segunda-feira, 24 de novembro de 2008

PROLETÁRIOS DE TODO O MUNDO, UNI-VOS!

Pronunciamento de Ivan Pinheiro, Secretário Geral do PCB, em nome do Partido, no X Encontro Mundial de Partidos Comunistas e Operários

Camaradas e Camaradas:

O PCB saúda os comunistas do mundo todo.

Estamos em casa. Não por estarmos no Brasil. Nosso país é o mundo. Estamos em casa, porque o lugar do Partido Comunista Brasileiro é o movimento comunista internacional. Fundado sob a influência da Revolução Russa, o PCB se orgulha de ter sido solidário ao Partido Comunista da União Soviética - em que pesem algumas diferenças e críticas - até a derrocada das experiências de construção do socialismo no leste europeu. Há 50 anos nos solidarizamos com a gloriosa Revolução Cubana. O movimento comunista internacional contou e conta com o nosso Partido, nas vitórias e derrotas, nos erros e acertos.

Este Encontro não poderia ocorrer em momento mais oportuno: a mais grave crise da história do capitalismo bate às portas da humanidade, anunciando várias conseqüências negativas para o proletariado.

Para tentar sair da crise, o capital não pensa duas vezes ao saquear os cofres públicos para salvar banqueiros e oligopólios; não vacilará um minuto em atacar ainda mais os salários, os direitos sociais e trabalhistas, além de diminuir a qualidade de serviços públicos; não tergiversará um só instante ao aprofundar a exploração e a barbárie, sem se importar com o agravamento da fome e da miséria; não titubeará em recorrer a mais guerras e agressões militares nem em recrudescer a criminalização e a repressão aos movimentos sociais e às organizações populares e revolucionárias.

Esta crise, apesar de seus elementos estruturais, não é necessariamente, por si só, a crise final do capitalismo, que não cairá de podre. Mas, dialeticamente, poderá criar as condições - com o provável acirramento da luta de classes em âmbito mundial – para colocar em relevo o protagonismo do proletariado e, a depender de certos fatores, influenciar positivamente a correlação de forças, abrindo possibilidades para o avanço da luta pela superação do capitalismo, na perspectiva do socialismo.

O papel dos comunistas e o grau de sua unidade de ação e de inserção nos movimentos de massa serão decisivos, nessa difícil conjuntura que vamos enfrentar.

A crise enterra as ilusões dos que pretenderam humanizar o capitalismo. Não há mais espaço também, no capitalismo cada vez mais globalizado, para ilusões nacional-desenvolvimentistas, baseadas em alianças dos trabalhadores com as chamadas burguesias nacionais.

Cada vez mais se acentuará no mundo a contradição entre o capital e o trabalho. Não apenas nos países desenvolvidos ou emergentes, como é o caso do Brasil, que é parte subordinada do imperialismo. É só olhar para países pouco desenvolvidos, como a Bolívia e a Venezuela, para entender a ilusão de alianças com as burguesias nacionais. Vejam a violência da burguesia boliviana, diante de uma revolução que não é socialista, mas ainda democrática e cultural, e o ódio que nutre a burguesia venezuelana frente à revolução bolivariana.

No estágio atual do capitalismo, e sobretudo em decorrência de sua profunda crise, se evidenciará cada vez mais a centralidade do trabalho. Estão sendo jogados no lixo da história todos os mitos construídos pelo neoliberalismo, como o "estado mínimo", o "livre-mercado" e o "fim da classe operária".

Ao contrário do que dizem os profetas do fim da história e os reformistas, o proletariado aumenta no mundo, em quantidade e qualidade. Nos países desenvolvidos, apesar da atual fragilidade e fragmentação do movimento operário e sindical, há grandes possibilidades de a luta de classe se intensificar.

Isto não significa subestimar as lutas dos povos de países periféricos. A América Latina, por exemplo, continuará sendo um importante palco de luta contra o capital, onde processos importantes de mudanças sociais procuram articular-se em torno da ALBA, em contraposição às frações imperialistas que disputam a hegemonia de mercados e riquezas naturais da região, inclusive setores monopolistas da burguesia brasileira.

Na América Latina, há uma questão que deve merecer a atenção solidária dos comunistas do mundo todo: a derrota do estado paramilitar e terrorista da Colômbia é parte da luta para fortalecer a defesa de Cuba Socialista e aprofundar os processos mudancistas na Venezuela, no Equador, na Bolívia e, possivelmente, no Paraguai e em outros países.

Na Colômbia, nossos esforços devem estar concentrados na busca de uma paz democrática, com justiça social e econômica, como acaba de conceituar o XX Congresso do Partido Comunista Colombiano. Além de nossa solidariedade irrestrita a este heróico Partido - que enfrenta de peito aberto a violência do terrorismo de Estado - não podemos colaborar, por omissão, com a satanização e criminalização de organizações políticas insurgentes, como as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Até porque não temos o direito de escolher as formas de luta de cada povo.

O mesmo vale para organizações insurgentes de outros países. O imperialismo precisa derrotá-las, para que não sirvam de exemplo. Não podemos esquecer que não são convencionais, mas insurgentes, as forças que resistem ao imperialismo na Palestina, no Iraque e no Afeganistão. Dependendo dos desdobramentos da crise do capitalismo, nenhuma forma de luta poderá ser descartada.

Propomos que nos somemos aos esforços que vêm sendo feitos pela intelectualidade colombiana e o Secretariado das FARC, através de cartas públicas. Pensamos que a nova carta que está sendo preparada pelos intelectuais, em resposta à sinalização construtiva da organização insurgente, não deve ter como destinatários apenas o povo e os atores locais.

Para forçar o governo fascista de Uribe a reconhecer o conteúdo político, econômico e social do conflito colombiano, devemos lutar para que a UNASUR chame para si a iniciativa de viabilizar o início de um processo de negociação política, como fez para evitar o acirramento do conflito boliviano, que também tem características de violência política. Uribe não poderá desconhecer o papel da UNASUR na solução de conflitos, nem alegar ingerência, pois compareceu pessoalmente à reunião deste organismo, em Santiago, para tratar da Bolívia.

Finalmente, camaradas, o PCB considera que, mesmo expressando a vontade majoritária do povo estadunidense por mudanças, o advento do governo Obama não mudará a essência do imperialismo ianque, sobretudo na política externa. O imperialismo se valerá desta mudança de fachada para iludir os povos e tentar afastá-los da necessária luta para enfrentar os efeitos da crise do capitalismo e para construir o socialismo.

Camaradas:

Mais cedo do que imaginamos e do que desejavam nossos inimigos, nossos Partidos estão voltando a ter vigência e atualidade.

Este Encontro precisa dar passos seguros para estreitar os laços entre nossos Partidos e a unidade de ação dos revolucionários, no âmbito mundial. A nossa responsabilidade aumenta, a partir de agora.

Outro mundo é necessário!

Vivam os Partidos Comunistas e Operários!

Viva o internacionalismo proletário!

Proletários de todo o mundo, uni-vos!

São Paulo, 22 de novembro de 2008

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Obama não trará as mudanças que o povo estadunidense e o mundo precisam:




As eleições e a responsabilidade do intelectual para com a verdade - por James Petras.

As eleições presidenciais nos EUA, mais uma vez, apresentam um teste ácido para a integridade e a coerência dos intelectuais estado-unidenses. Se o dever e a responsabilidade do intelectual público é dizer a verdade ao poder, as recentes declarações da maior parte dos nossos bem conhecidos e prestigiados sábios públicos fracassaram miseravelmente. Aos invés de destacar, revelar e denunciar as reaccionárias políticas externa e interna do candidato do Partido Democrata, senador Barack Obama, eles preferiram apoiá-lo, "criticamente", apresentando como desculpas que mesmo "diferenças limitadas" podem resultar em resultados positivos, e que "Obama é o mal menor" e "cria uma oportunidade para uma possibilidade de mudança".

O que faz estes argumentos indefensáveis é o facto de os pronunciamentos públicos de Obama, seus principais conselheiros políticos, e prováveis decisores políticos no seu governo, definirem abertamente uma política externa mais belicosa e uma política económica interna profundamente reaccionária alinhada com Paulson-Bush-Wall Street. Quanto às grandes questões da guerra, da paz, da crise económica e do ataque brutal aos salários e à classe assalariada estado-unidense, Obama promete estender e aprofundar as políticas que a maioria dos americanos rejeita e repudia.

Doze razões para rejeitar Obama

1- Obama pública e reiteradamente promete escalar a intervenção militar dos EUA nos Afeganistão, aumentando o número das tropas estado-unidenses, expandindo as suas operações e empenhando-se em sistemáticos ataques trans-fronteiriços. Por outras palavras, Obama é mais fomentador da guerra do que Bush.

2- Obama declarou publicamente que o seu regime estendera a "guerra contra o terrorismo" através sistemáticos ataques em grande escala, por terra e por ar, ao Paquistão, portanto escalando a guerra para incluir aldeias e cidades consideradas simpáticas à resistência afegã.

3- Obama opõe-se à retirada das tropas estado-unidenses no Iraque preferindo a sua redisposição; a relocalização das tropas dos EUA das zonas de combate para posições de treino e logística, condicionada à capacidade militar do exército iraquiano para derrotar a resistência. Obama opõe-se a uma data claramente definida para a retirada das forças estado-unidenses no Iraque porque estas tropas são essenciais para prosseguir suas políticas gerais no Médio Oriente, as quais incluem confrontações militares com o Irão, Síria e Sul do Líbano.

4- Obama declarou seu apoio incondicional à posição do lobby pró Israel e às políticas de expansionismo colonial e belicosas do estado judeu. Ele prometeu apoiar ataques militares israelenses seja qual for o custo para os EUA. O seu abjecto servilismo a Israel foi evidente no seu discurso na conferência anual da AIPAC, em Washington, 2008. Conselheiros principais que têm antigas e notórias ligações aos escalões de topo das fábricas de propaganda sionista e aos presidentes da Leading Jewish American Organizations escreveram o discurso e formularam a sua política para o Médio Oriente.

5- Obama prometeu atacar o Irão se este continuar a processar urânio para os seus programas nucleares. Por duas vezes, poucas semanas antes das eleições, o candidato companheiro de Obama, Joseph Biden, explicou uma série de "pontos de conflito" (incluindo Irão, Afeganistão, Paquistão, Rússia e Coreia do Norte) enfatizando que Obama "responderia vigorosamente". Entre os conselheiros senior de Obama para o Médio Oriente incluem-se sionistas importantes como Dennis Ross, estreitamente ligado ao "Bipartisan Policy Center", o qual publicou um relatório que serve como um plano para a guerra contra o Irão. A oferta de Obama para negociar com o Irão é pouco mais do que um pretexto para a emissão de uma ultimatum ao Irão para abdicar da sua soberania ou enfrentar um assalto militar maciço.

6. Obama apoia incondicionalmente a expulsão de palestinos cometida por Israel e a expansão de colonatos judeus na Cisjordânia, a principal causa da hostilidade, guerra e descrédito da política estado-unidense na Médio Oriente. Com três dúzias de "Israel em primeiro lugar" (Israel-Firsters) entre os principais organizadores da sua campanha, conselheiros políticos de topo, redactores de discursos e entre os prováveis candidatos para posições ministeriais, não há virtualmente nenhuma esperança de "influenciar a partir de dentro" ou de "aplicar pressão popular" para mudar a servil submissão de Obama à Configuração do Poder Sionista. Ao apoiar Obama, os "intelectuais progressistas" são, com efeito, aliados dos seus mentores sionistas.

7- Na frente interna, os conselheiros económicos chave de Obama têm credenciais da Wall Street impecáveis. Ele deu endosso cego e imediato ao salvamento de US$700 mil milhões com dinheiro dos contribuintes, do secretário do Tesouro Paulson, aos mais ricos bancos de investimento dos EUA. Obama sequer desafiou Paulson ou os bancos quanto à utilização dos fundos federais para buyouts e aquisições ao invés de serem usados para empréstimos e créditos a produtores e proprietários de casas. O endosso de Obama ao salvamento de Paulson e da Wall Street é equivalente às suas misérrimas propostas para suspender arrestos por um período de três meses, durante as re-negociações dos pagamentos de juros. Obama propõe aumentar as transferências de fundos do governo para instituições financeiras mal administradas e corporações capitalistas em bancarrota, em esforços para salvar o capitalismo fracassado ao invés de defender quaisquer novos programas de investimento público em grande escala e a longo prazo os quais gerariam empregos bem pagos para os trabalhadores.

8- A equipe económica de Obama declarou abertamente abraçar e praticar a ideologia do "mercado livre" e a sua oposição a qualquer esforço para aplicar injecções de fundos governamentais em grande escala em actividade produtivos do sector público e em serviços sociais diante do fracasso generalizado, a corrupção e o colapso do sector privado.

9- Obama abraça os fracassados planos de saúde do sector privado, dirigidos e controlados por companhias corporativas de seguros, médicos conservadores, associações de hospitais e a grande indústria farmacêutica. Ele rejeita publicamente um programa universal nacional de saúde modelado de acordo o bem sucedido programa Federal Medicare, preferindo os ineficientes planos privados lucrativos subsidiados pelo estado que são custosos e para além dos meios de um terço das famílias dos EUA.

10- Obama é e continua a ser um advogado da Big Agro e do seus altamente subsidiados e lucrativo programa etanol, o qual aumentou os preços dos alimentos para milhões nos EUA e para centenas de milhões no mundo.

11- Obama advoga a continuidade do embargo criminoso contra Cuba, a confrontação hostil contra o populista presidente Chávez da Venezuela e outros reformadores da América Latina e a política dúplice de promover o proteccionismo internamente e o acesso ao livre mercado na América Latina. Seus conselheiros políticos chave sobre a América Latina propõem mudanças cosméticas no estilo e na diplomacia mas um apoio implacável para a reafirmação da hegemonia dos EUA.

12- Obama não propôs, nem tão pouco seus conselheiros de livre mercado e os multimilionários das finanças que o apoiam, qualquer plano abrangente ou estratégia para escaparmos ao aprofundamento da recessão. Ao contrário, o rol de medidas fragmentárias apresentadas por Obama não têm consistência interna. A austeridade fiscal é incompatível com a criação de empregos; o salvamento da Wall Street drena fundos do investimento produtivo; e prosseguir novas guerra mina a recuperação interna.

CONCLUSÃO

Os intelectuais que, em nome do "realismo", apoiam um político que pública e abertamente abraça novas guerras, salvamentos multimilionários e programas de saúde dirigidos pelo sector privado, para o lucro, estão a repudiar as suas próprias afirmações de serem "críticos responsáveis". Eles são o que C. Wright Mills chamava "realistas da corda" ("crackpot realists"), que abdicam da sua responsabilidade como intelectuais críticos. Tendo em vista apoiar o "mal menor" eles estão a promover o "mal maior". A continuação de mais quatro anos de aprofundamento da recessão, de guerras coloniais e de alienação popular. Além disso, eles são aliados dos mass media, grandes partidos e do sistema legal que marginalizou ou excluiu sem rodeios os candidatos alternativos, Ralph Nader e Cynthia McKinney , que falam abertamente em oposição à guerra e aos salvamentos da Wall Street, propondo investimento genuíno em grande escala na economia interna, um programa universal de saúde com pagamento por um único fundo (single payer), políticas sustentáveis e pró ambiente, e políticas em grande escala e a longo prazo de redistribuição do rendimento.

O que é obtuso e inaceitável na argumentação destes intelectuais (uma espinha insignificante no traseiro do burro democrata) é que por um instante acreditam que o seu "apoio crítico" à máquina política de Obama abrirá espaço para ideias radicais. Os sionistas e militaristas civis controlam totalmente a política de guerra de Obama no Médio Oriente: Não haverá espaço para a paz com o Irão, Palestina, Paquistão, Afeganistão ou Iraque. A Wall Street controla a política financeira de Obama: Não haverá espaço para alguns progressistas de Cambridge darem uma esmola para as famílias que estão a perder as suas casas.

Se tesourarias sindicais multimilionárias gastaram uma centena de milhão de dólares em cada campanha presidencial, o que não garantiu uma única peça de legislação progressista em mais de 50 anos, não será ilusório os nossos progressistas "intelectuais públicos" imaginarem, no seu esplêndido isolamento, poderem "pressionar" o presidente Obama a renunciar aos seus conselheiros, apoiantes e à defesa pública da escalada militar a fim de seguirem o caminho da paz com o Irão e promoverem a justiça social para os nossos trabalhadores e desempregados?
30/Outubro/2008

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O mundo é um moinho... 100 anos de Cartola!




"...Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó..."


Ele foi/é uma prova viva que a classe trabalhadora pode superar o embrutecimento, a ignorância, a insensibilidade, a reificação, a alienação que a burguesia tenta nos relegar. Viva os 100 anos de Cartola!



Crônica: Cartola é 100

Ou como o Guima, numa tarde ensolarada carioca, ajudou o amigo paulista a recontar algumas passagens da história de um dos maiores nomes da música brasileira

Aldo Gama,

da Redação do jornal Brasil de Fato


Encontrei com o João Guimarães – o Guima, não o Rosa – em um bar ali nas proximidades dos arcos da Lapa, numa dessas tardes cariocas de calor sufocante. Enquanto disputávamos um lugar no balcão lotado, o Guima desferiu uma gentil cotovelada em minhas costelas:

– Corre que eu achei uma mesa vagando!


E fomos atravessando o salão, entupido de gente, com ele me rebocando pela camisa enquanto entoava o mantra “com licença, perdão, desculpa, ôpa, obrigado, desculpa...” até uma mesinha perto da janela.


Sentados e acomodados, partimos para os comes e bebes. Ele foi de bolinho de bacalhau, eu pedi de carne. Ele riu e eu mudei de idéia.

– Comer carne aqui é de uma valentia...– completou.


O garçom, que acompanhava a conversa sem muito interesse, concordou com a cabeça.

– Mas diga lá, como vão as coisas em São Paulo.

– Muito trabalho...

– O quê? – Interrompeu – Trabalho em São Paulo? Não acredito!

– Esse estereótipo...

– Tá bom, mas diga lá o que te traz ao Rio.

– Preciso escrever sobre o centenário do nascimento do Cartola. Você chegou a conhecê–lo, não?

– Rapaz, não vou dizer que éramos amigos, mas...

– Ai, não começa com cascata que o negócio é serio.

– Tá bom.

– Ele era da Mangueira, não era?

– As pessoas confundem. Principalmente os paulistas, né? – Provocou. – Ele é um dos fundadores da Escola, mas não é de lá. Ele nasceu no Catete, em 1908, depois foi pras Laranjeiras e só foi morar no Morro da Mangueira aos onze anos de idade.

– Agenor de Oliveira, não é ?

– Na verdade Angenor. Erro do cartório que ele só descobriu quando foi casar com a Dona Zica, em 1964.

– E como é que você guarda essas datas, hein?

– Aprendi apontando o jogo do bicho. – respondeu com um sorriso insano. – Ou foi me preparando pro concurso de Miss Niterói. Sabe Deus...

– E por que Cartola?

– Jovem ainda, trabalhando como ajudante de pedreiro, usava um chapéu coco para proteger o cabelo do cimento. Os amigos chamavam aquilo de cartola e o apelido pegou.

– E quando é que ele vai se envolver com a música?

– Ih, desde menino. Aqui no Rio, o samba...

– Pô, será que eu vou ter que lembrar que você é mineiro?

– Mas carioca de adoção! Chefia, mais uma por favor!

– E a música?

– Olha só: ele já era ligado aos ranchos em Laranjeiras. Um deles era o Arrepiados, que ele gostava tanto que levou suas cores, o verde e rosa, pra Mangueira. Mas também tem o verde e grená do fluminense, então... No Morro, ele participou da criação do Bloco dos Arengueiros, em 1925. Esse foi o embrião do Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira.

– Primeira Escola de Samba ou primeira estação da Central do Brasil?

– Aí vai uma imprecisão histórica. Ou justiça poética. Porque a Mangueira não é nenhum nem outro. A primeira escola de samba foi a Deixa Falar, embora a Mangueira tenha sido a primeira a oficializar uma data de fundação, em 28 de abril de 1928. Já quanto à estação de trem, a D. Pedro II é de 1866.

– E o Cartola já era músico profissional nessa época?

– Olha, a carreira dele é, para alguns historiadores, uma metáfora da história do próprio samba, com épocas de sucesso e abandono. Ele teve que parar de estudar cedo. Mal tinha completado o primário quando a mãe morreu e ele teve que trabalhar. Viveu de uma série de biscates, como gráfico, auxiliar de pedreiro... Profissionalização mesmo só pra meados dos anos 60.

– Mas ele já não era famoso antes?

– Ele foi famoso, primeiramente, no Morro, entre os sambistas. Aliás, o primeiro samba-enredo da Mangueira, Chega de demanda, de 1928, é dele. Mas a primeira gravação é de 1929, do Francisco Alves. O Mário Reis passou para ele um samba que tinha comprado do Cartola, Que infeliz sorte, por 300 mil-réis. Aí ele começa a vender outras composições...

– Mas como se sabe que a música era dele?

– Ao contrário de muitos compositores da época, o Cartola vendia os direitos da gravação e não os de autoria. Agora, sucesso mesmo, popular, é em 1933, quando o Francisco Alves lança Divina dama.

– Ele foi contemporâneo de Noel Rosa, não foi?

– Foram amigos, inclusive. Noel passou algum tempo em sua casa e fez a segunda parte do samba Diz qual foi o mal que te fiz, mas não quis assinar, deixando os direitos para o parceiro.

– Mas quando é que ele...

– Ah, você quer saber do nariz?

– Como é que é?

– Nada, nada. Garçom, outra gelada, faz favor!

– Bom mas e o sucesso...

– Ih, mas que mania, rapaz. Vamos com calma. – Disse com a voz já meio amolecida – Não quer saber das mulheres?

– Bom, eu não escrevo para revista de fofoca.

– Ah, paulisssssta! Mas um poeta como esse depende de suas musas, não? Quando a mãe dele morreu, ele tinha uns 15. Abandonou os estudos para trabalhar e começou a conhecer a boemia. Tanto que, lá pelos 17, seu pai o deixa por conta própria. Aí, soltinho, caiu na esbórnia. Bebiba, namoradas... Tanto descuido e acabou doente. A mulher que morava no barraco ao lado do seu acabou por cuidar dele. Deolinda era sete anos mais velha, casada e com uma filha de dois. Mas uma coisa levou à outra e eles acabaram juntos.

– Sem tiro?

– Aparentemente... Ficaram juntos até a morte dela, em 1947. Mas temos que falar dos anos perdidos também..

– Como assim?

– Em 1946, ele teve meningite e sumiu de cena. A Deolinda cuidou dele e morreu no ano seguinte. Ele então se envolveu com uma mulher chamada Donária. E como o Cartola mesmo disse, largou tudo por ela, a Mangueira, a música, e estava morando no Caju. Aí, em 1952, ele e a Dona Zica se reencontraram. Ele estava na pior, bebendo muito, o nariz...

– Que mania com nariz, rapaz!

– Mas nesse caso faz sentido. O nariz dele parecia uma couve flor por causa de uma doença chamada rosácea.

– Nas fotos ele aparece normal, mas com uma mancha escura.

– É que ele ganhou uma cirurgia do Pitanguy ali pelo começo dos anos 60.

– Mas a Zica começou a namorar com ele em 52...

– Prova de que era amor mesmo. Garçom, mais uma aqui!

– E quando terminam esses anos perdidos?

– Não há uma data precisa, mesmo porque quando ele se junta com a Zica começa a se recuperar, bebendo menos... Voltando pra Mangueira, voltando pra música. Aí, em 1956, ele foi reconhecido pelo Sérgio Porto enquanto lava carros. O Sérgio o ajudou a arrumar um emprego e ele foi voltando, aos poucos, a ficar em evidência.

– Esse Sérgio é o Stanislaw Ponte Preta?

– Isso. Mas tinham outros que não deixavam seu nome ficar esquecido, como o historiador Lúcio Rangel, que o chamava de Divino...

– Como o Ademir da Guia? – Interrompi.

– ...E muitos outros. – Ignorou – Aí, em 1963, ele inaugura o Zicartola, que para muitos é um marco na história do samba, porque contava com apresentações dos melhores sambistas do morro que eram assistidos por uma nova geração. Aliás, Cartola dizia que tinha pago o primeiro cachê do Paulinho da Viola...

– Foi o auge?

– Só o começo. A coisa esquenta mesmo nos anos 70. Muito tardiamente, em 1974, ele lança um disco individual, com uma série de clássicos. O trabalho recebeu prêmios, rendeu vários shows e ele conheceu uma popularidade inédita na carreira. Gravou ainda outros três discos em estúdio.

– Tem aquelas bem manjadas, como a do moinho.

– Rapaz, outro dia eu ouvi na internet, na página da Beth Carvalho, uma gravação do Cartola mostrando As rosas não falam pra ela. Depois ele toca O mundo é um moinho, mas diz que não é pra ela, que ela ia “queimar a música” e tal. Mas ela gravou a primeira em 1976 e foi um super sucesso. Aí a outra ela gravou no ano seguinte e, me parece, funcionou muito bem. Aliás, garçom, mais uma faz favor. E traz um conhaque também.

– Você não tem que voltar pro trabalho?

– O Cartola gostava de beber cerveja com conhaque. Eu acho uma boa escolha. E olha só: ele nasceu no dia que morreu o Machado de Assis... Os dois mulatos, imortais... Mas falando nisso, tem o Sargentelli e as mulatas... É isso, vamos ver as mulatas do Sargentelli!

– Acho melhor irmos...

– Quando o primeiro disco saiu, ele já tinha 66 anos. Morreu em 1980, de câncer. O primeiro disco do Balão Mágico é de 1982...

– Tá ficando tarde. Vamos indo. Garçom?

– Mais uma!

– A conta!

O Guima me olhou contrariado, meio com raiva, meio com sono. E logo já não lembrava de nada. Pagamos a conta e foi minha vez de rebocá-lo até o ponto de ônibus que, por sorte, passou logo.

– O Nélson Sargento disse que o Cartola não existiu, que foi um sonho que tivemos. – Disse quando finalmente sentamos e começamos a chacoalhar rumo a Vista Alegre.

– Você não comeu o bolinho de carne, não é?

– Não. – Respondi.

– Sorte... – Emendou fechando os olhos.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Cultura revolucionária


Perguntas de um trabalhador que lê

Bertold Brecht

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros estão nomes dos reis.
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilônia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos do triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Índias.
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe da Espanha
Chorou.E ninguém mais?
Frederico II ganhou a Guerra dos Sete Anos.
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?

Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias.
Quantas perguntas.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Lições do colapso da Wall Street (por James Petras)




O colapso em curso do mercado de acções e a perda de centenas de milhares de milhões de dólares administrados pelos bancos de investimento da Wall Street ilustra as armadilhas e ciladas do capitalismo de livre mercado que confronta toda a população trabalhadora dos Estados Unidos.

1. A quase bancarrota da Segurança Social. A tentativa da Casa Branca e dos principais congressistas republicanos e democratas, há apenas três anos atrás, de "privatizar" a Segurança Social – essencialmente entregando a administração e fundos de investimento de milhões de milhões (trillions) da Segurança Social à Wall Street – com o argumento de que investidores privados acumulariam mais, teria levado à bancarrota de todo o fundo da Segurança Social. A privatização teria permitido aos principais bancos de investimento especularem e alavancarem instrumentos financeiros ainda mais arriscados com os resultados desastrosos que estamos hoje a testemunhar. Enquanto fundos privados de pensão vão à falência – a Segurança Social continua. Foram as pensões privadas que foram à bancarrota – não o fundo da Segurança Social administrado publicamente, ao contrário do que diziam peritos e críticos da Segurança Social. Evidentemente a actual derrocada privada argumenta em favor do controle público e da sua administração de programas de pensão.

2. Todos os principais fundos de pensão privados para empregados públicos e privados , incluindo TIAA CREF, CALPERS e pensões de sindicatos de trabalhadores perderam algo entre 23% e 30% desde Janeiro e mostram crescimento negativo ao longo dos últimos cinco anos. Evidentemente, a ligação de fundos de pensão ao mercado de acções reduziu severamente os padrões de vida dos aposentados, forçando muitos a permanecerem na força de trabalho com mais de 70 anos e para além disso ou a afundarem na pobreza. Pensões ligadas a actividade produtiva financiada publicamente evitariam as perdas e riscos implícitos em investir no mercado de acções.

3. As decisões estratégicas bipartidárias de converter os EUA numa economia de "serviços", em oposição a uma economia manufactureira avançada e diversificada, é a causa raiz do colapso do sistema financeira dos EUA e da emergente recessão a longo prazo. A partir da década de 1960, a elite política adoptou diretrizes que promovem as finanças, o imobiliário e os seguros, os chamados sectores FIRE que aumentaram rendas, redirigiram subsídios, proporcionaram concessões e subsídios fiscais e destruíram ou deslocaram a indústria. A reconversão da economia FIRE outra vez a uma economia manufactureira equilibrada e ao estado previdência, essencial para reverter o colapso da economia dos EUA, exigirá uma grande reviravolta política.

4. A fuga maciça do capital de sectores produtivos para o FIRE foi acompanhada pelo enorme incremento do capital para o exterior, tornando a economia interna super dependente dos "serviços", particularmente volátil e de arriscados "serviços financeiros" e também com consumidores altamente endividados.

A conversão dos EUA de uma economia diversificada para uma monocultura "FIRE" aumentou a probabilidade de um colapso geral se e quando o mercado financeiro/imobiliário vier abaixo. A recuperação e o crescimento sustentado só pode ocorrer com o retorno de uma economia diversificada, a retenção do capital que foge para o estrangeiro em grande escala, o investimento público a longo prazo e incentivos para os sectores produtivos e de serviço social.

5. A busca da edificação do império baseado no poder militar , a expensas de joint ventures e acordos comerciais recíprocos com países com mercados em expansão, recursos estratégicos e grandes populações, criou enormes défices orçamentais e comerciais e alienou fontes potenciais de mercados e mercadorias estratégicas.

Milhões de milhões de dólares de gastos militares em guerras coloniais prolongadas, custosas e infindáveis divergiram fundos da aplicação em avanços tecnológicos e manufacturação de alta tecnologia, a qual teria reduzido custos e melhorado a competitividade nos mercados. Igualmente importante, ao comutar a expansão do mercado interno orientado pelo mercado para conquista além mar orientada pela lógica militar, todo o eixo do poder económico foi comutado do capital industrial para o financeiro. O capital financeiro, essencial ao financiamento dos défices orçamentais do governo, incidiu preferencialmente nas despesas militares, cresceu de influência – a Wall Street a cintura do aço como eixo do poder em Washington.

6. A ascendência do militarismo e do capital financeiro facilitou o aumento da influência de uma virulenta configuração de poder que promove os interesses de hegemonia regional especificamente de um estado colonialista-militarista, um lobby político anteriormente marginal – a configuração de poder Israel-sionista (Zionist power configuration, ZPC).

Os construtores do império orientado pela lógica militar viram na ZPC um aliado estratégico na busca das suas conquistas globais; a ZPC viu uma porta aberta para altos poderes e múltiplas oportunidades para promover a agenda expansionista de Israel através da sua influência em Comités do Congresso, campanhas eleitorais e nomeações directas da Casa Branca. A ascensão da ZPC ao escalão de topo do poder foi ajudada e encorajada pelo aumento do apoio financeiro que eles recebiam de membros em posições estratégicas na maior parte das instituições financeiras lucrativas. A ZPC foi beneficiária económica da bolha especulativa: foi a maciça infusão de contribuições financeiras que permitiu à ZPC expandir amplamente o número de funcionários a tempo inteiro – especialmente na promoção de guerra americanas no Médio Oriente, acordo desequilibrados de livre comércio (em favor de Israel) e apoio inquestionado à agressão israelense contra o Líbano, a Síria e a Palestina. A recuperação económica está dependente do fim da ruína orçamental do imperialismo militar. Isso não acontecerá a menos que haja uma substituição geral da elite alimentada com a metafísica do pode global baseado no militarismo.

Nenhuma recuperação económica é possível agora ou no futuro previsível enquanto o Congresso e o executivo dos EUA proporcionar salvamentos de milhão de milhões de dólares a especuladores insolventes da Wall Street, financiar orçamentos de 700 mil milhões de dólares de gastos de guerra sempre em expansão e enquanto intermediários do poder sionista ditarem as políticas no Médio Oriente.

As lições do passado contam-no muito acerca dos caminhos que deveríamos e não deveríamos tomar.

A Segurança Social ainda existe precisamente porque o público dos EUA rebelou-se e derrotou a sua tomada pela Wall Street e ele continuou a ser um programa administrado publicamente. O sistema financeiro entrou em colapso porque a economia dos EUA "especializou-se" numa única cultura – as finanças – a expensas de uma economia produtiva diversificada. O sistema político está totalmente desacreditado porque é dirigido por uma elite política fracassada a qual descaradamente representa e actua no interesse de uns poucos milhares de oligarcas financeiros; um par de centenas de oligarcas militaristas e umas poucas dúzias de apaixonadas organizações sionistas.

A "elite do poder" só é poderosa enquanto for capaz de manipular, intimidar e seduzir mais de três centenas de milhões de cidadãos levando-os a pensar que eles são indispensáveis para as suas vidas. A esmagadora rejeição popular da privatização da Segurança Social e do salvamento da Wall Street sugere que a oligarquia dominante não é invencível.

Movimentos sociais exigem petróleo sob controle dos brasileiros

Na vigília contra os leilões do petróleo e gás brasileiros, balões imensos e faixas explicavam o motivo da manifestação com a frase "O petróleo tem que ser nosso".

A chuva e o frio sobre o Rio de Janeiro não impediram que o Sindipetro-RJ e outras entidades representativas dos movimentos sociais, entre as quais o MST, realizassem, de 16 a 19 de setembro, abrigadas numa lona de circo, em frente à sede da Petrobrás, a vigília em defesa do pré-sal nas mãos do povo brasileiro, sob o lema "O petróleo tem que ser nosso". Intelectuais e lideranças políticas também participaram das atividades.

Além do abraço à Petrobrás na abertura da manifestação, na vigília contra os leilões do petróleo e gás brasileiros, realizados pelo governo federal, balões imensos e faixas explicavam o motivo da manifestação com a frase "O petróleo tem que ser nosso".

Da programação, constaram atividades culturais e debates, ocasião em que o cacique Xohã fez uma oficina de pintura corporal e artesanato indígena. Não faltaram os contadores de história, sessões de cinema com debates, bem como debates sobre conjuntura nacional e a questão do petróleo com a participação, entre outros, do engenheiro Paulo Metri, de Francisco Soriano, diretor do Sindipetro-RJ, do advogado Modesto da Silveira.

O economista Carlos Lessa e o engenheiro Fernando Siqueira participam de outro debate sobre "A questão do petróleo, um projeto para o Brasil". A crise na Bolívia também esteve na pauta das discussões com as participações do vice-presidente da Casa da América Latina, Ivan Pinheiro e o professor boliviano, radicado no Brasil, Carlos Romero.

No último dia da vigília, os manifestantes entregaram cartas aos presidentes da Petrobrás, José Sergio Gabrielli, Luciano Coutinho, do BNDES e à direção da Agência Nacional do Petróleo (ANP), com as reivindicações dos trabalhadores reunidos em torno do Fórum Nacional contra a Privatização do Petróleo e Gás, segundo informou a Agencia Petroleira de Notícias. Uma roda de samba encerrou a vigília. Desde a sexta-feira, 12 de setembro, out-doors da campanha O Petróleo Tem que Ser Nosso foram afixados, em Brasília, em pontos estratégicos do Rio de Janeiro, na Avenida Brasil e na Rodovia Washington Luiz. A mesma mensagem foi espalhada em várias linhas de ônibus (bus-doors), no Rio, Niterói e Baixada Fluminense. A campanha também veiculou publicidade em rádios e em avião (faixa circulando na orla, no final de semana).
Para os organizadores das manifestações, a campanha está sendo coroada de êxito e continuará pressionando o governo federal para que desista de uma vez por todas em prosseguir os leilões do petróleo e gás e que finalmente essas riquezas estejam sob controle do povo brasileiro.

por Mário Augusto Jakobskind, com a colaboração da Agência Petroleira de Notícias (APN)

sábado, 13 de setembro de 2008

A UJC apóia a candidatura de Leonardo Rocha para vereador


A seguir, o candidato Leonardo Rocha explica o papel da UJC nas eleições:

Curitiba foi a única das capitais brasileiras que consolidou a frente de esquerda de maneira completa nestas eleições, ou seja, através da aliança entre PCB, PSOL e PSTU. Mesmo com todas as divergências de cunho teórico e político existentes entre tais partidos, acreditamos que esta aliança foi de extrema importância para o desenvolvimento de um programa que apresenta uma proposta socialista para a cidade.

A capital do Paraná, através da elite local, tenta vender aos curitibanos e aos demais brasileiros, o mito de ser uma cidade modelo, uma cidade na qual “as coisas deram certo”, intitulando-se “capital ecológica” e até mesmo “capital social”. No entanto, a burguesia curitibana, principalmente através da figura de Jaime Lerner, vem implantando desde a ditadura militar um plano de desenvolvimento que visa criar uma cidade modelo dentro de um espaço delimitado na região central, ligando através de eixos esta região a um espaço destinado a instalação de fábricas, a fatídica Cidade Industrial, excluindo as regiões periféricas da cidade, em especial a região Sul. Assim, de um lado temos uma região central bem estruturada, onde boa parte das coisas funcionam, e do outro lado demais regiões, onde a grande maioria da população se encontra excluída, sofrendo com a falta de serviços públicos básicos, como saúde e educação.

Nós, da União da Juventude Comunista, procuramos explicitar aos trabalhadores da nossa cidade estas contradições que são tão evidentes, mas ao mesmo tempo são encobertas pela ação massiva da elite local, a qual controla os meios de comunicação do nosso estado. Ao mesmo tempo buscamos mostrar a estes trabalhadores que existe uma alternativa, que existe uma maneira de diferente de pensar a cidade, no sentido da formação de um governo que venha de fato a governar por eles, e que isso só será possível através de uma perspectiva socialista.

Dessa forma, enquanto jovens não podemos deixar de centrar nossos pensamentos nesta faixa da população, e, se nos preocupamos com o jovem, conseqüentemente nos preocupamos com a questão da educação. Para tanto, trazemos propostas objetivas, como a garantia do passe livre aos estudantes, haja vista ser uma medida de grande importância para a permanência destes nas escolas, aproveitando o contexto para discutir a desmercantilização do transporte coletivo, caminhando para uma tarifa zero à todos os setores da população. Com relação a educação fundamental possuímos o Projeto Interação Universidade – Escola, no qual defendemos a implantação imediata do contra-turno escolar nas escolas municipais, através de uma parceria com as universidades com sede em Curitiba, no sentido da utilização de acadêmicos para o desenvolvimento de atividades concernentes aos diversos campos do pensamento humano, no período em que normalmente estariam ociosos. Outra medida que propomos, é o aumento expressivo do número de creches noturnas, haja vista existir um grande número de trabalhadores que exercem suas atividades neste período, e necessitam de um espaço para deixar os seus filhos.

Por fim, não posso deixar de ressaltar o quanto aproveitamos o período das eleições para divulgarmos o PCB e a UJC, não apenas através dos espaços na mídia, os quais só possuímos neste período, mas principalmente dentro das escolas e universidades, buscando ressaltar que nosso principal objetivo é trazer a discussão do socialismo nestas instituições, e não apenas a eleição de representantes nas esferas de poder, através de processos eleitorais.

Um grande abraço camaradas,

Leonardo Rocha.


Leonardo Rocha é acadêmico do curso de Ciências Sociais na Universidade Federal do Paraná. Nessa instituição, foi membro do Centro Acadêmico de Ciências Sociais (CACS), e do Diretório Central dos Estudantes (DCE) atuando como representante discente no Conselho de Planejamento e Administração (COPLAD) e no Conselho Universitário (COUN). Nestes espaços, mostrou-se defensor da universidade pública, lutando contra as políticas que visam entregar progressivamente tais instituições nas mãos da iniciativa privada.

Na UTFPR, onde cursou o Ensino Médio, esteve presente no processo de transformação do Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná (CEFET-PR) em Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), enquanto estagiário da reitoria, função que voltou a exercer no ano passado.

Filiou-se ao PCB em 2005 não apenas por herança familiar, mas por reconhecer a enorme importância do partido na história do país, e por acreditar que o mesmo possui a perspectiva necessária para a construção do socialismo em nossa nação.

Neste ano, foi lançado como candidato a vereador pelo Partidão, com o intuito de discutir o socialismo na cidade de Curitiba com atenção especial ao jovem e conseqüentemente a educação, mostrando que o partido ainda é forte e se constitui como legítimo representante da classe trabalhadora, após os seus 86 anos de história.








quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Impedir a guerra imperialista na América Latina e fortalecer a luta da juventude no Brasil

Reunida nos dias 18 e 19 de julho na cidade de Florianópolis (SC), a Comissão Política Nacional da UJC debateu as principais questões da conjuntura e aprovou algumas tarefas para os jovens comunistas e a juventude brasileira.


Para a UJC, o capitalismo vive uma nova crise, iniciada com a queda da economia norte-americana e a alta dos preços dos alimentos e da energia. As respostas do capital à crise são conhecidas: mais guerra, mais exploração dos trabalhadores e da juventude, mais desemprego e mais destruição do meio ambiente.

Para os E.U.A. e seus aliados, a guerra e as agressões armadas a países soberanos são também uma solução para estas crises. Com a guerra, estes países podem vender armas e saquear as riquezas naturais dos povos. E essa política genocida e golpista é usada particularmente na América Latina.

Na Bolívia, o imperialismo norte-americano busca implantar uma guerra civil. A oligarquia local, em conjunto com a embaixada dos E.U.A., adotam a tática separatista e organizam milícias paramilitares denominadas de “comitês cívicos” e “uniões juvenis” para criar instabilidade no país as vésperas do referendo revogatório.

O imperialismo norte-americano possui um importante aliado em nosso continente: o governo fascista de Uribe na Colômbia. A Colômbia, depois de Israel, é o principal país receptor de ajuda militar norte-americana. Suas Forças Armadas têm 380 mil efetivos, muito bem treinados, ao passo que a Venezuela tem 70 mil e o Equador 50 mil, sem experiência.

E seguindo a cartilha de Bush, Uribe ataca trabalhadores do campo e da cidade e também a juventude do país. Desde 2002 já foram assassinatos 15 mil militantes políticos e sociais. E nos últimos meses, Uribe tem sofrido um inferno astral com o envolvimento de 1/3 de seus parlamentares envolvidos em corrupção e ligações com o narcotráfico.

Para a UJC, não há solução política na Colômbia sem o protagonismo das FARC, que está enraizada entre os trabalhadores, sobretudo o campesinato. Entendemos que existem condições mínimas para a solução no país com o reconhecimento das FARC como força política beligerante, a retomada do processo de troca humanitária e a libertação de todos os presos políticos.

É fundamental, também, que todos os setores progressistas e de esquerda na América Latina criem um amplo movimento de solidariedade à luta do povo colombiano para derrotar o governo fascista de Uribe.

A UJC rechaça e repudia a nomeação de José Antônio Moreno Ruffineli como reitor da Universidade Católica Nossa Senhora de Assunção, no Paraguai. Entendemos que Ruffineli foi um dos artífices da sangrenta lei 209, denominada “Da defesa da paz pública e liberdade das pessoas” promulgada em 18 de setembro de 1970, a qual outorgava o marco legal a ditadura de Alfredo Stroessner para reprimir, seqüestrar, desaparecer e assassinar a centenas de paraguaios e paraguaias que se opuseram ao regime.

E dentro desse quadro de tentativa de guerra em nosso continente, a UJC se posiciona vigorosamente contra a reativação da IV Frota norte-americana. A sua presença em nossos mares é uma provocação aos movimentos sociais e governos de esquerda na América Latina.

Assim, é central para os jovens comunistas a articulação de todas as organizações e forças políticas anti-imperialistas latino-americanas na formação de um forte e unitário movimento de expulsão da IV Frota imperialista.

Mais uma vez, a UJC exige a libertação imediata dos 5 heróis cubanos que estão presos nos E.U.A desde setembro de 1998. Recentemente, o Tribunal de Atlanta rejeitou a apelação da defesa e confirmou a condenação injusta dos 5 por conspiração e espionagem.

Para nós, a prisão dos 5, assim como o bloqueio imposto a Cuba, é mais uma ação imperialista norte-americana que deve ser combatida mundialmente por todas as forças progressistas e de esquerda.

Reafirmamos
o nosso apoio ao governo de Hugo Chávez na Venezuela. O processo no país inspira outros na América Latina, presta efetiva solidariedade aos povos e constrói uma alternativa a política imperialista norte-americana com a implantação da ALBA.

O governo Chávez tem avançado bastante em mudanças institucionais e estruturais na Venezuela. Um exemplo dessa política são as nacionalizações e estatizações de empresas estratégicas de energia elétrica, comunicações, alimentos, petroleiras e siderúrgicas (recentemente houve a reestatização da SIDOR). Nos últimos dias, o governo bolivariano debate a nacionalização do sistema financeiro, com a transferência da propriedade do banco Santander para o Estado.

No velho continente, nós reafirmamos a nossa total solidariedade à Juventude Comunista Tcheca (KSM, na sigla em tcheco). Desde 2005, a KSM sofre com a ofensiva da direita de seu país e há dois anos foi colocada na ilegalidade. O governo Tcheco alegou que a KSM faz apologia ao comunismo e defende o fim da propriedade privada! Nada mais reacionário! Vale lembrar que essa ação do governo tcheco contou com a conivência da União Européia (U.E.).

A União da Juventude Comunista comemora a vitória do “Não!” no referendo sobre o Tratado de Lisboa da U.E. na Irlanda. O Tratado era uma nova versão da Constituição Européia que foi rejeitado pelos povos do continente em 2004. Felicitamos, também, o protagonismo do Movimento de Juventude Connolly da Irlanda, organização filiada a FMJD, que denunciou e combateu no seu país o caráter reacionário e imperialista do Tratado.

No Brasil, a UJC reafirma a sua política de oposição independente e de esquerda em relação ao governo Lula. E mantém a proposta de construção de uma frente formada por entidades de massa e organizações políticas que seja uma alternativa de esquerda ao governo e ao capital.

2008 é ano de eleições municipais no país. Para nós, esse período é importante para a divulgação das propostas comunistas e para o confronto de idéias sobre a política, no caso desse ano, municipal. Assim, a UJC dará apoio militante a todas as candidaturas do PCB nestas eleições.


No dia 12 de junho, centenas de pessoas protestaram no Rio de Janeiro contra a privatização do petróleo e gás. É preciso lembrar que hoje a Petrobrás possui apenas 40% de participação nacional em suas ações. O restante é capital estrangeiro. Assim, a UJC, que construiu o ato no Rio, reforça a bandeira de luta e propõe a criação de um amplo e forte movimento por uma nova Lei do Petróleo que acabe com a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis), dê fim aos leiloes das bacias petrolíferas e que retome o monopólio estatal do petróleo.

Nas últimas semanas, o MST sofre uma verdadeira ofensiva das forças conservadoras do estado do Rio Grande do Sul. O Ministério Público deste estado pretende criminalizar o movimento, colocando-o na ilegalidade. A UJC repudia a ação do MP e dá apoio militante ao MST e todos os movimento sociais criminalizados pela justiça burguesa. Entendemos que os movimentos sociais não podem ser tratados como caso de polícia, sob pena de retrocedermos às páginas obscuras da Ditadura Militar, que envergonham a nossa história.

Nessa conjuntura, a juventude trabalhadora resiste e barra tentativas do governo de retirar os seus direitos. Para fortalecer a resistência, a UJC constrói e organiza a INTERSINDICAL, como um instrumento de intervenção dos trabalhadores contra os desmandos do capital. Esta organização sindical faz uma campanha permanente por Nenhum direito a menos e para avançar em novas conquistas.

E nesse debate de organização dos trabalhadores, a UJC propõe a realização de um Encontro Nacional da Classe Trabalhadora (ENCLAT). Entendemos que a formação imediata
de uma central sindical é um erro no atual momento, pois não atende a pressupostos básicos, como por exemplo, a unidade de ação calcada em uma plataforma comum de lutas com todos os setores em oposição ao capital e ao governo. Sem isso, a central irá repetir a prática burocrática que marca o movimento nos últimos anos.

No movimento estudantil, a UJC propõe a bandeira da Universidade Popular. No nosso último Encontro Estudantil, o debate sobre o tema avançou e entendemos que essa é a principal bandeira do movimento.

Por isso, no XII CONEB da UNE (Conselho Nacional de Entidades de Base), que será realizado em janeiro de 2009, a UJC irá pautar a luta por uma reforma no ensino superior brasileiro. Uma reforma que tenha como eixo central a construção da Universidade Popular, que vá de encontro ao atual processo de privatização do ensino público e avance para um modelo popular.

Viva os 81 anos da UJC!

Viva o Comunismo!


Florianópolis, 19 de Julho de 2008.

Coordenação Nacional da UJC

terça-feira, 12 de agosto de 2008

A PETROBRÁS E AS DIFERENÇAS ENTRE PCB E PCdoB

Muita gente faz confusão entre PCB e PCdoB, pois as siglas são parecidas e ambos têm a palavra comunista no nome. Uns pensam que é um só partido; outros trocam os nomes, quando a algum deles se referem. Além do mais, apesar de ter sido criado em 1962, o PCdoB insiste em comemorar a fundação do PCB, que se deu em 1922.

Temos sido bastante discretos no trato de nossas divergências, sobre o capitalismo brasileiro, a política de alianças, a prioridade de formas de luta, o tipo de partido. Nós os consideramos reformistas; mas não dizemos isso para ofender. É uma crítica. O PCB também já foi reformista, principalmente nos anos 80.

Nossas divergências foram se aprofundando, sobretudo a partir do início deste século. A rigor, nós é que mudamos. O PCB hoje não vê possibilidade de aliança com a chamada burguesia nacional, nem de humanizar o capitalismo, nem de transitar para o socialismo apenas pela via eleitoral.

Mas com o surgimento de grave denúncia sobre a ANP (Agência Nacional de Petróleo), cujo Diretor-Geral, Haroldo Lima, é Vice-Presidente nacional do PCdoB, não podemos nos furtar a esclarecer algumas diferenças. Até para não banalizar a palavra comunista e não macular a história do PCB.

A AEPET (Associação dos Engenheiros da Petrobrás) acaba de denunciar que a multinacional norte-americana Halliburton administra o Banco de Dados de Exploração e Produção da ANP, sem ter passado por processo licitatório, como determina a lei. A Halliburton é uma empresa ligada a Dick Cheney, Vice-Presidente dos EUA, financiadora da campanha de Bush. É a empresa mais identificada em todo o mundo com o complexo industrial-militar norte-americano, com a CIA e com a agressão militar ao Iraque.

O incrível é que a multinacional tem acesso a todos os dados estratégicos de exploração e produção do nosso petróleo, resultado de décadas de pesquisas realizadas pela Petrobrás. O inimaginável é que a ANP ainda paga à multinacional R$600 mil por mês, a título de "prestação de serviços"!

A ANP é a agência que administra a privatização do nosso petróleo, através de leilões abertos a multinacionais. Um dos subordinados de Haroldo Lima na diretoria é Nelson Narciso – ex-gerente da subsidiária da Halliburton em Angola - que gerencia o Banco de Dados da agência, na Superintendência de Definição de Blocos que vão a leilão. Ou seja, a Halliburton é quem manda na ANP. Como diz a AEPET, é "a raposa ditando as regras do galinheiro".

O PCB (Partido Comunista Brasileiro) divulgou recentemente uma nota (em anexo), em que propõe uma intensa mobilização nacional pelo fim da ANP e dos leilões, pela volta do monopólio estatal do petróleo e pela REESTATIZAÇÃO DA PETROBRÁS.

Com a divulgação deste escandaloso crime de lesa-pátria, assume urgência a luta PELO FIM DA ANP, como parte do FIM DOS LEILÕES DO NOSSO PETRÓLEO.

COMITÊ CENTRAL DO PCB

agosto de 2008