sábado, 6 de fevereiro de 2010

MÉDICOS DE CUBA NO HAITI: A SOLIDARIEDADE SILENCIADA

Cuba possui um exército preparado, qualificado, treinado, e o que mais se queira dizer, para intervir em qualquer local do planeta. Estas tropas são compostas de médicos, e não de soldados.

A IV Frota em ação: um porta-aviões chamado Haiti - por Raul Zibechi [*]





A reação dos Estados Unidos de militarizar a parte haitiana da ilha logo após o devastador terremoto de 12 de janeiro deve ser considerada dentro do contexto gerado a partir da crise financeira e da chegada de Barack Obama à presidência. As tendências de fundo já estavam presentes, mas a crise acelerou-as de um modo que lhes deu maior visibilidade. Trata-se da primeira intervenção de envergadura da IV Frota, restabelecida há pouco tempo.

Com a crise haitiana, a militarização das relações entre os EUA e a América Latina avança mais um passo, como parte da militarização de toda política externa de Washington. Deste modo, a superpotência em declínio tenta retardar o processo que a converterá em uma de outras seis ou sete potências no mundo. A intervenção é tão escancarada que o jornal oficial chinês Diário do Povo (de 21 de janeiro) pergunta se os EUA pretendem incorporar o Haiti como um Estado mais da União.

O jornal chinês cita uma análise da revista Time, onde se assegura que "o Haiti se converteu no 51° estado dos EUA ou, pelo menos, seu quintal". Com efeito, em apenas uma semana o Pentágono mobilizou para a ilha um porta-aviões, 33 aviões de socorro e numerosos navios de guerra, além de 11 mil soldados. A Minustah, missão da ONU para a estabilização do Haiti, tem apenas 7 mil soldados. Segundo a Folha de São Paulo (20 de janeiro), os EUA substituíram o Brasil de seu lugar de direção da intervenção militar na ilha, já que, em poucas semanas, terá "doze vezes mais militares que o Brasil no Haiti", chegando a 16 mil homens.

O mesmo Diário do Povo, em um artigo sobre o "efeito estadunidense" no Caribe, assegura que a intervenção militar deste país no Haiti terá influência em sua estratégia no Caribe e na América Latina, onde mantém uma importante confrontação com Cuba e Venezuela. Essa região é, para o jornal chinês, "a porta de entrada de seu quintal", que os EUA buscam "controlar muito de perto" para "continuar ampliando seu raio de influência sobre o sul".

Tudo isso não é muito novo. O importante é que se inscreve em uma escalada que iniciou com o golpe militar em Honduras e com os acordos com a Colômbia para a utilização de sete bases neste país. Se, a isso, somamos o uso das quatro bases que o presidente do Panamá, Ricardo Martinelli, cedeu a Washington em outubro, e as já existentes em Aruba e Curaçao (ilhas próximas a Venezuela pertencentes a Holanda), temos um total de 13 bases rodeando o processo bolivariano. Agora, além disso, consegue posicionar um enorme porta-aviões no meio do Caribe.

Segundo Ignácio Ramonet, no Le Monde Diplomatique de janeiro, "tudo anuncia uma agressão iminente". Esse não parece ser o cenário mais provável, ainda que se possa concluir duas coisas: os EUA optaram pelo militarismo para mitigar seu declínio e necessitam do petróleo da Colômbia, Equador e, sobretudo, da Venezuela para afiançar sua situação hegemônica ou, pelo menos, diminuir a velocidade deste declínio. No entanto, as coisas não são tão simples.

Para o jornal francês, "a chave está em Caracas". Sim e não. Sim porque, com efeito, 15% das importações de petróleo dos EUA provém da Colômbia, Venezuela e Equador, mesmo índice da quantidade importada do Oriente Médio. Além disso, a Venezuela caminha para converter-se na maior reserva de petróleo do planeta, assim que se confirmarem as reservas do Orinoco descobertas recentemente. Segundo o Serviço Geológico dos EUA, seriam o dobro das da Arábia Saudita. Tudo isso seria suficiente para que Washington desejasse, como deseja, tirar Hugo Chávez do poder.

Ao meu modo de ver, o problema central para a hegemonia estadunidense no seu "quintal" é o Brasil. O petróleo é uma riqueza importante. Mas é preciso extraí-lo e transportá-lo, o que demanda investimentos, ou seja, estabilidade política. O Brasil já é uma potência global, é o segundo dos países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), ficando atrás em importância apenas da China. Dos dez maiores bancos do mundo, três são brasileiros (e cinco chineses). Nenhum destes dez bancos é dos EUA ou da Inglaterra. O Brasil tem a sexta reserva de urânio do mundo (com apenas 25% de seu território investigado) e estará entre as cinco maiores reservas de petróleo quando for concluída a prospecção da bacia de Santos. As multinacionais brasileiras figuram entre as maiores do mundo. A Vale do Rio Doce é a segunda mineradora e a primeira em mineração de ferro; a Petrobras é a quarta empresa petrolífera do mundo e a quinta empresa global por seu valor de mercado; a Embraer é a terceira empresa aeronáutica, atrás apenas da Boeing e da Airbus; o JBS Friboi é o primeiro frigorífico de carne de gado bovino do mundo; a Braskem é a oitava petroquímica do planeta. E poderíamos seguir com a lista.

Ao contrário da China, o Brasil é autosuficiente em matéria de energia e será um grande exportador. Sua maior vulnerabilidade, a militar, está em vias de ser superada graças à associação estratégica com a França. Na década que se inicia, o Brasil fabricará aviões caça de última geração, helicópteros de combate e submarinos graças à transferência de tecnologia pela França. Até 2020, se não antes, será a quinta economia do planeta. E tudo isso ocorre debaixo do nariz dos EUA.

O Brasil já controla boa parte do Produto Interno Bruto da Bolívia, Paraguai e Uruguai, tem uma presença muito firme na Argentina, da qual é um sócio estratégico, assim como no Equador e no Peru, que facilitam a saída para o Pacífico. Aí está o osso mais duro para a IV Frota. O Pentágono desenhou para o Brasil a mesma estratégia que aplica a China: gerar conflitos em suas fronteiras para impedir a expansão de sua influência: Coréia do Norte, Afeganistão, Paquistão, além da desestabilização da província de Xinjiang, de maioria muçulmana.

Na América do Sul, um rosário de instalações militares do Comando Sul rodeia o Brasil pela região andina e o sul. A pinça se fecha com o conflito Colômbia-Venezuela e Colômbia-Equador. Agora contará com o porta-aviões haitiano, deslocando desta ilha a importante presença brasileira à frente da Minustah. É uma estratégia de ferro, friamente calculada e rapidamente executada.

O problema que as nações e os povos da região enfrentam é que as catástrofes naturais serão uma moeda de troca corrente nas próximas décadas. Isso é apenas o começo. A IV Frota será o braço militar mais experimentado e melhor preparado para intervenções "humanitárias" em situações de emergência. O Haiti não será a exceção, mas sim o primeiro capítulo de uma nova série pautada pelo posicionamento militar dos EUA em toda a região. Dito de outro modo: nós, latino-americanos, corremos sério perigo e já é hora de nos darmos conta disso. [*] Jornalista, uruguaio.

A versão em português encontra-se em http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16380&boletim_id=642&componente_id=10722 . Tradução de Katarina Peixoto


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .


RECONSTRUIR PARA AVANÇAR NA LUTA DOCENTE






(Nota Política do PCB ao Congresso do ANDES-SN)


O Andes-SN exerceu e ainda exerce uma importância fundamental na construção do sindicalismo combativo de nosso país. Desde o enfrentamento contra a ditadura militar que culmina nas primeiras greves de 1980 e 1981, bem como na incansável luta pela construção da universidade pública, gratuita, democrática, laica e socialmente referenciada, como foi formulado no Caderno 2 do Andes-SN, a entidade tem se caracterizado como vanguarda na luta pelas liberdades democráticas e pela construção de uma universidade de cunho popular.


Nos embates mais recentes, o Andes-SN tem tido posturas, de maneira geral, corretas quanto ao enfrentamento a ações do governo Lula, como o Reuni que amplia o acesso à universidade sem, no entanto, garantir as condições para sua manutenção; o Prouni que transfere recursos públicos para as universidades privadas ao invés de assegurar recursos para as universidades públicas; denúncias contra as ditas "fundações de apoio", verdadeiras caixas secretas dentro das universidades públicas e que recentemente foram desnudadas com acusações de enriquecimento ilícito envolvendo entes privados e dirigentes de universidades que se nutriam de recursos públicos.


No entanto, entendemos que alguns aspectos devem ser problematizados nesta trajetória, que inclusive culmina com a crise que o Andes-SN está vivendo atualmente. Desde o seu nascimento as direções que se sucedem, sob a justificativa de defender a liberdade de organização sindical, insistiram na tese do "pluralismo sindical" em contraposição à "unicidade sindical". A unicidade sindical é uma questão de princípio para um movimento sindical que se queira transformador da realidade e representativo dos trabalhadores. A pluralidade sindical é um desserviço à luta dos trabalhadores, e o exemplo é a situação criada com o surgimento da entidade pelega denominada "Proifes".


Todos sabemos que a grande arma do trabalhador é a sua unidade, e como grande parte dos integrantes do atual governo são ex-dirigentes de sindicatos de trabalhadores (estando muitos destes hoje a serviço do capital), sabem muito bem como enfraquecer uma categoria: ferindo sua unidade de ação. Desta forma, o governo Lula, juntamente com seu braço sindical, a CUT, estimulou o nascimento do Proifes com o único intuito de enfraquecer o movimento docente representado pelo Andes-SN.


Com a certeza de que a divisão do movimento docente seria benéfica ao governo federal, o Proifes, em nome de nossa categoria, negocia, faz acordos e, desta maneira, confunde e contribui para a desmobilização do movimento docente, sendo participante de várias reuniões em que o Andes-SN sequer foi convidado. Um exemplo dessas negociações sem o apoio da categoria pode ser observado em 2008 com o "Termo de acordo" assinado com o governo federal (que se transformou na Medida Provisória 431/08) e que não contou com o apoio do Andes-SN, nem da maioria das assembleias gerais realizadas em todo o país.


Apesar do surgimento do Proifes, a partir de brechas e ações junto ao Ministério do Trabalho que levaram o Andes-SN a dificuldades financeiras, justamente no momento em que mais precisava dinamizar a luta dos docentes, em junho de 2009, o registro do Andes-SN foi restabelecido pelo MTE, mas uma nova luta começa com a tentativa de rejeitar o pedido de registro sindical do Proifes. Esta "entidade" defende que as próprias seções sindicais escolham a qual sindicato querem ficar filiadas. Isso demonstra, na prática, a ação nociva do pluralismo sindical, já que divide a categoria e enfraquece o movimento.

O debate sobre a unicidade e pluralismo sindical deve ser enfrentado com seriedade junto à nossa categoria, já que a prática tem demonstrado os efeitos deletérios que tanto o pluralismo, como a falta de debate sobre o tema têm gerado.

Além disso, percebemos que a questão da filiação à Conlutas no 26° Congresso, em Campina Grande, mostrou-se precipitada e hoje nos tem colocado numa posição de isolamento. Se a desfiliação da CUT foi uma medida acertada, devido ao fato de que aquela central sindical não mais representa os interesses da classe trabalhadora de maneira geral e dos funcionários públicos de forma particular, por ter se transformado em um órgão de conciliação de classes e em uma correia de transmissão das políticas neoliberais do governo Lula, a filiação à então recém criada Conlutas em 2007 foi uma medida que se mostrou açodada e não representativa da unidade da classe.

Na verdade, o quadro político e sindical brasileiro naquele momento ainda estava em um processo de grandes mudanças, com a repercussão de novas tendências no movimento sindical, a exemplo do surgimento da Intersindical. Outrossim, a imediata filiação à Conlutas, sem a antecedência de um amplo e constante debate sobre o papel e o caráter daquela entidade, que ainda estava no seu nascimento, demonstra uma tendência ao aprofundamento da estreiteza política que funcionou como um mecanismo de aparelhamento do movimento.

Entendemos que, no atual estágio de conformação das políticas que possam alicerçar a base social do Andes-SN, o debate e o aprofundamento sobre o papel das universidades estaduais têm que ser algo mais efetivo dentro do nosso sindicato. As universidades estaduais têm sido um estuário para aplicação de políticas neoliberais e dos moldes propostos pelo Banco Mundial e organismos nacionais e internacionais que visam ao desmonte de um projeto de universidade popular.

Assim sendo, entendemos que este congresso do Andes-SN deve ser aberto à discussão dos mais variados temas, mesmo alguns que nos últimos anos têm sido preteridos sob a justificativa de ser matéria vencida, fazendo com que medidas estreitas fossem adotadas e levando ao isolamento da entidade. Assim, estaremos certos de buscar superar nossos erros e construir a universidade pela qual lutamos como instrumento de transformação da realidade social. Uma universidade popular que contribua para o acesso à ciência e a formação superior.

Consideramos que o Andes-SN deve participar das lutas gerais da sociedade, a exemplo da campanha "O Petróleo tem que ser nosso", a defesa do Aqüífero Guarani, a solidariedade internacional e a defesa dos interesses históricos da classe trabalhadora.

A universidade brasileira é um projeto em disputa e, mesmo entendendo que a universidade que queremos é um projeto da sociedade socialista, compreendemos que mediações devem ser feitas na luta cotidiana de nossa categoria. Cabe a nós discutir estes temas na sociedade e em fóruns como esse.

PCB – Partido Comunista Brasileiro

Comissão Política Nacional

(janeiro de 2010)


Mario Alves, herói e mártir da luta pelo comunismo - Por: Frank Svensson (*)

Tive o privilégio de conhecer o camarada Mario Alves ainda como um dirigente dedicado do PCB. Filiou-se ao mesmo ainda estudante, com 15 anos de idade, em 1939, participando das lutas estudantis contra o fascismo. Por toda a vida foi tido como um homem estudioso, inclusive do corpo teórico do marxismo-leninismo. Quis conhecer in-loco a aplicação do mesmo nas experiências da União Soviética, bem como, da China Popular. Perseguido em sua terra natal, a Bahia, veio militar no Rio de Janeiro e posteriormente em São Paulo onde dirigiu a revista Problemas. Em 1958, assumiu a direção do jornal Novos Rumos. Mário Alves dominava vários idiomas e durante o período de clandestinidade trabalhou como tradutor para garantir seu sustento.

Filiei-me ao PCB em Belo Horizonte, em 1959. Por coincidencia a primeira incumbência que me foi atribuida foi a de conduzir uma reunião onde iria falar um dirigente por nome Mario Alves. Foi no Sindicato dos bancários daquela cidade, por solicitação de Ivan Ribeiro (o filho) então dirigente da Juventude do PCB em BH. Lembro-me da presença de alguns dirigentes sindicais entre eles Sinval Bambirra. Mario Alves mostrou-se um orador brilhante, discreto mas muito seguro do que dizia. Terminada a reunião quiz saber quem eu era e o que fazia. Informei-lhe que eu era universitário e militava na base dos arquitetos e estudantes de arquitetura. Nunca me esqueci de um conselho seu: "Jovem, para ser um bom comunista é muito importante ser um bom profissional, fazer-se indispensável à sociedade pelo saber fazer". Quantas vêzes a vida não tem me feito lembrar disso e reconhecer a profundidade de sabedoria aí contida! Esse posicionamento explica em muito a galeria de profissionais, cientistas e intelectuais que a história do PCB pode apresentar.

Quando do golpe militar em 1964, Mario Alves começou a se opor às posições predominantes no Comitê Central, formando a chamada Corrente Revolucionária. Em 1968, funda junto com Carlos Marighela, Appolonio de Carvalho e Jacob Gorender o PCBR. A proposta geral do mesmo consistia na constituição de um novo partido que reformulasse a linha tradicional do PCB a respeito da necessidade da aliança com a burguesia nacional, sem no entanto abraçar a bandeira da Revolução Socialista imediata.

No dia 16 de janeiro de 1970, aos 47 anos, Mário Alves desaparece. Foi preso pelo DOI-CODI e levado ao quartel da Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita, Tijuca, um dos centros de tortura da ditadura. Foi "espancado barbaramente de noite, empalado com um cassetete dentado, o corpo todo esfolado por escova de arame, por se recusar a prestar informações exigidas pelos torturadores do 1° Exército e do DOPS",

Em que pese divergências havidas, o PCB reconhece o camarada Mario Alves como herói e mártir da luta pelo comunismo e faz questão que seu exemplo e história de vida sejam conhecidos.

(*) Frank Svensson é membro da Comissão Política do Comitê Central do PCB




terça-feira, 26 de janeiro de 2010

FORA TODAS AS TROPAS ESTRANGEIRAS DO HAITI - Por: Renato Nucci Jr. (*)


A devastação causada pelo terremoto no Haiti acentuou a ocupação militar de seu território por tropas estrangeiras. Às tropas da Minustah, calculadas em 8 mil militares e sob comando brasileiro, se juntam agora cerca de 10 mil soldados norte-americanos, incluindo 2 mil marines. A desculpa dessa grande presença militar é a de ajudar os sobreviventes do terremoto e auxiliar no esforço de reconstrução do país. Em verdade, mais uma vez o sofrimento do povo haitiano é usado para justificar uma nova intervenção estrangeira.


Em uma situação de tanta dor e sofrimento, onde um povo miserável é vítima de uma catástrofe de proporções gigantescas; onde as imagens difundidas pelos grandes meios de comunicação é a de um país acéfalo no qual parece inexistir o aparelho de Estado, o envio de tropas se justificaria plenamente. O aparente caos natural do Haiti só poderia ser contornado pelo uso constante de uma força militar externa capaz de garantir a segurança e a estabilidade política, fatores imprescindíveis para a reconstrução econômica e social do país.


Ao contrário dessa "verdade" martelada diariamente em nossas cabeças, o fato é que a atual situação do Haiti em grande parte se deve às constantes interferências e intromissões de nações poderosas em seus assuntos domésticos. Os Estados Unidos, com os seus marines à frente, ocuparam e governaram o país de 1915 a 1934. De lá saíram quando o controle da alfândega do país permitiu o pagamento das dívidas que este possuía com o City Bank e, de quebra, conseguiram uma mudança constitucional que passou a permitir a venda de terras e plantações a estrangeiros.


A partir da década de 1990, após a derrubada da ditadura sanguinária de Jean Claude Duvalier, o Baby Doc, que recebeu o apoio dos Estados Unidos, o país se transformou em laboratório para intervenções estrangeiras, principalmente as norte-americanas. O objetivo de todas elas é um só: destruir qualquer capacidade dos haitianos em se autogovernarem. Isso significou executar uma clássica intervenção em seus assuntos internos, como foi o caso da destituição do então presidente Jean Bertrand Aristide, em 2004, o que resultou no envio de uma missão de paz da ONU, a Minustah, em nome da estabilização e segurança do país. Do mesmo modo, tratou-se de impedir que o Estado haitiano possa fazer o que todo Estado faz, executando políticas públicas com os fundos disponíveis, sejam eles internos obtidos com o recolhimento de impostos, sejam de doações ou empréstimos internacionais. Desde 2001, por pressão dos Estados Unidos, os fundos de ajuda internacionais são direcionados prioritariamente para as ações de ONG's que passaram a substituir as obrigações do Estado haitiano. O país não conta com forças armadas e as funções policiais são raquíticas.


Aproveitando-se da acefalia política para a qual contribuíram conscientemente, os Estados Unidos despejaram no Haiti o seu arroz, objeto de fartos subsídios, levando a ruína os pequenos agricultores do país. Em 1982, o governo dos Estados Unidos obrigou o Estado haitiano, sob a ditadura de Baby Doc, a eliminar todos os porcos do país, acusando-os de estarem infectados pela febre africana. Toda essa situação tornou a vida no campo insuportável, levando a um grande êxodo rural cujas conseqüências estão no aumento das favelas e da miséria do país observada na década de 1980, principal razão para a rebelião popular que pôs fim, em 1986, ao regime de terror de Baby Doc. Outra situação da qual tiraram proveito, a partir do êxodo rural, foi a implantação ainda nessa década das maquiladoras, principalmente de roupas esportivas (Nike, Adidas, Reebok), que se aproveitam de uma força de trabalho baratíssima e sem direito a organização sindical.


A presença da Minustah, a partir de 2004, acentuou no Haiti a condição de nação sob permanente estado de intervenção externa. Sob comando operacional dos militares brasileiros, a justificativa para uma nova intervenção estrangeira era a de restabelecer a ordem e reconstruir a infra-estrutura do país. Porém, em quase seis anos de ocupação, os níveis de miséria e pobreza não foram revertidos. Nenhuma escola ou hospital foi construído. Os termos da missão de paz da ONU definem que o orçamento da Minustah só pode ser gasto nas operações destinadas a manter a ordem pública e a segurança interna. Em junho de 2009, as mobilizações populares em apoio a um projeto aprovado na Câmara dos Deputados e no Senado que reajustava o salário mínimo de 70 para 200 gourdas (1 dólar equivale a 42 gourdas), foram duramente reprimidas pelas tropas da Minustah.


Com papel tão limitado, o governo e as tropas brasileiras, além de usarem a missão no Haiti para assegurar uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, também fazem do país, nas palavras de um coronel da Brabatt (Batalhão Brasileiro da Minustah), um laboratório para os militares brasileiros aprenderem a como conter uma possível rebelião nas favelas cariocas. Mas o papel vergonhoso do Brasil não se resume em transformar o Haiti e seu povo em um grande campo de treinamento para oprimir o próprio povo brasileiro. Interesses econômicos de capitalistas tupiniquins estão por trás da presença do Brasil na "missão de paz" da ONU no Haiti. Além da OAS, que ganhou uma licitação de US$ 145 milhões para construir uma rodovia, a Coteminas, maior empresa de cama, mesa e banho do mundo e cujo proprietário é o vice presidente José Alencar, negocia com as autoridades da Minustah a instalação de uma planta no país. Sua produção seria exportada para os Estados Unidos, com quem o Haiti tem um acordo de livre comércio. Uma das vantagens oferecidas pelo Haiti seria o salário dos trabalhadores, pois uma costureira em Porto Príncipe recebe US$ 0,50 por hora, muito abaixo dos US$ 3,27 pagos para a mesma profissional no Brasil. É o melhor dos mundos para qualquer capitalista: a exploração mais desbragada é garantida pela força das armas, tudo em nome da reconstrução do país.


A devastação causada pelo terremoto, ao prostrar ainda mais o povo haitiano, foi a senha para governos imperialistas ampliarem sua presença militar. Os Estados Unidos, além do envio de tropas, militarizaram a costa haitiana, enviando modernos navios de guerra e ocuparam o aeroporto de Porto Príncipe, causando dificuldades para o pouso de aviões com ajuda humanitária. Brasil, França e Estados Unidos, ao invés de matarem a fome dos haitianos e socorrerem os feridos, brigam entre si sobre quem continuará garantindo a ordem pública e a vigilância policial no país. Mas essa presença súbita de tropas norte-americana no Haiti, tendo como justificativa ajudar no esforço de assistência às vítimas do terremoto, também deve ser vista como parte da estratégia dos ianques em ampliar o cerco militar a Cuba e Venezuela. Afinal, o Haiti está no meio do caminho entre dois países que representam um desafio à prepotência e arrogância do imperialismo.


Enquanto isso, o povo haitiano padece nas ruas de Porto Príncipe de fome, de sede e da falta de atendimento médico. Se eles reclamam por não lhes chegar comida, água e remédios, esperando por uma ação decisiva da ONU e das tropas da Minustah, isso se deve à completa desestruturação do Estado haitiano, levada a cabo conscientemente por potências estrangeiras que sempre viram no país um mero joguete dos seus interesses.


Para muitos parecerá um absurdo, mas a solução dos problemas haitianos, mesmo os causados pelo terremoto, só começarão a se resolver quando toda e qualquer tropa estrangeira deixar o país. A solução para os terríveis problemas enfrentados pelo Haiti começa, sim, pelo respeito à sua soberania, o que implica a retirada de toda e qualquer tropa estrangeira presente no país. Óbvio que nesse momento o Haiti necessita de ajuda. Mas esta deve ser na forma de comida, remédio, roupa, assistência médica, cancelamento unilateral de sua dívida externa, assistência técnica para retomar a produção industrial e agrícola, tudo sem qualquer tipo de contrapartida. Mas jamais com o envio de tropas, cujo pretexto em prestar ajuda humanitária, serve para aprofundar a submissão do país.


Campinas, janeiro de 2010.



(*) Renato Nucci Junior é militante, membro do Comitê Central e dirigente do PCB-São Paulo

Haiti: estratégia do caos para uma invasão


José Luis Vivas


ALAI AMLATINA, 18/01/2010 – O terremoto que arrasou Porto Príncipe, em 12 de janeiro passado, oferece um pretexto inexorável para justificar a enésima invasão e ocupação militar do Haiti, já ocupado desde 2004, porém agora diretamente pelos principais promotores dessa ocupação, sem intermediários. Motivos, políticos e estratégicos, não faltam. Assim, serviria para repreender o principal intermediário da atual ocupação, Brasil, que apesar dos bons serviços prestados no Haiti não tem se portado da mesma maneira em relação ao recente golpe de Estado em Honduras.


O que temos observado até o momento parece corroborar a tese de que se está preparando uma nova ocupação militar, não humanitária. Vários elementos indicam, como: desavenças com os atuais ocupantes, com a Missão de Paz (MINUSTAH) da ONU, especialmente com o Brasil, que possui o comando militar; entorpecimento da ajuda humanitária e o fomento de uma situação de caos; e uma campanha midiática que consiste na criação de uma imagem de caos e violência, que justificaria uma ocupação ante a opinião pública. Como veremos abaixo, todos esses componentes parecem estar presentes.


Existem motivos para suspeitar de que se está permitindo deliberadamente a deterioração da situação humanitária no Haiti. Por exemplo, a reconhecida falta de coordenação nas tarefas de resgate, o que é amplamente difundido pelos meios de comunicação. Em teoria, corresponderia à ONU dirigir tais tarefas, porém, ao que parece, está foi desautorizada pelos Estados Unidos, que ocuparam rapidamente um dos locais-chaves para a coordenação das tarefas de resgate, o aeroporto. Sem a liderança da ONU e com um Estado haitiano "falido", ou em outras palavras menos Orwelliano, quebrado de forma premeditada, não resta ninguém que possa dirigir as tarefas de resgate eficientemente. Nem tampouco as ONGs que vem recebendo fundos internacionais para exercer muitas das funções que são obrigações do governo haitiano. Não se pode exigir das ONGs as mesmas responsabilidades de um governo, um feito talvez muito conveniente nesses momentos.


Outro elemento é a morosidade no envio de ajuda por parte dos EUA, em contraste com a rapidez demonstrada em sua mobilização militar. Inclusive a distante China parece estar mais adiantada que os Estados Unidos no envio de auxílio. Assim, o ex-tenente geral do exército norte-americano, Russel Honoré, que participou das tarefas de resgate após o furacão Katrina, em 2005, declarou sobre a situação do Haiti pós-terremoto: "penso que isso já foi aprendido durante o Katrina, precisamos levar água e alimentos e começar a evacuar as pessoas... Penso que deveríamos ter começado isso o quanto antes". Por exemplo, enquanto as forças armadas dos EUA parecem ter sido mobilizadas com bastante rapidez, um navio-hospital da marinha está se preparando com mais parcimônia: "é um navio lento, um pouco velho, que tardará uma semana para chegar", declara um porta-voz do Pentágono. Talvez não possam fazer nada melhor com o velho navio, porém deveriam existir outros meios de acelerar as ajudas. Por exemplo, se podia seguir a sugestão pouco herética de Lawrence Korb, ex-secretário assistente de Defesa dos Estados Unidos, de aproveitar os conhecimentos dos cubanos em tarefas de resgate: "devemos parar e pensar que nossa vizinha Cuba conta com alguns dos melhores médicos do mundo... Deveríamos tentar transferi-los em nossos vôos".


Tudo isso nos deixa a impressão de que, no melhor dos casos, as tarefas de resgate não são uma prioridade para o governo norte-americano, ao contrário daquelas puramente militares, como o envio de "3500 soldados da 82ª Divisão Aerotransportadora de Fort Bragg", cuja missão "não está clara", segundo o Christian Science Monitor. Mas, talvez fique mais clara com a explicação do porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Philip Crowley: "Nós não estamos nos apropriando do Haiti. Estamos ajudando a estabilizar o país. Estamos ajudando no fornecimento de material e socorro para salvar vidas, e vamos permanecer aqui a longo prazo para ajudar a reconstruir o Haiti". E também as palavras posteriores da secretária de Estado, Hillary Clinton, assegurando que as forças norte-americanas ficarão no Haiti "hoje, amanhã e provavelmente no futuro".


As divergências diplomáticas com outros países, especialmente com o Brasil, que está no comando das tropas da ONU no Haiti, não tardaram em manifestar-se, o que parece indicar também que a "missão" norte-americana no Haiti vai muito além do puramente humanitário. Até hoje o Brasil havia cumprido diligentemente com o papel que foi designado no Haiti. Suas tropas se dedicavam a controlar e, em certas ocasiões, aterrorizar a população haitiana, especialmente aos mais pobres, da mesma forma que atuam nas favelas do Brasil. Como informa em uma entrevista o jornalista Kim Ives, do Haiti Liberté, a pretensa missão de paz da ONU no Haiti, liderada pelos brasileiros, "é extremamente mal vista [pela população haitiana]. Essa gente está farta e cansada de que estejam gastando milhões, de observar como os jovens militares passam, dando volta por todas as partes com os tanques gigantescos, apontando os fuzis. E, como se sabe, esta é uma força cuja missão é a de submeter ao país".


Era só esperar que os EUA entrassem em conflito com o Brasil caso a intenção do primeiro fosse a de assumir um papel militar no Haiti. O conflito não tardou em iniciar. Nas palavras do secretario geral da ONU, Ban Ki-moon, em 14 de janeiro, "seria absolutamente desejável que todas essas forças estivessem coordenadas pelo comandante da MINUSTAH". Porém os EUA não aceitaram esta proposta. Funcionários do governo dos Estados Unidos indicaram que suas forças "coordenem" suas ações com a direção da MINUSTAH e nada mais: "Vamos atuar sob o comando dos EUA em apoio a uma missão da ONU em nome do governo e do povo haitiano", declara Crowley.


É possível deduzir como essa "coordenação" está funcionando a partir da reação até do ministro de defesa do Brasil, Nelson Jobim, criticando o controle "unilateral" dos Estados Unidos sobre o aeroporto de Porto Príncipe, que segundo ele, foi tomado sem que outros países fossem consultados, e que estaria dificultando a aterrissagem dos aviões da FAB (Força Aérea Brasileira) carregados de pessoal e mantimentos. Como indica o periódico brasileiro Folha de São Paulo, essa situação "vem causando um pequeno problema diplomático entre Brasil e EUA. Além de retardar a aterrissagem dos aviões da FAB, os brasileiros se queixam de que o controle norte-americano esteja impedindo o acesso da MINUSTAH (Missão de paz da ONU no Haiti, liderada pelos brasileiros) ao local [o aeroporto]".


Apesar das posteriores declarações de Hillary Clinton a Jobim, assegurando que "as forças norte-americanas vão cumprir funções essencialmente humanitárias, sem interferir na segurança pública do país", o fato é que tais funções "humanitárias" estão sendo comandadas "não por agências civis do governo... e sim pelo Pentágono", através do SOUTHCOM (Comando Sul dos Estados Unidos), cuja missão é a de "conduzir operações militares e proporcionar a cooperação na segurança para alcançar objetivos estratégicos dos Estados Unidos", como assinala Michel Chossudovsky, do Global Research.


Outro elemento importante é a aparente instrumentalização de um suposto estado de caos no Haiti, o que também poderia ter sido contribuído pela talvez premeditada falta de coordenação na distribuição da ajuda humanitária. O objetivo aqui seria o de criar uma imagem de caos e violência que justifique a invasão ante a opinião pública e, para isso, é necessário contar com a estreita colaboração dos grandes meios de informação. Ao menos os meios mais afinados com o governo norte-americano parecem não ter perdido tempo neste sentido. Desde um primeiro momento vem tratando de dramatizar a situação, por exemplo, através da difusão de rumores de rajadas de supostos tiroteios, que ninguém mais parece ter ouvido em Porto Príncipe, ou da formação de novos bandos criminosos. Assim, dois dias depois do terremoto, já podíamos ler em um artigo intitulado "Tomarão os bandos criminosos o controle do caos haitiano?", as seguintes pesarosas palavras: "quando a escuridão cobriu a cidade de Porto Príncipe, assolada pelo terremoto, moradores informaram que escutaram tiros. Isso dificilmente é uma surpresa: no Haiti, durante as emergências – naturais ou políticas – tiros podem ser tão onipresentes na noite como o latido dos cachorros, como grupos armados apossando-se das ruas". O fato de que ninguém parece ter ouvido esses tiros nem visto tais gangues tomando as ruas, pode indicar que a intenção aqui é a de criar uma falsa imagem de caos, o que torna mais aceitável para a opinião pública uma eventual invasão e ocupação do país.


Agora, a maior parte dos meios insiste nessas imagens de caos e violência. Porém, há exceções. Assim, como explica o coordenador do Canadian Haiti Action Network, Roger Annis, referindo-se a uma reportagem da BBC que não mostra nada dessa suposta violência, o que "contrasta fortemente com as advertências de saques e violência que chegam em ondas pelos canais de notícias, tais como a CNN", e que "estão sendo reproduzidas pelo secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates".


O mais macabro de tudo isso é que as ajudas poderiam não estar chegando aos necessitados devido a uma intenção deliberada de provocar esse mesmo estado de caos e violência que parece não existir até o momento. Segundo Roger Annis "está crescendo a evidência acerca de uma negligência monstruosa induzida ao povo haitiano após três dias do terremoto. À medida que as provisões médicas vitais, alimentos, substâncias químicas para a purificação da água e veículos se estão amontoando no aeroporto de Porto Príncipe, e que os meios estão informando sobre um esforço internacional massivo para fornecer ajuda de emergência, os moradores da cidade destroçada se perguntam quando poderão ver algum tipo de ajuda".


O repórter da BBC, Andy Gallaguer, declara também que andou por todas as partes da capital durante sexta-feira, 15 de janeiro, e que "não observou nada mais que cortesia da parte dos haitianos que encontrou. Em toda parte foi levado pelos moradores para ver o que havia acontecido em suas vizinhanças, suas casas e suas vidas. E então perguntavam: onde estão as ajudas?". Sobre a declaração do secretário de defesa norte-americano que motivos de "segurança" estariam impedindo a distribuição de ajuda, Gallaguer contesta que "eu não estou vendo nada disso". Quanto a situação no aeroporto, informa que "há uma grande quantidade de material em solo e muita gente ali. Eu não sei que problemas há com a entrega". Igualmente, segundo palavras de um observador local, "os agentes dos meios de comunicação estão buscando histórias de haitianos desesperados, que estão atuando de forma histérica, quando, na realidade o mais comum é vê-los agindo de forma sossegada. Enquanto isso, a comunidade internacional, a elite e os políticos estão irritados com esse assunto e nenhum dos haitianos parece ter a mínima idéia do que está passando".


Não somente não há planos de transportar médicos cubanos à ilha, como a ocupação do aeroporto se deu imediatamente depois da chegada de 30 médicos cubanos para reunir-se com os cerca de 300 que já estavam na ilha a mais de um ano. E muitos suspeitam que isso pode ter algo relacionado com a ocupação do aeroporto. Trinidad & Tobago Express, por exemplo, informa que "uma missão de ajuda emergencial da Comunidade Caribenha (Caricom) ao Haiti, incluindo os chefes de governos e funcionários técnicos de destaque, não puderam obter permissão esta sexta-feira para aterrissar no aeroporto do país devastado, agora sob o controle dos EUA". Além disso, "indagado acerca de se as dificuldades encontradas pela missão de Caricom poderiam estar relacionadas com informes de que as autoridades norte-americanas não estariam ansiosas em facilitar a aterrissagem das naves procedentes de Cuba e Venezuela, o primeiro ministro Golding [da Jamaica] respondeu que 'somente espera que não haja nenhuma verdade nesse tipo de pensamento imaturo, a luz da espantosa extensão da tragédia do Haiti'...".


O seguinte testemunho é do diretor do Ciné Institute de Jacmel, David Belle, também contradiz radicalmente a imagem de caos e violência difundida pelos meios de comunicação. "Várias pessoas comentaram comigo que muitos meios informativos norte-americanos pintam o Haiti como um barril de pólvora pronto para explodir. Disseram-me que as principais reportagens dos grandes meios só falam de violência e caos. Nada está mais distante da realidade... Nenhuma única vez fui testemunha de um só ato de agressão ou violência. Ao contrário, temos visto vizinhos ajudando vizinhos e amigos ajudando amigos e estranhos. Temos visto vizinhos escavando escombros com as mãos nuas para encontrar sobreviventes. Temos visto curandeiros tradicionais tratando dos feridos; temos visto cerimônias solenes anteriores aos enterros coletivos e moradores esperando, pacientemente, sob um sol abrasador, com nada mais que uns poucos pertences que sobraram. Uma cidade mutilada de dois milhões de seres esperando ajuda, remédio, alimento e água. A maioria não recebeu nada. O Haiti pode orgulhar-se de seus sobreviventes. Sua dignidade e decência frente a esta tragédia são assombrosas".


Todos esses elementos justificam a suspeita de que está em marcha uma macabra estratégia de caos para justificar uma invasão e ocupação que, pelo visto, nada terá de humanitária.


* Versão completa desse artigo em http://www.alainet.org/active/35579


Tradução: Maria Fernanda Magalhães Scelza



sábado, 23 de janeiro de 2010

Haiti: terremoto é desastre natural, mas a pobreza extrema, não

21/01/2010

Eduardo Sales de Lima e Igor Ojeda da Redação do jornal Brasil de Fato


As imagens das TVs de todo o mundo mostram um verdadeiro inferno. Destruição total, corpos estirados, homens e mulheres aos prantos. Os relatos dos repórteres nos jornais que foram a campo não são diferentes. Saques a supermercados, violência, desespero.




Quase em uníssono, os meios decretaram: os efeitos do terremoto de 7 graus na escala Richter ocorrido no dia 12 no Haiti são ainda mais graves devido à extrema pobreza em que vive a população do país, o de menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do hemisfério ocidental. A análise um tanto óbvia não é incorreta, mas a imprensa em geral "esqueceu-se" de explicar o porquê de tanta miséria, praticamente naturalizando o subdesenvolvimento acentuado do Haiti.




"É preciso que se diga que se, de fato, as causas da tragédia são naturais, nem todos os efeitos o são", opina Aderson Bussinger Carvalho, advogado e ex-conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que visitou o país em julho de 2007. "É preciso saber que indústrias exploram a mão-de-obra barata haitiana, cujos produtos são exportados para o mercado dos EUA, assegurando imensos lucros que não se revertem em favor do povo. As casas construídas somente com areia, a ausência de hospitais, a falta de luz e água... tudo isso vem de antes do terremoto", afirma.




Pobreza extrema


Atualmente, 80% dos haitianos vivem abaixo da linha de pobreza, sendo que 54% se encontram na extrema pobreza. A mortalidade infantil é de cerca de 60 mortes para cada mil nascimentos (no Brasil, a proporção está em torno de 22 para mil), a expectativa de vida é de 60 anos e o analfabetismo atinge 47,1% da população.




Além disso, o país sofre com a falta de infra-estrutura e indústria nacional. As estradas são bastante precárias, assim como as áreas de energia, telecomunicações e transporte. Dois terços dos haitianos dependem da agropecuária para sobreviver, enquanto apenas 9% trabalham em fábricas, em sua maioria nas chamadas maquiladoras, unidades especializadas em produção de manufaturados para exportação que se utilizam de mão-de-obra barata. "Durante o ano de 2009, percorremos todo o Haiti. Nossa brigada percorreu dez departamentos e conhecemos a situação de pobreza em que vive a imensa maioria da sociedade haitiana", relata José Luis Patrola, militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e integrante da Brigada Internacionalista Dessalines da Via Campesina, que atua com as organizações camponesas do país.




Triste e estranha realidade para uma nação que foi a segunda das Américas a se tornar independente (da França) e a primeira a abolir a escravidão, em 1804. Ou seja, que tinha tudo para oferecer uma vida digna para seus habitantes.




Construção histórica


"A pobreza extrema do Haiti é uma construção histórica bi-centenária, produto da incessante intervenção colonialista e imperialista, em boa parte devido precisamente a ter sido o Haiti a primeira e única nação negreira onde os trabalhadores escravizados insurrecionados obtiveram a liberdade. Isso após derrotar expedições militares francesa, inglesa e espanhola", explica Mário Maestri, historiador e professor do Programa de Pós Graduação em História da Universidade de Passo Fundo (UPF), no Rio Grande do Sul.




Segundo ele, a partir de então, o Haiti passou a ser temido pelos EUA, pois poderia servir como exemplo aos escravos estadunidenses. Assim, o país passou a "ser objeto de bloqueio quase total, desde seus primeiros anos, pelas nações metropolitanas e americanas independentes. Já em 1825, foi obrigado a pagar, sob pena de agressão militar, pesadíssima indenização à França. Conheceu nas décadas seguintes intervenções militares dos EUA, que, mesmo após a desocupação, em 1934, transformaram o país em semi-colônia, sobretudo através das sinistras ditaduras dos Duvaliers, Papa-Doc e seu filho [entre 1957 e 1986]".




De acordo com Osvaldo Coggiola, professor de História Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP), o Haiti não é uma exceção na região em que se encontra, mas um caso extremo da dominação imposta pelos países centrais do capitalismo. Assim, para ele, "atribuir seus males à incapacidade da sua população, descendente de escravos forçados a trabalhar na ilha pelos colonialistas franceses, é um conceito abertamente racista. A classe dominante, ela sim, é corrupta até a medula. Se chegar ajuda para o governo local, vão roubar, para vender e chantagear a população".




Casas amontoadas


Além da pobreza, outro fator vem sendo apontado como potencializador dos efeitos do terremoto, embora ambos estejam fortemente vinculados: a grande quantidade de pessoas vivendo nas cidades (especialmente na capital, Porto Príncipe) em casas amontoadas e construídas precariamente, o que fez com que desabassem mais facilmente. Segundo Patrola, o desastre deixou evidente a precaridade do sistema urbano no Haiti. "Porto Príncipe e as favelas de Cité Soleil e Bel-air foram construídas de forma espontânea com a ausência de recursos mínimos de construção civil. Isso potencializou a destruição".




Aqui, outra triste e estranha realidade: como se explica que um país cuja agricultura representa 28% do PIB (no Brasil, esse índice é de 7%) possua um índice de êxodo rural tão acentuado e tenha 47% de sua população vivendo na zona urbana?




"Pela eliminação das culturas agrárias locais pelos produtos importados, inclusive os das famosas 'ajudas internacionais'. O subdesenvolvimento eliminou as florestas locais, pois o carvão é quase a única fonte de energia no interior. Em 1970, o Haiti era quase auto-suficiente em alimentação, hoje importa 60% do que come", responde Osvaldo Coggiola. Segundo dados da ONU, entre 2005 e 2010, a população das cidades haitianas cresceu 4,5% por ano.




Migração


O historiador Mário Maestri explica que a revolução de 1804 teve como consequência a divisão dos latifúndios existentes em lotes familiares, que retomaram as tradições camponesas africanas, proporcionando uma independência alimentar. No entanto, "as intervenções imperialistas, com a colaboração das frágeis e corruptas elites negras e mulatas, desdobraram-se para metamorfosear a agricultura familiar-camponesa em mercantil. Levantes camponeses foram duramente reprimidos, para reconstituir a grande propriedade", diz.




Patrola, da brigada da Via Campesina no Haiti, responsabiliza ainda as políticas neoliberais mais recentes pelo "desmonte" do campo. "A abertura comercial está destruindo a agricultura haitiana. O Haiti é o quarto importador de arroz dos Estados Unidos", diz.




O resultado de todo esse processo vem sendo uma grande migração para a cidade. E hoje, de acordo com Maestri, as enormes massas de miseráveis urbanos são vistas como mão-de-obra extremamente barata para as indústrias maquiladoras que se estabeleceram no Haiti.



Haiti: eis o que é imperialismo e o que é subimperialismo - Por: Duarte Pereira

(Duarte Pereira)

Está-se consumando a crônica anunciada e previsível da nova ocupação do Haiti pelos Estados Unidos, desta vez aproveitando o terremoto que devastou o país e sua capital. Os Estados Unidos já desembarcaram 11 mil militares no país. Ontem, com tropas armadas e uniformizadas para combate, transportadas em helicópteros de guerra, ocuparam o palácio presidencial em Porto Príncipe. O aeroporto, não esqueçamos, continua sendo controlado e operado pelos Estados Unidos, que hastearam sua bandeira no local e decidem que aviões podem pousar. Nos últimos dias, deram prioridade a suas aeronaves, principalmente militares, prejudicando o desembarque da ajuda enviada por outros países e por organizações não-governamentais. A prioridade foi a segurança, não a vida da população haitiana, principalmente pobre. O ministro francês da Cooperação, Alain Joyandet, chegou a protestar: "Precisamos ajudar o Haiti, não ocupá-lo." É verdade que, tendo cumprido o cronograma inicial de desembarque de suas tropas, os Estados Unidos poderão autorizar, nos próximos dias, o pouso de um número maior de aviões de outros países, com técnicos e equipamentos para remoção de destroços, médicos e remédios para atendimento dos feridos, água e alimentos para a população desabrigada e desempregada. A essa altura, porém, a possibilidade de encontrar pessoas soterradas com vida será mínima e excepcional.


Sem que a mídia dê atenção a este aspecto, os Estados Unidos estão aumentando também o controle do porto que dá acesso à capital e de toda a área litorânea do Haiti, com um porta-aviões, um navio equipado com um hospital de campanha e vários navios da Guarda Costeira, visando a socorrer feridos, mas também a selecionar e controlar a aproximação de navios de ajuda de outros países, como o enviado pela Venezuela com combustível, e a impedir a emigração desesperada de haitianos para a costa estadunidense em pequenas embarcações...


Não podendo justificar suas ações arrogantes e unilaterais com ordens das Nações Unidas, o governo de Washington tem argumentado que atua a pedido do governo haitiano. Mas que soberania pode ter um governo, como o do presidente René Préval, que não dispõe sequer de forças policiais e de equipamentos de comunicação e transporte para manter a ordem pública e organizar o salvamento de seus cidadãos? É significativo também que o plano de salvamento e reconstrução do Haiti pelos Estados Unidos tenha sido anunciado, em conjunto, pelo presidente Barack Obama e pelos ex-presidentes Clinton e Bush – o mesmo Bush que demorou tanto a agir quando o furacão Katrina destruiu uma grande área dos Estados Unidos. Quando os interesses estratégicos da superpotência estadunidense e de suas empresas transnacionais estão em jogo, prevalece como sempre o consenso bipartidário entre "democratas" e "republicanos" – aliás, uma confluência bipartidária semelhante se ensaia agora no Brasil com o PSDB e o PT, apesar das acirradas disputas nas fases de eleição.


O jornalista Roberto Godoy, especializado em assuntos militares, escreve no "Estadão" de hoje: "Os Estados Unidos estão fazendo no Haiti o que sabem fazer melhor: ocupar, assumir, controlar. Decidida em Washington, a operação de suporte às vítimas da devastação, em quatro horas, tinha 2 mil militares mobilizados – e metade deles já seguia para Porto Príncipe – enquanto o resto do mundo apenas tomava conhecimento da tragédia. (...) É a Doutrina Powell, criada no fim dos anos 80 pelo então chefe do Estado-Maior Conjunto general Colin Powell, aplicada em tempo de paz. Ela prevê que os Estados Unidos não devem entrar em ação a não ser com superioridade arrasadora. (...) No sábado, oficiais americanos [seria mais correto escrever estadunidenses, porque americanos somos todos nós] estavam no comando do tráfego aéreo. Os paraquedistas da 82ª Divisão e os fuzileiros navais (...) são treinados para o combate e também para missões de resgate. Movimentam-se em helicópteros e veículos convertidos em ambulâncias leves. A retaguarda é poderosa. Um porta-aviões virou central logística e um navio-hospital de mil leitos chegou no domingo. Ontem, aviões dos Estados Unidos ocupavam 7 das 11 posições de parada remanescentes no aeroporto."


A mídia do grande capital, exagerando os saques e os conflitos, cumpriu seu papel de preparar a opinião pública para aceitar a operação político-militar dos Estados Unidos como necessária e benevolente. Na realidade, os Estados Unidos têm contribuído para acirrar os conflitos ao atrasar a ajuda humanitária de outros países e utilizar aviões e helicópteros para despejar suprimentos aleatoriamente sobre uma população sedenta, faminta e desorganizada. Até mesmo o general brasileiro Floriano Peixoto, comandante da Minustah (Missão de Estabilização das Nações Unidas), ponderou em videoconferência que os casos mais graves de violência não são generalizados e disse que as ruas de Porto Príncipe estão desobstruídas, o que facilita a ação das forças de segurança. Na avaliação do general, a situação se mostra menos grave do que a versão difundida pela imprensa. Além disso, quem tem experiência política e já participou da resistência a regimes entreguistas e autoritários não pode deixar de receber com ceticismo a qualificação fácil e indiferenciada, difundida pela mídia, de que todos os presos que escaparam dos presídios destruídos pelo terremoto são criminosos comuns e integrantes de "gangues de bandidos". Muitos oficiais e soldados do antigo Exército haitiano formaram milícias, que declararam seu apoio ao último presidente livremente eleito Jean-Bertrand Aristide, depois que ele foi deposto em 2004. Seqüestrado por tropas estadunidenses e levado à força para a África do Sul, bem longe do Haiti, o ex-presidente Aristide continua impedido de voltar ao país e seu partido foi proibido de participar das últimas eleições realizadas sob o controle da Minustah.


Com as diferenças secundárias de motivação e de situação interna, o roteiro seguido pelos Estados Unidos no Haiti é, portanto, essencialmente, o mesmo adotado no Iraque ou no Afeganistão: primeiro, destroem-se os Estados nacionais que esbocem qualquer rebeldia, instalando a devastação econômica e social e o caos político; depois, utilizam-se essas circunstâncias deterioradas para justificar a construção de Estados satélites; por último, esses Estados satélites e corruptos se revelam incapazes de garantir a paz, resgatar a dignidade nacional e melhorar o padrão de vida da população (com as exceções de praxe das elites colaboracionistas), justificando que a ocupação estadunidense se prolongue indefinidamente. A crise aprofundada pela intervenção externa cria, enquanto isso, oportunidades de novos negócios lucrativos para os fabricantes de armas, as empresas de segurança e as grandes construtoras dos Estados Unidos e de seus aliados.


Para dissipar dúvidas sobre as reais intenções da intervenção "emergencial" e "humanitária" dos Estados Unidos no Haiti, o diplomata Greg Adams, enviado ao país caribenho como porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos, declarou ao "Estadão" em Porto Príncipe: "É muito cedo para estabelecer prazos [para a retirada das tropas estadunidenses] e ficaremos aqui o tempo que for necessário [lembremo-nos de declarações semelhantes tornadas públicas no início da ocupação do Iraque]. Havia tropas estrangeiras no Haiti antes do terremoto [ah, é?]. Com a tragédia, além de todos os outros problemas, não vejo uma data-limite no futuro próximo para falarmos aos haitianos 'ok, agora é com vocês'. Ficaremos aqui por um bom tempo e acho que o Brasil também."


A referência à ação coadjuvante e subordinada do Brasil foi bem esperta. Que autoridade moral pode ter o governo brasileiro de protestar contra a ação estadunidense se tem participado da intervenção política e militar nos assuntos internos do Haiti, ainda que com a chancela formal das Nações Unidas, chancela já utilizada ao longo da historia da entidade para encobrir tantas outras intervenções? Participando das operações de segurança – ou seja, em bom português, de repressão – com o beneplácito e em benefício dos Estados Unidos, o Brasil espera ganhar o prêmio de consolação de tomar parte nos negócios de reconstrução do país. Aliás, grandes construtoras brasileiras, como a OAS e a Odebrecht, já enviaram equipes técnicas e equipamentos pesados para o Haiti, posicionando-se para a disputa que virá.


Quem afirma que não existe mais imperialismo no século XXI ou põe em dúvida o conceito de subimperialismo, utilizado para caracterizar a política externa atual do Brasil, principalmente na América Latina e no Caribe, tem assim a oportunidade de aprender, em cores e on line, o conteúdo concreto desses conceitos e dessas práticas. Abrindo bem os olhos, os patriotas e democratas brasileiros têm o dever de exigir que o Brasil renuncie ao comando militar da Minustah, retire progressivamente suas tropas do Haiti e se limite às ações de cunho efetivamente humanitário. O Haiti não precisa só de ajuda, precisa de soberania. Que os Estados Unidos realizem seu plano de intervenção e de construção de um Estado satélite no Haiti com seus próprios recursos humanos e materiais e sob sua exclusiva responsabilidade. Assim, pelo menos, a situação ficará mais clara e se tornará mais fácil mobilizar as forças antiimperialistas e democráticas no Haiti e nos demais países da América Latina e do Caribe. Não percamos de vista que um império em declínio, na desesperada tentativa de reverter o curso histórico que o debilita, pode tornar-se mais perigoso e aventureiro do que um império em ascensão e paciente.


Estou fechando este parêntese sobre a tragédia haitiana, porque já está claro que não se trata apenas de uma tragédia natural e humanitária, mas sobretudo política e militar. Recentemente, um terremoto devastou uma grande região da China, deixando 87 mil mortos, segundo as estimativas oficiais. Porque havia e há na China, apesar de sua pobreza ainda grande, um Estado soberano e ativo, foi possível lidar com as conseqüências da tragédia sem permitir a intervenção estrangeira no comando das operações de socorro e reconstrução ou o desembarque de tropas de outros países. A grande tragédia do Haiti foi a destruição progressiva de seu Estado nas últimas décadas, com a dissolução de suas forças armadas e policiais, a precarização de seus serviços públicos e a desorganização e divisão de sua população.



20/1/2010






O suposto atentado ao avião

No cenário mundial existem seis processos de inevitável desfecho em curto prazo: a resolução social da crise econômica mundial (com o seu epicentro nos EUA e na Europa), o ataque militar contra as usinas iranianas, a escalada no Afeganistão com a ocupação militar do Paquistão, as ações militares contra o Sudão, a Somália e o Iêmen, novo conflito armado no Cáucaso ou na Eurásia (como parte do teatro da Guerra Fria EUA-Rússia) e um ataque "terrorista" (ou vários) semelhantes ao 11 de setembro na Europa ou nos EUA. Em todos os casos, o "terrorismo" (uma arma estratégica da guerra de Quarta Geração) irá agir como um gatilho de eventos e unificador dos acontecimentos que se avizinham no teatro de conflitos internacionais para a preservação da ordem imperial regente.

Revendo a imprensa internacional em várias línguas, é unânime a única versão frente ao suposto atentado do qual seria vítima os EUA em 25 de dezembro de 2009, cujo autor, Abdulmutallab Omar Faruk, nigeriano de apenas 23 anos, negou todas as acusações contra ele imputadas.



Esta versão exclusiva do evento explicitou, do ponto de vista dos meios de comunicação, que todos os jornais utilizaram a mesma fonte de informação, essencialmente três agências internacionais de notícias: AFP, EFE, Reuters. A explicação para a versão unânime é de que as agências utilizaram a mesma fonte, as agências de inteligência dos EUA, principalmente a CIA.



Como produzida em um laboratório, a versão do ato está espalhada por todo o mundo e se impôs como critério de verdade, sem qualquer crítica, com uma única fonte. Agora é um dado, sobre o qual as decisões políticas são tomadas. Todos têm aceitado passivamente que um ataque ia ser cometido contra os EUA pelo difuso "terrorismo internacional".



A montagem do "ataque terrorista" frustrado em um avião em Dezembro passado, a reciclagem da ameaça da Al-Qaeda no Iêmen, as denúncias de Obama e dos líderes europeus sobre complôs "terroristas islâmicos" em movimento, as detenções em massa de "suspeitos" nos EUA e na Europa, são partes operativas do lançamento (e aggiornamiento) de uma nova fase da "contra-guerra terrorista" em uma escala global.



A ocupação militar do Iêmen (justificada pela "ameaça da Al Qaeda") é vital para uma projeção de controle sobre o Chifre da África, a chave para o barril de pólvora petroleiro islâmico que as corporações estadunidenses pretendem arrebatar dos seus concorrentes asiáticos, russos e europeus.



Quem serve a este atentado?



O atentado, ou melhor, o suposto atentado, nunca aconteceu. É uma operação da CIA para impor ao presidente Obama o manejo da política internacional com predominância no aspecto militar.



Neste sentido, Bin Laden (que não está claro se está vivo ou morto) e a Al Qaeda são uma carta valiosa que a CIA e os serviços estadunidenses e europeus sempre se reservam para resolver qualquer "saída" imperial (econômica ou militar) que exija um consenso internacional.



Bem utilizada, a ferramenta do "terrorismo" (uma arma que combina a violência militar com a guerra de quarta geração) tem como objetivo principal criar um conflito (ou uma crise) e, em seguida, fornecer a mais favorável solução para os interesses que o império defende.


Isso coloca como protagonista de primeira ordem o complexo militar estadunidense, e tira o protagonismo do chefe de Estado. Obama havia anunciado a diplomacia do diálogo como eixo da política externa dos EUA. Com este suposto ataque, a CIA atualiza um inimigo amorfo, a Al Qaeda, e envia uma mensagem clara para o executivo, sobre o fato de que os EUA, como poder militar, não devem buscar o consenso dos seus interesses estratégicos com ninguém, nem mesmo com a Inglaterra. Não se esqueçam de que a Al Qaeda é uma criação da CIA para lutar contra a presença russa no Afeganistão.



Com isso, voltamos totalmente para a era Bush, que tem uma linha de continuidade com o golpe em Honduras e é complementada pela decisão de enviar reforços ao Afeganistão e ao novo foco de conflito no Iêmen. Cortam-se as asas do Prêmio Nobel da Paz; o executivo está preso no complexo militar estadunidense. O predomínio militar sobre o diplomático para resolver crises enterra definitivamente a ONU e seu conceito de Nações Unidas. Todas as crise de agora em diante, em tempos de recessão e crise financeira do modelo capitalista de produção nos EUA, se resolvem militarmente. Não estamos tentando dizer que não foi assim antes; estamos dizendo que se legitima ainda mais, em especial quando o sionismo de Israel tem de enfrentar o desafio do Irã.



Se Obama expressou dúvidas sobre o apoio a Israel para uma possível solução militar para a crise nuclear com o Irã, este novo cenário alinha Obama na via militar para resolver a crise com o Irã.



Este suposto ataque recauchuta o discurso sobre a segurança e a ameaça terrorista, já anunciado por um porta-voz do Departamento de Defesa: "queremos que todos os nossos aliados tenham acesso às mais recentes tecnologias de segurança." Os scanners nos aeroportos, e todos os sistemas eletrônicos de segurança terão de ser adquiridos por cada país com o tráfego de passageiros em solo estadunidense.



A isso acrescentamos as medidas que restringem a privacidade, que promovem o controle social, a vídeo-vigilância, escutas telefônicas, em última análise, a invasão e o controle social em toda a vida social e privada, que garantem o status quo em vigor.



Além de alimentar um novo ciclo expansivo de lucro para as empresas de armamento e petróleo, serve como um argumento para justificar uma nova escalada no Afeganistão e um quase anunciado desembarque dos EUA no Paquistão, um aliado caótico que Washington necessita controlar em função da sua estratégia no Afeganistão e no resto da região.



Obama se tornou um prisioneiro do aparato tecno-militar estadunidense, Guantánamo não foi fechada em janeiro de 2010, como prometido, e agora não há data de encerramento; pensou-se em uma mudança em relação ao infame bloqueio contra o povo cubano. Nada disso, Cuba está na lista estadunidense de países que patrocinam o terrorismo.



Este cenário é catastrófico para qualquer construção alternativa no mundo.

Especialmente na América Latina a situação se agrava com as sete bases militares estadunidenses em solo colombiano.



Se ainda sem instalar totalmente essas bases já é violado o espaço aéreo venezuelano, imaginem todas as bases em pleno funcionamento.



A lacônica frase de Obama contra a responsabilidade por este suposto atentado "a culpa é minha responsabilidade, eu tenho uma solene responsabilidade de defender o meu país" dá a impressão de que ele já deixou de fato de ser o presidente dos EUA.



Este cenário complexo, mas não difícil de desvendar, impõe aos povos a unidade contra o militarismo, contra o fascismo do capitalismo internacional. Unidade de ação, unidade ideológica, estratégica e tática para defender a humanidade. Essa resistência só os povos do mundo podem fazer, trabalhadores urbanos e rurais, os estudantes, porque o inimigo é um só.



Esta luta político-militar, não podemos esquecer, é também ideológica. De acordo com os interesses imperialistas, são capazes de construir uma "verdade", como inventar um suposto ataque.



No momento em que os EUA decidam atacar as instalações nucleares de Teerã, ou lançar operações militares no Paquistão, África ou no Cáucaso, vão necessitar desesperadamente de um ou mais "atentados terroristas reais" para amenizar a resistência dos aliados e obter um consenso internacional para as novas ocupações.



Precisamente, estas são as principais funções que vem desempenhado o "terrorismo islâmico" (como uma arma de guerra do império), controlada pela CIA desde o 11 de setembro até aqui.


Fonte: LA GILADA


http://primeraguerraglobal.blogspot.com/




segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Paraguai. O Estado de Exceção: lembrança do Estado de Sítio ditatorial


Comunicado a opinião pública nacional e internacional

O Estado de Exceção: lembrança do Estado de Sítio ditatorial



Ante do golpismo e a desestabilização causada pela oposição direitista e terrorista que afeta nosso país, e as repercussões que se vão gerando desde diferentes organizações e atores da política nacional, declaramos o seguinte:

1 - A nossa solidariedade com a família Zavala e as famílias dos companheiros Martín Ocampos, Juan Ramón González, Enrique Brítez, Bienvenido Melgarejo e Andrew Ozuna Grance, camaradas mortos entre 2008 e 2009, totalizando mais de 100 trabalhadores rurais mortos pelos poderes de fato e pelo aparato policial, judicial e burocrático, ainda intactos sob o atual governo.


Além disso, a nossa solidariedade alcança vários compatriotas que foram torturados pela polícia, que é contrária ao projeto e ao processo de mudança impulsionado pelas mobilizações populares.


Sabemos que o problema de fundo é a estrutura socioeconômica e modelo de segurança em vigor no nosso país e, portanto, nós estendemos a nossa voz em protesto contra as injustiças que sofremos como povo.


2 - Nós categoricamente rejeitamos a proposta do Estado de Exceção (Estado de Sítio) formulado por Federico Franco, um dos líderes da conspiração golpista, que violando sua função constitucional como vice-presidente, continua a fazer alianças com setores da história mais negra da política nacional, diretamente envolvidos com a máfia, o tráfico de drogas, o latifúndio e o terrorismo de Estado, a fim de bloquear o processo de mudança e empreender uma sinistra volta ao passado.


Já sem nenhum Estado de Exceção tinham sido cometidos, e continuam a cometer violações das garantias dos nossos compatriotas, principalmente no interior do país, e agora uma medida como a suspensão dos direitos e garantias constitucionais teria graves conseqüências para o movimento popular, que na verdade constitui uma ameaça para toda a oligarquia que se enriqueceu com sangue, fogo, violações e mentiras, quebrando e martirizando a vida de milhares de paraguaios que lutam por um país onde seus filhos possam desenvolver livremente as suas capacidades.


Precisamente, por este último fato é que rejeitamos esta medida: porque sabemos perfeitamente os interesses que estão primando nas cabeças e na política de ordenar e dirigir o trabalho de uma força policial que já está "colombonizada" com o permanente assessoramento de uma instituição terrorista como o Departamento Administrativo de Segurança (DAS) da Colômbia, que por sua vez é orientado pela CIA norte-americana.


3 - Como povo já temos experiência suficiente, com décadas de ditadura, na violenta repressão que a polícia impõe contra as famílias dos trabalhadores rurais organizados, com os trabalhadores e proletários em geral, por isso estamos seguros de que a proposta de um Estado de Exceção serve apenas para aguçar a repressão no campo, decapitando o movimento popular e provocando conflitos entre o nosso povo e as forças de segurança.


4 - A partir do Partido Comunista Paraguaio, acreditamos que podemos e devemos lutar contra os restos do terrorismo de Estado e o terrorismo manipulado pelos poderes da máfia e das lideranças da cúpula policial, fiscal, judicial e burocrática que com a violência irracional de marginais da vida política e social democrática e libertadora.


5 – A segurança, a pacificação e a tranqüilidade do nosso povo só serão alcançadas através do desmantelamento do aparelho de repressão e de terror, com a participação ativa dos movimentos sociais e políticos do campo popular, com a maior transparência e acompanhamento possível de personalidades do DDHH, uma vez que os militantes patrióticos, progressistas e revolucionários não têm nada a esconder e ainda muito a contribuir para o nosso país acabar a máfia, o tráfico de drogas, as grandes propriedades e o terror.


Não ao Estado de Exceção!


Não a colombianização do nosso país!


Pela participação ativa do movimento popular na luta contra todo tipo de terrorismo, em especial contra o terrorismo de Estado!


Comissão Política do Partido Comunista Paraguaio


Asunción, 15 de Janeiro de 2010.