segunda-feira, 23 de julho de 2012

JUVENTUDE COMUNISTA GREGA (KNE) INTERVÉM NO VI CONGRESSO DA UJC




Intervenção do KNE no Seminário Internacional de Solidariedade entre os Povos

VI Congresso da União da Juventude Comunista


Texto: Georgio Eltachir Almarnti – membro da Direção Nacional do KNE
Tradução: Pedro Bras – UJC-RJ

A cada dia que passa temos mais provas e mais elementos que indiquem claramente que a crise capitalista, uma crise de super-acumulação do capital, está se agravando mais e mais na Zona do Euro e na União Européia.

(Não acho que seja necessário fazer um resgate da eclosão da crise capitalista de 4 anos atrás até hoje; Tenho certeza que vocês já leram muito a respeito todos esses anos).

Apenas para apresentar alguns exemplos característicos segundo dados mais atuais: de acordo com as previsões mais correntes a economia italiana irá regredir 2,4% em 2012, enquanto a previsão inicial falava em 1,6%. A Espanha solicitou sua entrada no chamado “Mecanismo de Suporte” da União Européia, seguida pelo Chipre e já há outros a fazer o mesmo (hoje os jornais já especulam que a Croácia está pretendendo o mesmo). Podemos ver muito claramente que o que acontece nos diversos elos da corrente (como Espanha, Itália, França etc.) tem reflexos na corrente como um todo, tem marcante influência em toda Zona do Euro e União Européia.

Também é um fato de que não diz respeito apenas aos países europeus: por exemplo, o que acontece agora na Espanha irá impactar vários países latinoamericanos, que possuem grandes investimentos espanhóis.

Na era do imperialismo, que é a era do capitalismo monopolista, da dominação dos monopólios capitalistas; a ampliada socialização da produção e internacionalização capitalista são fatores para o desenvolvimento de fortes relações de co-dependência dos países capitalistas, muito mais fortes do que costumavam ser há 50 ou 100 anos atrás. Essas relações criam o mundo das contradições intra-capitalistas. O mundo do antagonismo intra-imperialista.

Nos dias 28 e 29 de junho, o resultado do Encontro da União Européia foi um acordo temporário entre as classes burguesas da Europa, com decisões que buscaram reafirmar a posição dos monopólios europeus no quadro do antagonismo global (dando 130 bilhões de euros como um “pacote de desenvolvimento”) e de reafirmar o euro como uma moeda de reserva global.

Mas, esse acordo é apenas temporário:

- (1) porque ele não desfaz (e não pode desfazer) as causas da crise capitalista, o inconstante desenvolvimento capitalista dentro da Zona do Euro e da União Européia.

- (2) porque ele não desfaz a intensificação das contradições intra-imperialistas as quais o capital irá trazer para um dos lados o ônus das perdas e dos danos da crise capitalista.

Os povos da Europa não devem ter nada o que esperar desta briga intra-imperialista. Enquanto a mistura final da política capitalista é “austeridade com desenvolvimento”, ou se é “desenvolvimento com austeridade”, a política dos capitalistas contra a classe trabalhadora e o povo não será nada melhor, nada menos tênue. De um jeito ou de outro, o desenvolvimento capitalista que eles estão dizendo, uma vez mais, será baseado nas ruínas dos direitos e das vidas da classe trabalhadora; na posterior redução do valor da força de trabalho.

Os imperialistas podem brigar entre si. Podem criar novas alianças e contra-alianças, como a chamada “Coalizão do Sul” que se fala hoje na Europa. Mas, eles estão unidos e coordenados quando o assunto é eliminar direitos populares e reprimir movimentos sociais. E quando dizemos que a classe trabalhadora e o povo não têm nada de positivo a esperar desta luta intra-imperialista, não nos esqueçamos que as duas Guerras Mundiais sucederam grandes crises econômicas do capitalismo.

Na Grécia, a profunda crise de super-acumulação do capital, a qual chegou a seu quarto ano combinada com a crise entre os Estados-membros da União Européia, provocou intensa agressividade dos monopólios e de seus representantes políticos, e é expressa pela estrátégia anti-popular como um todo. O acordo que foi assinado entre o governo grego, a União Européia, o Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) são parte dessa estratégia.

Os capitalistas gregos, em conjunto com seus aliados das organizações internacionais capitalistas, planejaram um coordenado programa de maneira a garantir o máximo possível os lucros dos monopólios. As medidas desse programa atacaram os direitos da classe trabalhadora, o valor da força de trabalho: cortes de pensões e salários, cortes nos setores da saúde pública e no sistema de seguridade social, surgimento de todo tipo de relações de trabalho flexíveis, abolição dos contratos coletivos de trabalho, aumento da idade mínima para pensões aos 67 ou até 70 anos de idade.

Ademais, promoveram diversas ações pró-capitalistas, como a redução de impostos para as grandes empresas, estabelecimento de gigantescos subsídios estatais aos monopólios capitalistas com o pretexto de salvar empregos, etc. Especialmente para os jovens trabalhadores, para os filhos da classe trabalhadora, a situação é ainda pior, apenas para citar alguns exemplos: nós temos mais de 1,5 milhão de trabalhadores desempregados em um total de 11 milhões de trabalhadores e a maioria desses desempregados e até mesmo dos sub-empregados são jovens. Seguindo o espírito do “acordo” e do corte geral do salário mínimo de 22%, os salários dos jovens trabalhadores que têm menos de 25 anos de idade foram cortados em 32%.

As duas eleições nacionais na Grécia ocorreram com um mês de diferença (em maio e em junho) sem abrir mão do seguinte contexto: sob as condições de uma crise capitalista prolongada que levou a um imenso aumento da dívida pública, sob condições de um violento ataque contra o valor da força de trabalho. Ao mesmo tempo, segundo fontes oficiais, foi chamada a atenção da possibilidade de uma nova controlada ou incontrolada bancarrota sob condições de um novo aprofundamento da crise capitalista na Europa. Todos esses fatores, em conjunto com a agressividade dos capitalistas e o desemprego em massa, influenciaram o comportamento eleitoral. A luta popular e dos trabalhadores que se desenvolveu durante a crise cultivou uma raiva pública contra os dois maiores partidos da burguesia grega.

Na primeira eleição, o PASOK, o partido social-democrata que enquanto estava como partido da situação implementou a cruel linha política contra os trabalhadores de todos esses anos, sofreu uma grande perda de seu poder eleitoral, de 43% para 13%. O Nea Dimokratia (ND), o partido liberal, também sofreu uma perda de seu poder eleitoral e podemos dizer que o sistema bipartidário como um todo perdeu sua capacidade de enganar as forças populares como fazia no passado.

Isso se mostrou um balanço positivo, mas ao mesmo tempo o sistema capitalista não fica apenas observando, ele intervém com todos os meios possíveis de maneira a colocar obstáculos à resistência popular, precavendo-a de demandas radicais, cultivando a desorientação.
Nenhum governo foi formado após a primeira eleição (e isso foi parte do esforço capitalista de renovar a aparência de seu sistema político. Eles poderiam ter formado um novo governo sem novas eleições, mas eles não queriam que fosse dessa maneira).

Na segunda batalha eleitoral, o critério básico de votação se tornou a necessidade de formar um governo (eles ameaçaram o povo de que a falta de um governo levaria a bancarrota nacional) e a escolha ficou entre o ND e o SYRIZA, o partido oportunista que emergiu como a nova social-democracia na Grécia. Enquanto na primeira eleição expressou-se um positivo aumento de uma tendência a condenar os maiores partidos da burguesia, com uma clara marca contra os acordos com a União Européia e suas políticas, na segunda eleição nós testemunhamos um retrocesso, sob a pressão dos aterrorizantes dilemas e das desilusões em uma solução imediata em favor do povo pelos governos que se conclamam de “esquerda” ou de “centro-esquerda”.

O Partido Comunista da Grécia (KKE) fez um enorme esforço em ambas as eleições, tendo recebido 8,5% dos votos nas eleições de Maio. Na difícil segunda eleição, lutamos com todas as nossas armas contra essa tendência de terrorismo e desilusão. Perdemos boa parte de nosso poder eleitoral, tendo recebido 4,5% dos votos e elegendo 12 membros para o Parlamento, mas nós permanecemos firmes perante nossas convicções, não concedendo ao inimigo ao menos um passo atrás na luta pela causa dos direitos dos trabalhadores, pela causa do socialismo e do comunismo.

As significantes perdas do KKE não refletem o impacto de suas posições e de sua militância. Estas aconteceram sob a pressão das ilusões corriqueiras e da falsa e perigosa “análise racional” do chamado “menos pior”, o doloroso e fácil caminho que defende que é possível formar um governo que administre a crise enquanto permanece dentro do capitalismo e dentro da União Européia e de que tal governo faria por onde para frear a deteriorização das condições de vida do povo.

Ao mesmo tempo, houve o impacto da atmosfera do medo e intimidação sobre a expulsão da Grécia da Zona do Euro. Isso ocorreu em condições de uma sistemática ofensiva “por debaixo dos panos” de mecanismos político-ideológicos do sistema, e até mesmo pelo uso sistemático da internet. O principal objetivo foi o enfraquecimento do KKE de maneira a prevenir o fortalecimento do movimento revindicativo dos trabalhadores sob condições de uma deteriorização das condições populares de vida.

Durante essas eleições foi novamente confirmado a análise que nosso partido vem fazendo desde estopim da crise capitalista: a intensificação dos problemas dos trabalhadores e do povo durante a crise, como o desemprego em massa e a pobreza, não levarão automaticamente a radicalização de sua consciência e de suas ações. Nas condições da crise capitalista sempre há duas possibilidades para o movimento popular: ou ele irá retroceder ante a pressão dos problemas, a diminuição das demandas e expectativas populares, ou ele irá contra-atacar na direção de uma ruptura política com os monopólios e com os partidos da burguesia. Essa batalha entre estas duas possibilidades ainda não cessou. Ainda lutamos contra ela na Grécia e em todo o mundo.

A principal conclusão das batalhas eleitorias ocorridas na Grécia é de que seu resultado como um todo reflete a tendência do retrocesso do radicalismo da classe trabalhadora, que se desenvolveu durante o período de crise, perante a pressão do crescente radicalismo pequeno-burguês, guiado pela ideologia e propaganda burguesas.

Apesar do fato de que nós tivemos várias e importantes batalhas se desenrolando na Grécia após a ecolsão da crise (tivemos mais de 30 greves gerais nacionais nos últimos dois anos e meio, massivas passeatas, ocupações de prédios públicos, denúncia popular massiva do pagamento da dívida etc.), é óbvio que essas batalhas não têm a capacidade suficiente de de aprofundar suficientemente o orientado radicalismo-de-classe, por não levarem a organização popular para a mudança na correlação de forças para além do sindicalismo clientelista, rumo a orientação política que a conjuntura requere.

Essas batalhas foram fortemente influenciadas pelas massas pequeno-burguesas que possuem a tendência de não lutar pela superação do sistema capitalista, mas de lutar para retomar a sua posição histórica no mesmo. Os novos setores da classe trabalhadora que se juntaram a essas batalhas não têm a experiência política necessária para entender a atual conjuntura e procuram por uma maneira diferente de administrar seus ganhos dentro do capitalismo, colocando um fim aos ataques contra si, dando-lhes uma solução imediata.

As políticas governamentais contra o povo foram entendidas pela maioria como um resultado da incapacidade e da corrupção dos políticos, como um resultado de uma posição anti-patriótica dos partidos gregos e não como uma necessidade estratégica da classe burguesa grega e de seus aliados europeus.

Os diferentes setores da burguesia grega tentaram renovar o cenário político do capitalismo (sem mudar obviamente sua essência), bem como previram que os dois partidos burgueses não poderiam controlar a fúria e o descontentamento popular, pois o perigo de manter um sistema político instável era condição necessária para o aprofundamento da crise capitalista.

Ao mesmo tempo nós testemunhamos a direta, provocativa e imprecedente intervenção da Comissão da União Européia na campanha eleitoral através de suas figuras de liderança da Alemanha, França, Itália, FMI, EUA e da mídia internacional.

Apesar da participação da Grécia ser muito pequena dentro do arcabouço da União Européia, sua profunda assimilação à Zona do Euro, sua profunda e prolongada crise combinada com a recessão da Zona do Euro trouxe à tona a intervenção das alianças internacionais por dentro e por fora das ações diretas da União Européia, de maneira a impedir qualquer tendência de radicalização do movimento dos trabalhadores na Grécia, bem como seu impacto internacional.

Um elemento básico da reforma do cenário político é a criação de dois pólos: a “centro-direita” baseada no ND e a “centro-esquerda” com o SYRIZA em participação conjunta de largas seções de quadros do PASOK, os quais preocupam-se com suas responsabilidades criminais a respeito da implementação de uma linha política anti-popular adotada nos anos anteriores.

A burguesia grega prestou bastante atenção à reconstrução da social-democracia grega, pois sabiam muito bem que ela respresenta uma ferramenta básica para o controle dos trabalhadores e dos movimentos populares. Isso é porque, após a falência do tradicional partido da social-democracia, importantes setores dos capitalistas gregos apoiaram o partido SYRIZA, a auto-conclamada “Coalisão da Esquerda Radical”, um partido oportunista que rapidamente se transformou no partido da nova social-democracia da Grécia. É um partido que apoia veementemente a União Européia e a possibilidade de estabelecer mudanças nesta por dentro das próprias instâncias políticas da mesma. Um partido que continua falando sobre sobre os “novos ares” que chegaram a Europa com a eleição de François Hollande na França. Um partido que apresenta as políticas de Barack Obama nos EUA como um exemplo de uma administração política realista da crise em favor do povo!

Esse partido ainda entre as duas eleições abandonou até mesmo seus slogans que pareciam ser mais radicais (como o cancelamento do acordo entre a Grécia, o BCE e o FMI) e ajustou seu programa para as necessidades da administração burguesa. É característico o fato de que a apenas poucos dias antes do segundo pleito eleitoral, o presidente do SYRIZA se reuniu com embaixadores dos países do G-20 em Atenas, de maneira a tentar estabelecer um “clima de confiança” como ele disse!

Ontem estava lendo uma entrevista do presidente do SYRIZA, na qual ele disse estar bastante orgulhoso do fato de seu partido “ser um obstáculo para o conflito incontrolável que estava chegando a Grécia, porque havia se tornado a última esperança do sistema político retomar sua credibilidade”!!!

Com o apoio dos capitalistas para este partido, pela primeira vez na Grécia, antes da decisão do povo grego foi colocada a possibilidade de um chamado “governo de esquerda” dentro do capitalismo, por dentro da União Européia, na medida em que eles aumentaram a pressão para que o KKE participasse em tal governo.

Apesar do fato de que sabemos que haveria um custo eleitoral, nós resistimos a essa proposta, nós revelamos a verdade para o povo. Nós revelamos que a estratégia que promete um futuro melhor para a classe trabalhadora e para os desempregados pelo chamado “de esquerda” ou “governo progressista”, através da manutenção intacta do poder do capital e da propriedade capitalista dos meios de produção, é extremamente perigosa. Essa estratégia vem sendo testada na Europa e em outras partes do mundo e vem se provando extramente falha. Ela levou partidos comunistas a dissolução e ao peleguismo.

Essa estratégia esconde a questão fundamental. Ela esconde que o problema do desemprego e todos os outros principais problemas da classe trabalhadora, não podem ser resolvidos enquanto o poder e a riqueza que a classe trabalhadora produz permanecer nas mãos dos capitalistas, enquanto a anarquia capitalista existir.

As necessidades contemporâneas do povo não podem ser satisfeitas no capitalismo em seu estágio superior, a fase imperialista, e seu total reacionarismo, marcado pelas dificuldades da reprodução do capital, pela competição dos monopólios por sua dominação, pelo reforço do ataque direcionado à redução do valor pago pela força de trabalho e pela crescente taxa de exploração. Mesmo os menores ganhos requerem conflitos muito específicos contra as forças do capital como a heróica greve de sete meses dos mineiros de Aspropigos nos demonstra, a qual foi consistentemente apoiada pelo KKE e pelo PAME em conjunto com milhares de trabalhadores na Grécia e no exterior que expressaram sua solidariedade. A batalha diária pelo direito ao trabalho, pela proteção aos desempregados, pelos salários e pensões, pelo sistema público e gratuito de saúde, pela riqueza nacional e pela educação; a luta diária contra as guerras imperialistas, pelo desmantelamento das organizações imperialistas, pela soberania popular e pelos direitos democráticos estão inexoravelmente ligados à luta pela superação do capitalismo.

O KKE remou contra à maré, como havia feito outras vezes sobre questões políticas cruciais, quando ele expôs, entre outras coisas, o caráter contra-revolucionário dos antigos partidos socialistas, o caráter imperialista da União Européia, quando ele se opôs ao Tratado de Maastricht, quando ele condenou as intervenções imperialistas e os pretextos que as justificaram etc. Ele explanou para o povo o caráter da crise e de suas pré-condições para uma saída em favor dos trabalhadores, pré-condições estas que estão conectadas com o desmantelamento da União Européia e da OTAN, com o cancelamento unilateral da dívida pública, com a socialisação dos monopólios. Ele colocou o governo dos trabalhadores e do poder popular contra o governo da administração burguesa.

O KKE está concentrando todos os seus esforços na criação de uma poderosa aliança sócio-política entre a classe trabalhadora urbana e as camadas populares rurais, as quais lutarão contra todos os problemas do povo; uma aliança que entrará em conflito com os monopólios e o imperialismo e direcionará sua luta pela superação da barbárie capitalista, pela conquista do poder pela classe trabalhadora, com o estabelecimento do poder popular.

A estratégia do KKE está se mostrando acertada pelo desenrolar de todos os dias que passam. Mas, nós não estamos satisfeitos com apenas isto: não é suficiente ter a estratégia correta e o espírito militante apenas. Nós estudamos nossas fraquezas e exercemos a auto-crítica, nos tornando mais efetivos nas questões de vanguarda política, de formação político-ideológica, de aceleração da presença massiva do partido nas fábricas, locais de trabalho, bairros populares, fortalecendo o movimento popular com orientação de classe, promovendo a estratégia socialista sob quaisquer circunstâncias.

O KKE continua sua luta contra todos os problemas que assolam o povo, com um senso cada vez maior de responsabilidade e de decisibilidade. Está focado na luta contra políticas tributárias de caráter anti-popular, contra os acordos coletivos de barganha, a favor dos salários e das pensões, a favor da proteção aos desempregados, pelo sistema público e gratuito de saúde, pela distribuição da riqueza e pela educação popular. Ao mesmo tempo ele prepara suas forças face ao perigo que hoje representa uma guerra imperialista contra a Síria e o Irã.

Especialmente a Juventude Comunista da Grécia (KNE) está concentrando seus esforços para o sucesso das atividades de nossa 38ª edição do Festival da Juventude. Com o slogan “Dê sua mão para quem se levantar... Vocês devem deter o poder!”, nós vamos nos comunicar com centenas de milhares de jovens trabalhadores, desempregados e estudantes por todo o país, e com toda a certeza nós ficariamos muito felizes com a participação da União da Juventude Comunista (UJC) e de todas as organizações que estão aqui presentes no Brasil em nosso festival na cidade de Atenas, em meados de setembro próximo.

Muito obrigado pela atenção!

Cobertura do Congresso da UJC pela TV Memória Latina

domingo, 22 de julho de 2012

"Brasil forjado na ditadura representa Estado de exceção permanente" - Bia Barbosa



Para professores, filósofos e defensores de direitos humanos, o golpe de 64 moldou um país de estruturas autoritárias, que garante direitos apenas para as classes proprietárias e que transformou a exceção em consenso. Em seminário realizado em São Paulo, eles afirmaram que a exceção é o novo modo de governo do capital e que o povo brasileiro vive um momento perigosíssimo de letargia. A reportagem é de Bia Barbosa.



SÃO PAULO - Qual a idéia de "Estado de exceção"? Na interpretação tradicional do termo, trata-se de um momento de suspensão temporária de direitos e garantias constitucionais, decretado pelas autoridades em situações de emergência nacional, ou mediante a instituição de regimes autoritários. Seu oposto seria o Estado de Direito, conduzido por um regime democrático. Na avaliação de professores, filósofos e defensores de direitos humanos, no entanto, a existência de um Estado de exceção dentro do Estado de Direito seria exatamente a característica do Brasil atual, forjada no período da ditadura militar e que, mesmo após a redemocratização do país, não se alterou. Esta foi uma das conclusões do seminário sobre a herança da ditura brasileira nos dias de hoje, promovido pela Cooperativa Paulista de Teatro e pela Kiwi Companhia de Teatro realizado esta semana, em São Paulo.

Para o filósofo Paulo Arantes, professor aposentado do Departamento de Filosofia da USP, há um país que morreu e renasceu de outra maneira depois da ditadura, e que hoje é indiferente ao abismo que se abriu depois do golpe militar e que nunca mais se fechou.

"Que tipo de Estado e sociedade temos depois do corte feito em 64, do limiar sistêmico construído por coisas que parecem normais numa sociedade de classes, mas que não são? O fato da classe dominante brasileira poder se permitir tudo a partir da ditadura militar é algo análogo à explosão de Hiroshima. Depois que a guerra nuclear começa ela não pode mais ser desinventada. Quando, a partir de 64, a elite brasileira branca se permite molhar a mão de sangue, frequentar e financiar uma câmara de tortura, por mais bárbara que tenha sido a história do Brasil, há uma mudança de qualidade neste momento", avalia Arantes.

Para o filósofo, o país foi forjado pela ditadura a ponto de hoje nossa sociedade negligenciar tudo aquilo que foi consenso durante o autoritarismo dos militares. "A ditadura não foi imposta. Ela foi desejada. Leiam os jornais publicados logo após 31 de março de 1964. Todos lançaram manifestos de apoio ao golpe, era algo arrebatador. CNBB, ABI, OAB, todo mundo que hoje é advogado do Estado de Direito apoiou. Se criou um mito de que a sociedade foi vítima de um ato de violência, mas a imensa maioria apoiou o golpe", disse Arantes. "E a ditadura se retirou não porque foi derrotada, mas porque conquistou seus objetivos. A abertura de Geisel foi planejada, já tinha dado certo com o milagre econômico. Tanto que seus ideólogos estão aí, como principais conselheiros econômicos da era Lula-Dilma, e que a ordem militar está toda consolidada na Constituição de 88", criticou.

Na avaliação de Edson Teles, membro da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos do Brasil e professor de filosofia da Unifesp, a Constituição de 1988 foi apenas uma das formas de lançar o Brasil num Estado de exceção permanente, definido por ele quando a própria norma é usada para suspender a ordem; ou quando aquilo que deveria ser a exceção acaba se tornando ou reafirmando a própria norma.

Para Teles, além de manter a estrutura autoritária militar, o novo ordenamento democrático foi construído sobre o silenciamento dos familiares de vítimas e de movimentos de defesa dos direitos humanos, que queriam justiça para os crimes da ditadura. O problema, no entanto, vinha de antes.

"Em um Congresso controlado pela ditadura, a Lei de Anistia adotou a suspensão da possibilidade de punição de qualquer crime. Um momento ilícito foi tornado lícito, com o silenciamento dos movimentos sociais e pela anistia, que exigiam esclarecimentos sobre os crimes. O que o Estado montou foi algo que manteve a ideia de impunidade. Depois veio o Colégio Eleitoral, que fez uma opção por uma saída negociada entre as oligarquias que saíam e as novas que chegavam, decidindo manter a anista ao crimes da ditadura. Foi o grande acordo do não-esclarecimento", relatou.

O julgamento no Supremo Tribunal Federal em 2010 sobre a interpretação da Lei de Anistia foi, segundo Teles, o coroamento desse silêncio e a instauração de um Estado de exceção no país. "Baseada em ideias fantasmagóricas de que novos golpes que poderiam ser dados, nossa transição foi a criação de um discurso hegemônico de legitimação deste Estado de exceção. Faz-se este discurso como forma de legitimar essa memória do consenso, mas se mantém o Estado de exceção permanente, reconhecendo as vítimas sem nomear os crimes", acrescentou.

Exceção e consenso hoje

O consenso acerca daquilo que deveria ser visto como exceção não se restringe hoje, no entanto, àquilo que pode ser considerado a herança mais direta da ditadura militar. Foi construído também em torno de uma série de acontecimentos e práticas que deveriam mas não mais despertam reações da população brasileira.

"A exceção se torna perigosíssima quando deixamos de reconhecê-la como tal e ela se torna consenso", alertou o escritor e professor de jornalismo da PUC-SP, José Arbex Jr. "Ninguém achou um escândalo, por exemplo, no lançamento da Comissão da Verdade, ver os últimos Presidentes do país juntos, sendo que um deles foi presidente da Arena, o partido da ditadura, responsável pela tortura da própria Dilma; e o outros era Collor! Da mesma forma, está em curso em Osasco uma operação chamada Comboio da Morte, que matou nas últimas horas 16 pessoas. Isso não causa um escândalo nacional, é normal, natural, porque estamos "na democracia". Os jornais falam da Síria, mas a média de mortes diária no auge do conflito da Síria não chega ao que temos aqui cotidianamente. Lá é 60 aqui é 120! Então não estamos discutindo algo que aconteceu em 64 e que hoje se apresenta de forma mitigada, atenuada", disse Arbex.

Para o jornalista, o país vive um estado de letargia hipnótica coletiva, fabricado de maneira competente e eficiente pelo aparato midiático, que produz um consenso em torno de uma imagem de país na qual todos acabamos acreditando. "É muito grave quando olhamos para o Brasil e não percebemos essa realidade de consenso: de nenhuma garantia de direito para quem esteja fora da Casa Grande, e uma situação de guerra permanente", acrescentou.

É o que Paulo Arantes chamou de Estado oligárquico de Direito, um Estado dual, com uma face garantista patrimonial, que funciona para o topo da pirâmide, e uma face punitivista para a base. "Esse Estado bifurcado é uma das "n" consequências da remodelagem do país a partir dos 21 anos de ditadura. Basta pensar no que acontece todos os dias no país. Trata-se de um outro consenso, também sinistro e indiferente, senão hostil, a tudo que nos reúne aqui. Um Estado de exceção que não é o velho golpe de Estado, mas um novo modo de governo do capital na presente conjuntura mundial, que já dura 30 anos", afirmou Arantes.

Ninguém cavalga a história

O que permitiria dizer da possibilidade de se encontrar uma saída deste Estado de exceção permanente é o caráter imprevisível e incontrolável da história. Arbex lembrou que, em setembro de 1989, quando estava em Berlim, ninguém dizia que o Muro cairia menos de dois meses depois. "O fato é que, felizmente, ninguém cavalga a história. Ainda não encontraram uma maneira de domesticá-la. Há um processo latente de explosão social no Brasil, que se combina com processos semelhantes na América Latina, e que pode produzir uma situação totalmente nova. Ninguém previu a Primavera Árabe. Quando um jovem na Tunísia atirou fogo no próprio corpo, ninguém imaginava que, um mês depois, cairia Mubarak no Egito. Estão, não estamos condenados para sempre a esta situação. Só posso dizer que estamos vivendo numa época que, em alguns aspectos, é mais trágica, mais cruel e mortífera que a ditadura militar", acredita.

"Este Estado de exceção só terminará quando a ditadura terminar, quando o último algoz for processado e julgado. Se a Comissão da Verdade encontrar dois ou três bons casos e levantar material para ações cíveis, pode haver uma transmutação disso tudo. E o regime, a sociedade e a economia não vão cair se os perpetradores da ditadura forem processados, como não caíram na Argentina ou no Chile", acredita Paulo Arantes. "Mas devemos pensar no que significaria essa última reparação. Se o último torturador e os últimos desaparecidos forem localizados, em que estágio histórico vamos poder entrar?", questionou. Uma pergunta ainda sem resposta.


sexta-feira, 29 de junho de 2012

Camarada Herzog, presente!



Nesta quarta-feira, 27 de junho, o militante do PCB Valdimir Herzog completaria 75 anos se vivo fosse. Assassinado pela ditadura em 1975, sua morte - como a do operário metalúrgico Manoel Fiel Filho, também militante do PCB - marcaram profundamente a sociedade brasileira e foram determinantes para levar ao público as torturas e assassinatos que ocorriam nos porões da ditadura.

Reproduzimos abaixo matéria escrita em 2005 pelo jornalista Celso Miranda sobre como se deu a morte de Herzog e suas consequências para a vida política brasileira, além de uma carta divulgada na última semana por seu então colega de trabalho e camarada de Partido, Paulo Markun, endereçada a Vladimir.

Vladimir Herzog: Mataram o Vlado

Celso Miranda - 01/10/2005

Há 30 anos, a morte do jornalista Vladimir Herzog em um quartel do exército em São Paulo escancarou para o Brasil os porões da ditadura militar. Causou a mobilização inédita da sociedade contra a tortura, encurralou o governo geisel e acelerou o processo de abertura política

Vladimir acordou mais cedo que de costume no sábado, 25 de outubro de 1975. Fez a barba, tomou banho e se despediu da mulher Clarice, ainda na cama, com um beijo. Ela quis se levantar e preparar o café, ele disse para não se preocupar, que no caminho pararia em um bar e tomaria café com leite. Vlado chegou ao número 1 030 da rua Tomás Carvalhal, no bairro do Paraíso, em São Paulo, perto das 9h. No prédio de muros altos guardados por sentinelas armados, onde funcionava o Destacamento de Operações Internas - Comando Operacional de Informações do 2º Exército, o DOI-CODI, Vlado entrou pela porta da frente. Disse ao atendente seu nome completo, sua profissão e o número de seu RG. Informou que na noite anterior, por volta das 21h30, dois homens que se identificaram como agentes de segurança do Exército o tinham procurado na TV Cultura, onde trabalhava, e que, para não ser detido, se comprometera a se apresentar ali no dia seguinte. E assim o fizera. Depois disso se pôs a esperar, sentado em um dos bancos de madeira que margeavam o largo corredor que levava a uma porta fechada de aço e vidro. Minutos depois, quando foi levado para interrogatório, ele permanecia tranqüilo.

O Brasil de 1975 não parecia ser um lugar em que um jornalista com emprego fixo e endereço conhecido, casado e pai de dois filhos, devesse se preocupar com a própria segurança. Mas era. Em março de 1974, o general Ernesto Geisel assumira a presidência com a promessa de promover a abertura do regime ditatorial. A palavra usada na época era “distensão” e significava aliviar a censura, investigar denúncias de tortura e aumentar a participação da sociedade civil na política. A ditadura light de Geisel, porém, encontrou duas contrariedades. Primeiro a derrota do partido do governo, a Arena, nas eleições para a Câmara e o Senado. Em novembro, o oposicionista MDB fizera 16 dos 22 senadores e 160 das 364 cadeiras da Câmara. Depois, o impacto da crise do petróleo, que colocava fim aos anos do milagre, quando a economia brasileira cresceu mais de 5% ao ano.

Nos bastidores da política dominada pelos quartéis, esse cenário despertou o medo da chamada linha dura do regime. Gente que via qualquer oposição como subversão e que combatia qualquer subversão com violência, tortura e assassinato. Gente que se apoiava no CIE – Centro de Inteligência do Exército – e encontrava nos DOIs espalhados pelo país guarida para atividades ilegais e violentas. Gente que preferia o inferno à “distensão” e ao que ela representava. Em menor ou maior grau, essa gente viveu nos porões da ditadura e, dependendo da ocasião e do apoio oportunista de políticos e militares às suas práticas, teve menor ou maior influência sobre o governo. Foi maior entre 1969 e 1973, depois da publicação do AI-5, quando o combate ao terrorismo e focos de guerrilha os alçaram à linha de frente do regime. Foi menor em 1974, quando Geisel assumiu. Entre outubro de 1969 e dezembro de 1973, 2 mil pessoas passaram pelo DOI-CODI em São Paulo: 502 reclamaram de tortura e pelo menos 40 foram assassinadas. Em 1974, apenas uma foi presa.

Em 1975, porém, a repressão estava de volta. “Sem terroristas para caçar e com o guerrilha do Araguaia devolvida ao silêncio da floresta, o Centro de Informações do Exército avançou contra o Partido Comunista”, diz o jornalista Elio Gaspari, autor de A Ditadura Encurralada. Em 13 de janeiro o CIE invadiu a gráfica da Voz Operária, o jornal do partido, que operava na clandestinidade, num sítio no Rio de Janeiro. No dia seguinte, Elson Costa, um dos responsáveis pela gráfica e dirigente do PCB, desapareceu. Foi morto numa casa mantida pelo CIE na periferia de São Paulo, segundo testemunho do sargento Marival Chaves Dias do Canto à revista Veja, em 1992. Entre janeiro e julho, pelo menos 500 membros do partido foram identificados, 200 foram presos e pelo menos 14 morreram. Em outubro, nova onda de prisões: 61 pessoas foram detidas. A intenção era demonstrar a tese do CIE de que o PCB havia se infiltrado no MDB, na imprensa e até no governo. Essa última acusação era, inclusive, foco das desavenças entre o comandante do 2º Exército, o general Ednardo D’Avila Mello, e o governador do Estado, Paulo Egydio Martins.

Aos 38 anos, Herzog assumira, em setembro, a diretoria de jornalismo da Cultura, emissora do governo. Era militante comunista, mas não desenvolvia atividade clandestina e sua participação se limitava a ir a reuniões. Em sua direção, porém, confluíam três crises, todas regadas de ódio. “Uma era o choque da linha dura com Geisel. Outra, a caçada ao PCB. A terceira era o conflito entre o general Ednardo e o governador Paulo Egydio. A prisão de Vlado servia a todas”, diz Gaspari.

Tortura e morte

Antes de ser preso, em 17 de outubro, Paulo Markun, também jornalista da Cultura, conseguiu mandar um recado aos colegas, indicando quem seriam os próximos. Anthony de Cristo, George Duque Estrada e Rodolfo Konder foram presos antes de serem alertados. Fernando Morais conseguiu escapar. Vladimir foi avisado, mas não quis fugir.

Depois que entrou no DOI, Vlado trocou de roupa e vestiu o macacão dos presos. Ainda pela manhã, foi acareado com dois presos. Com as cabeças cobertas por capuzes de feltro preto, eles não podiam se ver. Mas um deles, Konder, reconheceu o amigo: “Empurrei a borda do pano e vi o preso que chegava. Eu o reconheci pelos sapatos: eram os mocassins pretos que Vlado usava.” Nessa hora, Vlado negou que pertencesse ao PCB e Konder e o outro preso foram retirados para um corredor, de onde ouviram os gritos de Vlado e a ordem para que fosse trazida a máquina de choques elétricos. “Os gritos duraram até o fim da manhã. Os choques eram tão violentos que faziam Vlado urrar de dor”, diz Konder. Um rádio foi ligado em alto volume para abafar os sons. Meia hora depois, por volta das 11h, Vlado foi para a sala de interrogatórios.

“Mais ou menos uma hora depois, me levaram a outra sala onde pude retirar o capuz e ver o Vlado. O interrogador, um homem de uns 35 anos, magro, musculoso, com uma tatuagem de âncora no braço, mandou que eu dissesse a ele que não adiantava resistir”, lembra Konder. Vlado estava com o capuz enfiado na cabeça, trêmulo, abatido, nervoso. Sua voz estava por um fio. “Fui obrigado a ajudá-lo a redigir uma confissão que dizia que ele tinha sido aliciado por mim para entrar no PCB e listava outras pessoas que integrariam o partido.” Konder foi levado e os gritos recomeçaram. Essa foi a última vez que Vlado foi visto e ouvido. “No meio da tarde, fez-se silêncio na carceragem”, diz George Duque Estrada que também estava preso no DOI, em relato no livro Dossiê Herzog – Prisão, Tortura e Morte, de Fernando Pacheco Jordão.

Às 22h08 a Agência Central do SNI, em Brasília, recebeu uma mensagem: “Info que hoje, dia 25 out, cerca de 15 hs, o jornalista Vladimir Herzog suicidou-se no DOI/CODI/II Exército”. Seria o 38º suicida, o 18º a se enforcar e, de acordo com o Laudo de Encontro de Cadáver, emitido pela Polícia Técnica de São Paulo, teria feito isso com uma tira de pano. Herzog teria se amarrado pelo pescoço numa grade a 1,63 metro do chão. Sem espaço para que seu corpo pendesse, teria ficado com os pés no chão e as pernas curvadas, como mostrava a foto anexada ao laudo. Segundo comunicado do comandante do DOI, a tira de pano era a “cinta do macacão que o preso usava”. Os macacões do DOI não tinham cinto. “Suicídios desse tipo são possíveis, porém raros. No porão da ditadura, tornaram-se comuns, maioria até. O último, em São Paulo, acontecera cerca de um mês antes, na mesma cela. Dos 17 casos anteriores de suicídio por enforcamento, oito não tiveram vão livre. Em dois, os presos teriam morrido sentados”, diz Gaspari.

O morto fala

Sem notícias do marido desde a manhã, Clarice estava preocupada. Por volta das 23h bateu à sua porta um grupo de diretores e funcionários da Cultura. Entraram calados, sentaram-se na sala e disseram-lhe que as coisas se complicaram. “Mataram o Vlado!”, ela teria dito, segundo seu relato no livro Vlado, de Paulo Markun. “Eles me falaram que Vlado estava morto e que fora suicídio. Senti ódio. E uma grande impotência.”

“Eles mataram o Vlado”, disse o amigo e jornalista Fernando Pacheco Jordão, autor de Dossiê Herzog, em telefonema para Audálio Dantas, presidente do Sindicato dos Jornalistas. Era quase 1 da manhã e Jordão ainda daria muitos telefonemas na madrugada. “Mataram o Vlado”, repetiu a dom Paulo Evaristo Arns. “Não sei se já não é hora de um protesto mais forte. Quem sabe sair pelas ruas”, respondeu o cardeal.

O jornalista Mino Carta, na época diretor da revista Veja, foi um dos primeiros a chegar à casa dos Herzog. Ele vinha de Santos, onde estivera justamente para pedir a ajuda do secretário de Segurança do Estado, Erasmo Dias, no caso das prisões dos colegas. Segundo depoimento a Paulo Markun, no livro Vlado, Mino ligou para o coronel Golbery do Couto e Silva, ministro da Casa Civil. “Vá ao Paulo Egydio”, teria dito o “feiticeiro”, como era conhecido por sua intimidade quase mágica com o poder. Golbery lhe disse, ainda, que aquilo, a morte de Vlado, era uma tentativa de golpe contra Geisel. Mino seguiu o conselho e procurou o governador Paulo Egydio, no Palácio dos Bandeirantes. Quando saiu, o governador chorava.

Desde a morte do ex-deputado Rubens Paiva, num quartel da Polícia do Exército no Rio, em 1971, era a primeira vez que morria no porão da ditadura alguém da elite, com vida profissional legal e atividade política praticamente nula. “Horas depois da morte de Herzog começou um daqueles processos em que reações individuais e desarticuladas desembocam em comportamentos que, sem coordenação ou planejamento, constroem os fatos históricos”, diz Gaspari.

Mas o DOI tinha sua própria estratégia para lidar com o assunto. O corpo de Herzog foi entregue à Polícia Técnica e levado ao Instituto Médico Legal, onde chegou sem a roupa com que fora fotografado, mas com os próprios trajes. O laudo do exame de corpo de delito, assinado pelos médicos Harry Shibata e Arildo de Toledo Viana, do IML, concluiu: “quadro médico legal clássico de asfixia mecânica por enforcamento”. Ainda na noite de sábado, o corpo foi enviado ao Hospital Albert Einstein. Estava tudo pronto para mais um sepultamento típico de mortes ocorridas nas dependências das Forças Armadas, durante a ditadura: rápidos e discretos.

Clarice não quis assim. Para que houvesse velório, ela marcou o enterro para a segunda. No domingo, cerca de 600 pessoas foram à cerimônia, entre eles o cardeal Arns e o senador Franco Montoro. “Era a primeira vez que um arcebispo e um senador da República velavam um morto do regime”, diz Gaspari. “Formou-se uma grande frente e, na segunda, todos estavam mobilizados pela morte de Herzog.”

No cemitério israelita do Butantã, os responsáveis pelo funeral apressaram tanto a cerimônia que dona Zora, mãe de Vlado, não chegou a tempo de se despedir do filho, viu apenas quando jogavam terra por cima do caixão. Quatro jornalistas que estavam presos no DOI-CODI foram levados até o local. Konder foi um deles: “Não deixaram a gente se trocar, me levaram com roupas sujas de urina, sangue e fezes. Foi assim que assisti ao enterro de meu amigo.”

“Senhor Deus dos Desgraçados, / Dizei-me Vós, Senhor Deus / Se é mentira, se é verdade, / Tanto horror perante os céus.” Depois de ler o trecho de Navio Negreiro, de Castro Alves, Audálio Dantas fez correr entre os presentes outro verso: “Reunião no sindicato”.

Ação e reação

“Se a tigrada quisera desmantelar o PCB, já o conseguira. Se queria outra coisa, era outra coisa que queria”, afirma Elio Gaspari. Pelo menos uma pessoa achou, assim que Vlado morreu, que era “outra coisa”: o presidente Geisel.

Ele só soube da morte de Herzog no domingo. Na segunda, em visita ao Rio, não tratou do assunto e parecia ter assimilado o golpe. Mas a linha dura queria mais. Na manhã de quarta, dia 29, o general Sylvio Frota, ministro do Exército, ligou para o ministro da Justiça, Armando Falcão. Falcão relata o telefonema em seu livro Tudo a Declarar. “O senador do Paraná, Leite Chaves, disse no Congresso que o suicídio do jornalista Vladimir Herzog não passa de ‘um crime ignominioso’. Estou reunido com o Alto-Comando e ninguém aceita o insulto. Queremos uma reparação imediata.” Era a “outra coisa que queriam”. Queriam atacar o Congresso, provocar cassações e, por tabela, jogar areia no projeto de distensão de Geisel.

Nas ruas de São Paulo, o clima era outro. Ainda na segunda-feira, cerca de 30 mil estudantes da USP, PUC e Fundação Getúlio Vargas entraram em greve. A garotada queria marchar pela cidade, mas aguardava a reunião com os jornalistas. Juntos, aprovaram a realização de um ato religioso pela memória de Vlado na sexta, dia 31. O cardeal Arns tomou a iniciativa: ofereceu a catedral da Sé e disse que estaria lá.

Na quarta-feira, Geisel mandou chamar Frota. Há duas versões parecidas para a conversa dos dois generais. Uma narrada pelo presidente ao seu secretário Heitor Ferreira e relatada por Gaspari em A Ditadura Encurralada.“Vocês escolham lá um presidente e venham me substituir”, teria dito. A outra foi narrada por Frota a Falcão e reproduzida em Tudo a Declarar: “O presidente me disse que se quisessem insistir no caso tratassem de ir arranjando outro para colocar em seu lugar”. A ameaça encostou Frota na parede. O ministro recuou.

Até o fim da semana, os dois lados temeram que o outro reagisse e fosse para a rua. Em Brasília temia-se que os universitários promovessem passeatas. Em São Paulo, o medo era de que o regime proibisse a manifestação. Geisel foi a São Paulo na quinta e se hospedou no Palácio dos Bandeirantes, onde se reuniu com os chefes militares do Estado. Para começo de conversa, perguntou ao general Ednardo sobre o Inquérito Policial Militar a respeito da morte de Herzog. Não fora instalado, porque o ministro Frota determinara que não fosse. Pois seria. Embora não se destinasse a apurar as causas da morte de Vlado, mas “as circunstâncias em que ocorreu o suicídio do jornalista”, a instauração do IPM já era uma derrota para Ednardo, Frota e a turma do porão.

“À noite, o governador promoveu uma festa em homenagem a Geisel. Entre os 1500 convidados estava a bancada oposicionista, até o deputado Alberto Goldman, líder do partido na Assembléia e militante do PCB”, diz Gaspari. Goldman relata a rápida conversa que teve com o presidente em seu livro Caminhos de Luta. “Presidente, o MDB está apreensivo com o que vem acontecendo em São Paulo, quanto ao respeito dos direitos humanos”, disse o deputado. “Não pensem que eu não entendo o significado de suas presenças aqui, neste momento”, respondeu o general.

No dia seguinte, o povo estava na rua e fazia a primeira manifestação contra a ditadura após o AI-5. Um pouco antes da hora do culto, dois secretários do governador ainda procuraram o arcebispo de São Paulo e lhe pediram para cancelar o evento. “Fui informado que existiriam mais de 500 policiais na praça com ordem de atirar ao primeiro grito. Se houvesse protestos, eles metralhariam a população”, lembra dom Paulo. A estratégia dos manifestantes era chegar à praça em pequenos grupos, evitando aglomerações. Cerca de 8 mil pessoas se espalharam pelas escadarias da Sé. As que conseguiram entrar viram o cardeal, o rabino Henry Sobel e mais 20 sacerdotes, entre eles dom Helder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife. “Ninguém toca impunemente no homem, que nasceu do coração de Deus para ser fonte de amor”, disse dom Paulo. “Nas minhas dores, ó Senhor, fica ao meu lado”, respondeu a audiência.

Para Elio Gaspari, naquela tarde de 31 de outubro de 1975, a oposição brasileira passou a encarnar a ordem e a decência. “A ditadura, com sua ‘tigrada’ e seu aparato policial, revelara-se um anacronismo que procurava na anarquia um pretexto para a própria reafirmação.”

Veias abertas - Exumação refuta falsa versão de suicídio
Por Marina Della Valle

Durante mais de 30 anos, os restos mortais da psicóloga Iara Iavelberg (na foto) ficaram na ala dos sepultados “com desonras” do Cemitério Israelita de São Paulo. O motivo foi que o laudo oficial não era claro sobre a causa de sua morte. O legista anotou: “Suicídio?” – assim mesmo, com ponto de interrogação. Segundo a versão dos militares da Operação Pajussara (que perseguia Iara e seu companheiro, Carlos Lamarca), ela teria se suicidado com um tiro no peito em Salvador, em 1971, ao se ver cercada pelos agentes do governo. “No judaísmo, o suicídio é um crime tão grave quanto o assassinato”, diz o rabino Henry Sobel. Na época, a família de Iara não teve acesso ao corpo, que foi enterrado num caixão lacrado. Em 2003, após anos de brigas na Justiça contra o cemitério, a família conseguiu encaminhar os restos mortais para a exumação. A análise do legista Daniel Muñoz, da USP, mostrou que a distância do disparo que matou Iara era incompatível com um ato suicida. O jornalista Samuel Iavelberg, irmão da vítima, falou sobre o resultado. O que a exumação significou para a família?

A vitória foi saber a verdade tantos anos depois. É o primeiro indício concreto sobre a maneira como ela morreu. O importante é que a tiramos da área de suicidas. Para lá ela não volta. O que será feito com o corpo? Gostaríamos que ela fosse colocada ao lado de meus pais, como eles pediram, mas, se não houver lugar, ela pode ser enterrada por perto, em terra consagrada. A entidade que dirige o cemitério alega motivos religiosos, mas na verdade não quer que um crime militar seja esclarecido.

A gota d’água - A morte de Manoel Fiel Filhoteve impacto inédito: custou acabeça de um general
Erasmo Dias, coronel reformado do Exército, viu coisas muito sujas durante a ditadura – e fala delas com uma mórbida naturalidade. Em janeiro de 1976, quando era secretário de Segurança do Estado de São Paulo, teve que ir verificar mais uma morte ocorrida nas celas do DOI-CODI. “Fui lá e levei o Rodrigues comigo. Combinei com ele que íamos ver se era mesmo suicídio. Ele me diria, em uma escala de 1 a 100, se era possível”, relembra Dias, referindo-se ao legista Armando Canges Rodrigues. O médico logo afirmou que a chance de que aquele homem tivesse tirado a própria vida era de apenas 0,1 em 100. “Bem, aí fizemos a autópsia, porque 0,1 era uma chance e precisávamos verificar. E deu suicídio. Foi assim: ele enrolou três lenços, fez um nó, e apertou no pescoço até morrer”, afirma o militar. O laudo oficial sobre a morte do operário Manoel Fiel Filho (na foto), porém, não corresponde ao relato de Dias – na melhor das hipóteses, por falha na memória do velho ex-secretário. Segundo a versão divulgada, o metalúrgico de 49 anos, pai de duas crianças, teria se enforcado com um par de meias de náilon azuis. Na manhã do dia 16 de janeiro, uma sexta-feira, Fiel Filho foi retirado da Metal Arte, onde era chefe de setor de prensas metálicas, e conduzido por agentes armados para sua casa. Eles buscavam exemplares do jornal comunista Voz Operária, do qual o metalúrgico era acusado de ser distribuidor. Não acharam nada e o levaram para o DOI-CODI, sob os protestos da esposa Teresa – a quem foi dito, segundo Carlos Alberto Luppi, autor de Manoel Fiel Filho – Quem Vai Pagar por este Crime?, que seu marido retornaria em breve. Ele foi levado de volta no sábado. Morto. A tragédia teria um grande impacto nos bastidores da ditadura. Enforcar alguém no mesmo lugar em que, 84 dias antes, haviam matado Herzog soava como uma grande provocação à autoridade do presidente. No domingo à noite, quando soube do “suicídio” pelo governador paulista Paulo Egydio Martins, Geisel não conseguiu dormir. Na segunda-feira, o comandante do 2º Exército, Ednardo D’Avila Mello, responsável pelo DOI-CODI, recebeu um telefonema durante uma reunião com seus generais subalternos. Levantou-se, saiu da sala e foi atender. Ao voltar, conforme relata Elio Gaspari em A Ditadura Encurralada, disse: “Fui exonerado”. Era a primeira vez em toda a história brasileira que um general era destituído de seu cargo. Quando D’Avila Mello tentou voltar a presidir a reunião, foi interrompido por Ariel Pacca da Fonseca. O comandante da 2ª Região Militar era seu sucessor imediato e não perdeu tempo em assumir a nova função.




Meu querido Vlado
16 de junho de 2012

Na próxima quarta-feira, amigo, você fará 75 anos. Por razões alheias à nossa vontade, não vou poder lhe dar os parabéns pessoalmente e assim, aproveito para fazer isso aqui – e contar algumas coisas que aconteceram desde a última vez que nos vimos, numa sexta-feira, 19 de outubro de 1975 – sim, há 37 anos!

Você certamente não ficou sabendo, mas no sábado seguinte, 25 de outubro, um carcereiro chegou diante da grade e chamou meu nome. Eu estava com pelo menos uma dúzia de presos na última cela de um corredor do Doi-Codi em São Paulo, o centro de tortura do regime militar. Todos vestidos com macacões verdes do exército, sem cinto e no meu caso, sem botões também. O fulano abriu a cela, colocou o capuz preto sobre a minha cabeça e começou a me guiar como um cego. Imaginei que pudesse ser uma acareação com outro preso, mais um interrogatório, nova sessão de tortura, quem sabe uma excursão pelas ruas da cidade em busca de outro companheiro. Já passara por tudo isso e por muito mais – até mesmo a insólita saída para batizar Ana, a minha filha (virou atriz), acompanhado por uma equipe com as armas enfiadas em duas sacolas de lona preta. Mas quando o sujeito tirou meu capuz, havia diante de mim uma carteira de fórmica, dessas de escola, com uma espécie de prancheta do lado direito. Sobre ela, uma pilha de papel almaço e uma caneta. Antes de me deixar ali, recebi uma ordem curta e grossa:
- Escreva tudo o que você sabe sobre Vladimir Herzog.

Embora já ganhasse a vida escrevendo há quatro anos, foi meu texto mais difícil.  Quase trinta anos mais tarde, encontrei as folhas amareladas no Arquivo do Estado, quando buscava as informações para contar nossa história.
Lembro que nos conhecemos na redação da Folha de São Paulo, em março de 1975, provavelmente. Você assumira a chefia da sucursal do Opinião e queria que eu fosse um dos colaboradores. O jornalzinho era o sonho de consumo, se é que a metáfora se aplica, para os jornalistas que viam a profissão como uma trincheira de luta pela democracia. Não conseguia noticiar quase nada, barrado pela censura, mas se dispunha a fazer o que muito jornalão evitava.
Escrevi umas matérias – um punhado passou pela censura – e substituí você na direção da sucursal, durante uma viagem aos Estados Unidos. Na volta, emprestei uma casinha de praia pra você escrever o roteiro do Doramundo, aquele filme que você queria fazer e o João Batista de Andrade realizou e ficamos amigos. Mas, caramba, você nunca me contou sua história. Nem deu tempo. Fiquei sabendo em 1985, quando escrevi meu primeiro livro sobre sua história e descobri sua infância como refugiado judeu na Itália, vivendo sob nome falso, seu pai fingindo ser mudo para esconder o sotaque iugoslavo, o resto da família indo parar num campo de concentração. Aos oito anos, quando os Herzog chegaram a São Paulo e foram morar na Mooca, o Brasil vivia a abertura democrática. Eu tinha seis anos quando você se preparava para o vestibular e fez um teste no jornal O Estado de S. Paulo. Começou a estudar filosofia, mas já tinha mergulhado no jornalismo. Integrou a equipe pioneira que implantou a sucursal de Brasília. No final de 1962, conheceu Clarice, com quem se casou pouco antes do golpe de 1964. Em 65, com uma bolsa de estudos, você foi trabalhar na BBC e Clarice o seguiu seis meses depois.

Em setembro de 1975, você se tornou diretor de jornalismo da TV Cultura e teve a coragem de me transformar em chefe de reportagem (eu tinha 23 anos, lembra?). Bom, o resto da história, a gente conhece: fomos alvejados por uma campanha destinada a abater o governador Paulo Egydio Martins e, por tabela, o general Ernesto Geisel, que era presidente. Campanha facilitada pela repressão ao Partido Comunista, onde nós dois militávamos, em posições secundárias e acreditando que era um caminho para reconquistar a democracia e construir um Brasil socialista e livre.

Naquele sábado, 25 de outubro, os militares do Doi-Codi reuniram os jornalistas que estavam presos e nos disseram que você tinha se suicidado e que era agente da KGB! Ninguém aceitou a ideia e para provar que choque não mata ninguém, me fizeram acionar a máquina chamada pimentinha com um torturador segurando os fios. No dia seguinte, fomos soltos temporariamente para ir ao seu enterro.  Tinha muita gente, todos chocados.
Voltamos ao Doi-Codi e dali para o DOPS, onde ouvimos os policiais treinando tiro para reprimir o culto ecumênico que aconteceu na catedral da Sé. Primeira grande manifestação contra a tortura, resultado da ação de dom Paulo Arns, do rabino Henry Sobbel e do reverendo James Wright, com respaldo do Sindicato dos Jornalistas, de estudantes e políticos da oposição.

Depois disso, amigo, muita coisa aconteceu. Um inquérito armado pelo governo e manipulado concluiu que você se matara, apesar de todas os depoimentos em contrário. O general Geisel demitiu o comandante do II Exército quando outro comunista desimportante, o operário Manoel Fiel Filho foi “suicidado” no Doi-Codi. O problema do presidente era a desobediência, não a tortura.

Clarice entrou com uma ação na Justiça e provou que o Estado era responsável pela sua morte. Não pediu indenização, só justiça. Houve a anistia, os exilados voltaram e com eles, as eleições diretas para governador – a oposição ganhou em dez estados. A campanha das diretas parou o país e se não acabou com o colégio eleitoral, garantiu a eleição indireta do Tancredo Neves, que morreu antes da posse. José Sarney virou presidente, fez a Constituinte e em 1989, elegemos um certo Fernando Collor, de que você nunca ouviu falar. Acabou saindo pelo impeachment.

Fernando Henrique, que era do conselho editorial do Opinião virou presidente, foi reeleito e passou a faixa para o Lula (lembra?) que também governou oito anos e foi sucedido por uma ex-guerrilheira, Dilma Roussef, que afinal criou a Comissão da Verdade para apurar casos como o seu e tantos outros menos conhecidos.

Seu filho Ivo criou o Instituto Vladimir Herzog, para valorizar a liberdade de imprensa e os direitos humanos. Está fazendo um belo trabalho de resgate da história dos jornais alternativos e uma programação de festa pelos seus 75 anos. Quando lembro dele e do André garotinhos, me sinto meio velho. André trabalha em Washington no Banco Mundial com políticas públicas para Ásia e África. Clarice vai muito bem, obrigado.

O Brasil também vai bem. Não tanto quanto sonhamos, mas muito melhor do que no tempo em que convivemos. A democracia tem seu valor, apesar (ou por causa) das denúncias e das CPIs, que não existiam na ditadura. Ah, vivo parte do tempo em Florianópolis. Escrevi uns livros, fiz uns documentários e fui presidente da TV Cultura. Mas um dia conto como foi essa experiência.
Abraços, saudades e parabéns.
Markun


quinta-feira, 28 de junho de 2012

Palestra: "Marxismo e crítica à pós-modernidade", com Lizia Nagel - IMPERDÍVEL!


OLHA O QUE DÁ CONCILIAR COM A DIREITA

"O Lula assumiu em 2003 sob a desconfiança de que era um Fidel Castro brasileiro. Achava que ele tinha que ter estágio no governo brasileiro até para o povo se decepcionar com ele. Mas, da maneira que exerceu a Presidência, diria que ele está à minha direita. Eu, perto do Lula, sou comunista.
Eu não teria tanta vontade de defender os bancos e as multinacionais como ele defende. Quando ele tira imposto dos carros, tira da Volkswagen, da Ford, da Mercedes. Quando defende sistema bancário, defende quem? Os banqueiros.
Eu, Paulo Maluf, industrial, estou à esquerda do Lula. De modo que ele foi uma grata revelação do livre mercado, da livre iniciativa."

domingo, 24 de junho de 2012

CONTRA O GOLPE! APOIAMOS A LUTA DO POVO E DA JUVENTUDE PARAGUAIA


O golpe de estado impetrado no Paraguai no dia 22 de julho de 2012 revela a faceta mais cínica, covarde e autoritária da direita e do imperialismo na América Latina. A destituição do Presidente Lugo, eleito pelo povo paraguaio, após décadas de ditaduras e de domínio do conservador Partido Colorado, representa um duro golpe nas lutas por democracia e justiça social do povo e da juventude paraguaia.
 É notório que o impedimento de Lugo está sendo financiado e conduzido pelo capital internacional associado à burguesia local, que se sentiram atacados em seu “direito sagrado a propriedade privada” com a crescente luta de massas pela reforma agrária que se desenvolve em todo o país. E que teve no massacre de Camendiyú, que resultou na morte de onze companheiros sem-terra, uma das expressões de como esta questão vem sendo conduzida no Paraguai.
 Repudiamos o Golpe, assim como repudiamos a grande mídia que vem procurando dar um ar de “normalidade” e de “respeito às regras democráticas” as ações produzidas pelos golpistas.
 Cobramos do Governo Dilma que saia de cima do muro, e tome a iniciativa de não reconhecer o governo golpista e de romper relações diplomáticas e comerciais enquanto o Presidente Lugo não seja reconduzido ao cargo. A manutenção da postura adotada pelo Itamaraty revelará o consentimento com o golpe de estado e a preocupação em atender aos interesses sub-imperialistas que o Estado brasileiro historicamente construiu em relação ao Paraguai.
 Não criamos ilusões com relação à democracia burguesa. Sabemos que as verdadeiras lutas por democracia e pela recondução do Presidente Lugo será fruto das lutas nas ruas e no campo, que já vem sendo articuladas pelos lutadores paraguaios.
 O povo e a juventude paraguaia saberão conduzir a luta pela real democracia, sem vacilação e sem conciliação.


Coordenação Nacional da União da Juventude Comunista
Junho 2012