar o PCB. Quanto aos mentores do grupo, a sua saída depura ideologicamente e fortalece organicamente o PCB. E ainda nos ajuda a tirar do episódio importantes lições para a defesa e o fortalecimento do Partido.

Contudo, a saída deste pequeno grupo de militantes do PCB de São Paulo deve, sem dúvida, ser objeto de uma análise autocrítica do Comitê Central e, sobretudo, da Comissão Política Nacional (CPN) do Partido.

As razões principais que propiciaram esse fato – e que precisam ser enfrentadas e superadas - são as debilidades do nosso trabalho de formação política e ideológica, o recrutamento superficial, a falta de um instrumento ágil de comunicação interna e deformações no exercício do centralismo democrático que, para se desenvolver como um caminho de mão dupla, necessita de células vivas, em interação permanente com as direções intermediárias e destas com o Comitê Central.

O processo e os desafios da reconstrução de um partido revolucionário não podem ser idealizados. Temos nossas limitações e sabemos que o processo de reconstrução – assim como o processo revolucionário em geral – não é linear e muito menos imune a contradições políticas, culturais, sociais e ideológicas, pois se dá em meio a uma sociedade capitalista. Assim, reconhecemos que estas debilidades permitiram que este pequeno núcleo de dirigentes partidários de SP tivesse espaço para articular um grupo e criar uma luta interna claramente artificial.

A direção nacional do PCB tem outra autocrítica a fazer. A conciliação com este grupo, desde antes do XIV Congresso, e a morosidade em abrir o processo disciplinar, o que só aconteceu recentemente e assim mesmo para apurar "indícios" de formação de grupo. De fato, foi grande a paciência da CPN, que conciliou novamente quando, no Congresso da UJC (União da Juventude Comunista), em 2010, tentaram dar golpes para dividir e tirar o brilho do evento, inchando número de delegados, agindo como bancada e apresentando uma tese paralela no segundo dia de realização do evento.

Mas não é mais necessário apurar estes "indícios" de formação de grupo. Tanto era um grupo, que saíram em grupo, o que é uma anomalia num partido comunista, em que a adesão é voluntária e individual. A saída em grupo exime a direção do Partido do ônus da prova de que havia um grupo!

O grupo já está caracterizado e público, mas o processo disciplinar não se encerrou, pois ainda é preciso analisar outros aspectos da questão, inclusive a postura que adotarão outros poucos ativos organizadores do grupo cujos nomes surpreendentemente não constam no manifesto de ruptura. Não pensem os militantes e amigos do Partido que a conta está fechada. A qualquer momento, podem surgir mais algumas poucas defecções públicas de figuras messiânicas e autocentradas, que podem optar por dar um toque pessoal e performático à sua saída, talvez para valorizar o seu "passe", como já fizeram alguns. Esperamos, sinceramente, que estejamos enganados.

O processo disciplinar continua também, porque o CC vai ser informado detalhadamente, pela CPN, de fatos recentes que serão revelados na próxima reunião, inclusive de que membros do grupo que não são do CC e dirigentes de outras organizações tinham acesso, na íntegra, a documentos confidenciais e reservados ao CC. Mas, para além da cortina de fumaça das falsas divergências, fica claro, inclusive no documento de saída do grupo, que efetivamente há uma única divergência, que tem um conteúdo restrito à questão sindical.

Justiça seja feita, o primeiro signatário do manifesto de ruptura, o único deles que é do CC, foi renitente em expor essa divergência, lamentavelmente apenas por meios eletrônicos. Jamais expôs suas divergências presencialmente, pelo menos nas instâncias formais do Partido. Não compareceu ao XIV Congresso, apesar de delegado, e nas duas únicas reuniões do CC em que esteve presente permaneceu menos da metade de sua duração.

Sua maior preocupação, desde 2009, é atacar e desacatar uma única resolução do Congresso, boicotando o diálogo do PCB com as correntes sindicais do PSOL, com vistas à recomposição política da INTERSINDICAL que se dividiu em duas, em 2007, ficando em uma delas o PCB e a ASS (Articulação Sindical Socialista) e, na outra, as correntes sindicais do PSOL que não aderiram à CONLUTAS.

Sem querer desqualificá-lo, compreendemos que esta sua obsessão política tem muito a ver com o fato de, sendo empregado do combativo Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas, conviver diuturnamente com valorosas lideranças da ASS, que discordam da proposta do PCB de aproximação com os companheiros que mantêm a outra INTERSINDICAL, com vistas à recomposição do campo original da entidade na perspectiva de sua ampliação com outros setores classistas.

O problema não é um militante pensar dessa maneira. O problema é ele descumprir resoluções congressuais adotadas democraticamente, neste caso por unanimidade. E ainda mais sendo um membro do CC.
Diz a Declaração Política do XIV Congresso ("Outros Outubros Virão") sobre o tema:

"É necessária, por isso, uma reorganização dos movimentos populares, especialmente do movimento sindical. O PCB trabalhará pela reorganização do sindicalismo classista e pela unidade dos trabalhadores, através do fortalecimento de sua corrente Unidade Classista e da Intersindical (Instrumento de Luta e Organização da Classe Trabalhadora), atuando nesta para recompor o campo político que a originou e ampliá-lo com outras forças classistas".
Esta divergência monotemática aparece em toda a sua expressão no manifesto de ruptura, como a principal razão de natureza política para o grupo sair do PCB. Vejam o que dizem:


"Porém, o desmonte do PCB em São Paulo ... visa outro fato mais grave: mudar a linha política do Partido, tanto em sua estratégia pela reaproximação com o programa democrático-popular e as tarefas inconclusas da burguesia, como na sua tática sindical, abandonando a construção da Intersindical, Instrumento de Luta e Organização da Classe Trabalhadora, para reaproximar-se do PSOL".


Reparem que, para os dissidentes, construir a INTERSINDICAL significa fazê-lo apenas com a ASS, ao passo que para o PCB a construção significa a reunificação e ampliação de uma ÚNICA, AMPLA E FORTE INTERSINDICAL, com as correntes que estão na outra entidade com o mesmo nome e ainda ampliar mais, com outras correntes classistas.

Não foi à toa que este grupo formalizou sua saída do Partido logo em seguida à publicação de uma Nota Política da direção nacional do Partido, de abril de 2011, sobre a questão sindical ("Avançar na organização sindical da classe trabalhadora para o combate sem tréguas à hegemonia do capital"), que afirma textualmente:


"Nós, do PCB, entendemos que a Intersindical – instrumento de luta e organização da classe trabalhadora – pode vir a se transformar nessa poderosa ferramenta da luta de classes no Brasil, mas não pode se manter na configuração política atual. Desejamos manter e aprofundar nossas relações com a ASS, com quem temos grande afinidade na concepção da luta sindical e anticapitalista, mas defendemos a urgência da realização de conversações com as correntes políticas que compunham o campo originário da Intersindical, como meio mais imediato de fortalecer nosso instrumento de luta e organização. Nós, comunistas, não subestimamos o papel dos partidos e correntes no movimento operário, tendo clareza, porém, de que a vanguarda jamais substituirá a classe, nem a organização sindical.
Diante do exposto, a Comissão Política Nacional do Comitê Central do PCB orienta a militância comunista nos estados e municípios a buscar desenvolver as seguintes tarefas:
1) Fortalecer a UNIDADE CLASSISTA como corrente sindical que reúne militantes do PCB e simpatizantes da nossa linha política e sindical no interior dos sindicatos, movimentos e organizações de luta da classe trabalhadora;
2) Envidar esforços no sentido de promover conversações com as correntes políticas do PSOL insatisfeitas com a cristalização do formato e orientação política dominantes na CSP/Conlutas, visando contribuir para a recomposição do campo original da Intersindical".


Queremos chamar a atenção dos que foram manipulados por esse núcleo de desagregadores que, ao que tudo indica, estes já decidiram para onde ir após saírem do PCB. É só ler com atenção o título do documento que assinaram: "Escolhemos ficar ao lado de quem luta". Fica claro no manifesto que os verdadeiros lutadores são os que constroem a INTERSINDICAL como uma entidade puramente sindical, e que não se misturam com os "falsos lutadores". Os que se retiram não são "lutadores políticos", que perdem tempo debatendo teorias e se expressando, como o PCB, sobre todos os temas nacionais e internacionais de interesse do proletariado. São "lutadores sociais", que subestimam o Partido.


Será que todos os signatários perceberam que assinaram um documento que sinaliza claramente que vão se mudar do PCB para uma organização fundamentalmente sindical? Foram avisados disso? Dizemos isso porque os redatores do manifesto de ruptura cometeram o ato falho de dizer que tinham pressa de sair do PCB para preservar "a força e a integridade política" do grupo.


É patética a afirmação constante do documento, quando os redatores admitem que "uma saída razoável seria a de permanecermos no interior do PCB, para fazer a disputa interna". Mas não tiveram coragem de ficar. Porque não têm argumentos, não sustentam uma discussão política com o conjunto do Partido. Suas únicas armas foram a mentira e a manipulação. Não tiveram coragem de ficar para participar de dois eventos que o CC anunciou a toda a militância de São Paulo, há mais de dois meses: a realização, em breve, de uma Plenária dos Militantes com a direção do Partido e uma Conferência Política Regional Extraordinária!


Consideramos natural que militantes mais jovens, seduzidos pelo canto de sereia antileninista, se tenham deixado levar por um discurso obreirista e reformista que campeia neste grupo e em parte da esquerda brasileira. Trata-se do que conceituamos como movimentismo, que consiste em superestimar os movimentos sociais como as principais ferramentas revolucionárias e subestimar o papel dos partidos revolucionários. Um sindicato, por mais combativo que seja, deve representar os interesses dos trabalhadores de sua base. Da mesma forma que uma entidade estudantil, uma organização de moradores, de mulheres e movimentos contra opressões têm como objetivo defender os interesses específicos de seus representados; atuam nos limites institucionais da ordem burguesa. Somente o partido político revolucionário, que se propõe a derrotar a ordem capitalista e que junta em suas fileiras camaradas que atuam em todos esses importantes movimentos sociais, possui condições para entender a totalidade da luta política e lançar propostas globais para a transformação da sociedade.

Não há contradição entre militar no Partido e nos movimentos sociais. Pelo contrário, os comunistas devem se inserir neles, atuando para politizá-los na perspectiva da luta de classes.

Apesar do equívoco a que foram levados alguns desses jovens, eles mostram sua energia para a luta contra o capital. No afã de lutar e militar acabam por assumir uma identidade romântica, ainda que reformista, de "lutadores sociais", como se só o importante trabalho de massa fosse revolucionário.

Tendo em vista que este grupo hegemonizou nos tempos recentes a Secretaria Sindical do PCB e o nosso relacionamento com a ASS na INTERSINDICAL, a decisão do partido de se empenhar para reunificar e ampliar a entidade foi sistematicamente boicotada. Com isso, o PCB passou cerca de dois anos engessado nacionalmente na questão sindical, preso a uma aliança preferencial e exclusiva numa determinada região, de um único Estado da federação, conduzida de forma subalterna.

Deixamos claro que não temos razão para imputar à direção da ASS qualquer responsabilidade pelo que ocorreu no PCB. Os companheiros certamente não tiveram ingerência em nossos assuntos internos. A nosso ver, se trata de uma reflexão equivocada dos que se retiram do nosso Partido.

Diante deste quadro, o PCB vai rediscutir seu posicionamento na questão sindical, das bases ao Comitê Central, priorizando, neste momento, a construção da nossa corrente UNIDADE CLASSISTA.

Não podemos deixar de registrar que a ação deste grupo fracionista se dá exatamente no momento em que o PCB recupera a confiança política dos revolucionários, no Brasil e em outros países, num processo de reconstrução que, iniciado em 1992 – quando conseguimos resistir à tentativa de liquidação do PCB, mantendo o Partido e sua histórica legenda –, consolidou-se, a rigor, há apenas seis anos, a partir do XIII Congresso, em 2005. A multiplicação de mensagens mentirosas e abjetas via internet tem feito a alegria e a festa de anticomunistas e de pseudo-esquerdistas, que não se conformam com a reconstrução do PCB e tentam pescar nas águas turvas movidas pelos fracionistas.

Não podemos deixar de registrar também nossa perplexidade com a nota de rodapé do manifesto de ruptura dos "lutadores sociais" com o PCB. Eles se solidarizam com uma organização de direita, assumidamente sionista, reconhecendo nela o direito de satanizar e criminalizar o PCB como antissemita. Certamente, esta solidariedade, partindo de ex-membros do Partido, poderá ser usada nos autos da representação que a Confederação Israelita do Brasil move no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) contra o PCB.

Ou seja, já que não conseguiram desagregar o PCB, na luta interna despolitizada que forjaram, colaboram agora com a tentativa de cassação de seu registro na justiça eleitoral.

Mas nem a ditadura nem liquidacionistas com muito mais peso político, conseguiram acabar com o PCB.

"Não é mole, não; é impossível acabar com o Partidão!"

Partido Comunista Brasileiro
Comissão Política Nacional
Rio de Janeiro, 17 de maio de 2011



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