quarta-feira, 16 de junho de 2010

Lutas de classe intensificam-se na Grécia


por Dimitris Fasfalis [*]

Papandreu, o carrasco do povo grego. Cartoon de Latuff Os trabalhadores na Grécia posicionam-se hoje na frente avançada das lutas de classe europeias contra a tentativa do grande capital de fazer o povo trabalhador pagar os custos da sua crise.

Mobilizações contra esta austeridade estão a difundir-se por toda a Europa. Em França, houve greves e manifestações a 27 de Maio e está planeado para 24 de Junho um dia de acções. Em Portugal, 300 mil trabalhadores manifestaram-se nas ruas de Lisboa a 29 de Maio para exprimir a sua rejeição ao plano de austeridade do governo. Em Espanha, funcionários públicos foram às ruas em 2 de Junho. Na Itália, foi realizada uma manifestação nacional em Roma dia 5 de Junho, com greves e outras acções planeadas para 14 de Junho. Na Grã-Bretanha, os sindicatos e organizações de esquerda estão a organizar um dia de manifestações a 22 de Junho. No Roménia, funcionários públicos foram às ruas a 4 de Junho.

A resistência contínua na Grécia mostra aos trabalhadores activistas e militantes da esquerda anti-capitalista que as suas lutas podem abrir novos caminhos de avanço e determinar o resultado da actual crise económica. A mais recentes greve geral de 24 horas na Grécia, efectuada a 20 de Maio, registou um êxito do movimento dos trabalhadores na ultrapassagem da campanha de propaganda dos mass media e das calúnias provenientes do governo PASOK (Movimento Socialista Pan-Helénico). Mais de 50 mil pessoas tomaram as ruas de Atenas e realizaram-se manifestações nos principais centros urbanos do país [1] . Os professores do ensino público tomaram parte maciçamente na manifestação de Atenas. A participação na greve foi muito alta no sector público, mas menor no privado. As principais federações sindicais também organizaram um dia de comícios a 5 de Junho. Este combate está longe de acabado.

A greve geral de 5 de Maio

A greve geral e as manifestações de 5 de Maio foram um êxito esmagador. Lançada pela Confederação Geral dos Trabalhadores da Grécia (GSEE) e pelo sindicato dos empregados do estado (ADEDY), o apelo para cessar o trabalho durante 24 horas foi cumprido maciçamente tanto pelos trabalhadores do sector público como do privado. Foram efectuadas manifestações em todas as principais cidades por toda a Grécia, excepto Larissa. Elas realizaram-se em Tripoli e Patra no Peloponeso, em Ioannina e Igoumenitsa no Épiro, em Herakleion (Creta) e também em Salónica, a metrópole ao Norte da Grécia onde milhares de manifestantes tomaram as ruas.

Bolsa de Valores de Atenas. As maiores manifestações verificaram-se em Atenas. As ruas do centro de Atenas foram tomadas por uma inundação humana de 250 mil cidadãos. A sua composição reflectiu a da classe trabalhadora da metrópole grega em toda a sua diversidade: trabalhadores do sector privado, tais como os dos estaleiros Skaramanga do Pireu, trabalhadores de empresas de serviços públicos e do estado, tais como os da companhia de electricidade (DEI), os professores e os enfermeiros do sistema de saúde pública, desempregados e trabalhadores reformados, imigrantes e trabalhadores não documentados, estudantes da universidade e do secundário. Todas as palavras de ordem vindas das fileiras de manifestantes exprimiram a recusa do povo a pagar os custos da crise capitalista desencadeada pela finança global: "Não à tempestade anti-trabalhadores", "Não à flexibilidade, sim à semana de 35 horas", "Trabalhadores, levantem-se! Eles estão a tomar tudo o que obtivemos", "Nós pagámos os seus lucros, não pagaremos a sua crise" [2] .

Johanna, de 30 anos, manifestou-se para "dizer não ao FMI. Eles querem fazer-nos acreditar que vieram aqui para "resgatar" as finanças do estado, mas não acredito nisso minimamente. Quem aceitaria tal tratamento?"

Um profundo sentimento de injustiça está a guiar os protestos da multidão. Yanni, um professor de 30 anos, explicou ao repórter de l'Humanité:

"Toda a gente sente que não há justiça. O dinheiro está ali mas eles não querem ir buscá-lo... Não vejo outro caminho de saída: eles só nos apresentaram uma opção" [3] .

A causas dos movimento contra o FMI/União Europeia/plano de austeridade do governo do PASOK grego foram explicadas por Ilias Vretakou, vice-presidente do sindicato ADEDY:

"Estamos a enviar de Atenas uma mensagem de luta e resistência para os trabalhadores de todos os países europeus, contra a barbárie dos mercados de capital, do governo e da União Europeia. O governo, o FMI e a União Europeia decidiram levar os trabalhadores, a sociedade grega, para a mais selvagem barbárie social que alguma vez conhecemos. Eles estão a nivelar por baixo os trabalhadores e a sociedade. Estão a roubar os nossos salários, estão a roubar nossas pensões, estão a roubar nossos direitos sociais, estão a roubar nosso direito à vida. Eles estão a impor a lei da selva nas relações de trabalho,... reduzindo a taxa salarial para horas extras. Eles tornaram possível para os patrões despedirem um empregado mais velho e contratarem, com o mesmo dinheiro, três ou quatro jovens trabalhadores em condições precárias" [4]

Este discurso provocou aplauso entusiástico da multidão que havia acabado de apupar o líder do GSEE, Panagopoulos, criticado pelos sindicalistas de base pela relutância de Fevereiro no combate às medidas de austeridade [5] . Dentre outros oradores, Claus Matecki (do sindicato alemão DGB) e Paul Fourier (da CGT francesa) também provocaram aplausos vivos, especialmente quando este último declarou: "Hoje, todos nós somos gregos! Obrigado e boa sorte" [6] .

Dentre as forças políticas da esquerda, a Coligação da Esquerda Radical (SYRIZA) e o Partido Comunista Grego (KKE) participaram maciçamente nos protestos. Os social-democratas (PASOK) não tiveram uma presença organizada, apesar das lutas internas da ala esquerda do partido contra o plano de austeridade implementado pelo governo PASOK.

Muitos dos manifestantes votaram PASOK em Outubro de 2009. Eles agora estão desapontados e irados ao descobrir que a esquerda triunfante que expulsou do governo o corrupto governo de direita de Kostas Karamanlis (Nova Democracia) cedeu, sem qualquer combate, à política neoliberal do capital financeiro. Dimitra, uma reformada residente na região de Atenas, esperava que a vitória do PASOK "faria as coisas melhor". Desapontada, ela está furiosa quando pensa no primeiro-ministro George Papandreu, do PASOK: "Quando penso que votei por idiota!" [7]

A cobertura dos media das manifestações de 5 de Maio centrou-se nos "kukuloforoi", os "mascarados", que atacaram fisicamente símbolos da cultura de mercado e do capitalismo financeiro. O banco Marfin e a rua Stadiu no centro de Atenas foram atacados por cocktails Molotov e queimados. Três empregados do banco perderam as suas vidas no incêndio. Os empregados do Marfin foram obrigados a trabalhar naquele dia apesar do apelo à greve e foram literalmente trancados no banco. Não havia plano para saída de emergência, tornando a sua evacuação ainda mais difícil.

A resposta do movimento dos trabalhadores foi imediata e clara como cristal. Na noite de 5 de Maio, o presidente da ADEDY explicou que estas "práticas fascistas pretendem assustar o povo num momento em que a luta de massa é necessária para travar as medidas que lançam a vidas dos gregos na adversidade" [8] . No dia seguinte, 6 de Maio, uma multidão de luta reuniu-se na Praça Sintagma, em frente ao Bouli (parlamento grego), a fim de denunciar a adopção do plano de austeridade pelos representantes eleitos da Assembleia Nacional [9] .

Este desencadear da violência de rua não deixa de se relacionar com a exasperação para com o governo Papandreu. O plano de austeridade imposto ao povo grego pelos mercados financeiros – as principais instituições financeiras, o FMI e a União Europeia – é uma flagrante negação da soberania nacional e da democracia. Além disso, o governo aguenta-se no chão desde Fevereiro e recusa-se a atender à mensagem das ruas. Ao invés disso, intensifica o autoritarismo do plano de austeridade: desde que foi aprovado pela Assembleia Nacional em 6 de Maio (com os votos dos socialistas PASOK, da Nova Democracia e dos nacionalistas-racistas do LAOS), ele será aplicado através de uma série de ordens do Ministério das Finanças, não deixando qualquer espaço para a interferência parlamentar e limitando os representantes eleitos do povo a uma capacidade consultiva puramente formal.

A falta de legitimidade democrática do plano portanto abre a porta, em alguns componentes mas margens do movimento social, a conceitos de legitimidade da violência de rua (choques com a polícia, queima de vários símbolos da ordem capitalista, etc). O partido da ordem capitalista encabeçado pelo PASOK tem portanto como corolário a violência dos "kukuloforoi" nas mobilizações. Totalmente alheio aos "mascarados", o flagrante impulso autoritário das medidas de austeridade alimenta uma aguda tendência anti-parlamentar dentro de secções do movimento dos trabalhadores. Slogans tais como "Deixe-os queimar!" ou "Entreguem os ladrões ao povo!" foram gritadas várias vezes na manifestação. Dúzias de manifestantes também tentaram cortas as linhas de segurança do Parlamente, até serem violentamente repelidas pelas forças policiais [10] .

Olhar o antes e o após 5 de Maio

As acções de 5 de Maio registaram um êxito porque foram preparadas: a unidade da mobilização em massa não foi uma resposta espontânea, mas antes o resultado de três meses de mobilizações dos sindicatos de trabalhadores. Já em 24 de Fevereiro, o movimento sindical comprometeu-se a combater o anunciado plano de austeridade, negando portanto à classe dominante e seus porta-vozes um monopólio da informação e da política. É precisamente este criticismo, efectuado através de acções nas ruas e lugares de trabalho, os quais permitiram ao movimento social comunicar possíveis cenários diferentes daquele escrito pelo capital financeiro. Portanto, a noção reaccionária e desmobilizadora de que este plano é um mal necessário foi abalada, abrindo o caminho para o contra-ataque popular.

Em 24 de Fevereiro, a primeira greve geral respondeu às medidas de austeridade anunciadas pelo governo. Em Atenas, 45 mil pessoas estiveram nas ruas; em Salónica, havia 10 mil. Na manifestação de Atenas, Dimitri, um engenheiro civil de 28 anos, explicou as razões da mobilização: "Queremos um emprego, salários decentes e um verdadeiro sistema de segurança social. Nosso país tem de respeitar normas da União Europeia que são injustas" [11] . Uma segunda greve geral de 24 horas teve lugar a 11 de Março, juntamente com manifestações nas principais cidades do país.

As greves gerais de 24 horas (24 de Fevereiro, 11 de Março, 5 de Maio e 20 de Maio) foram sem dúvida os exemplos mais visíveis das mobilizações populares contra a austeridade. Mas outras acções, de âmbito mais limitado, desempenharam um papel crucial para elevar a força e assegurar a continuidade do movimento de resistência. Fabrien Perrier, repórter do diário l'Humanité, do PCF, sublinhou a atmosfera de agitação social tomava conta de Atenas no fim de Abril. "Em Atenas, a cada dia, as ruas estão a reflectir os gritos dos manifestantes e a ira de corpos profissionais" [12] .

Muitas destas mobilizações ajudaram a preparar a greve geral. Em 5 de Março, por exemplo, foram efectuadas reuniões em massa em muitas cidades para preparar a greve geral de 11 de Março. A reunião em Volos (uma cidade na costa da Tessália, Norte de Atenas) reuniu não só sindicalistas como também trabalhadores despedidos da METKA, antecedendo um concerto de solidariedade de muitos artistas. Da mesma maneira, o 1º de Maio estimulou as mobilizações de massa antes da greve geral de 5 de Maio. O sindicato dos empregados do estado (ADEDY) apelou à greve de 4 de Maio pela mesma razão. O seu apelo foi seguido e foram efectuadas manifestações naquele dia.

Estas mobilizações limitadas também permitiram ao movimento dos trabalhadores empenhar-se na batalha para ganhar a opinião pública. Muitas acções portanto responderam ao governo a cada volta da crise. Portanto, quando George Papandreu efectuou uma conferência de imprensa a 25 de Abril para anunciar que desencadearia o mecanismo europeu de apoio financeiro, centenas de manifestantes responderam nas ruas do centro de Atenas a gritas: "A luta do povo destruirá a carnificina do FMI" [13] . Dois dias depois, a 27 de Abril, funcionários públicos estavam em greve e professores estavam a acampar na Praça Sintagma, em frente ao Parlamento, para denunciar a hemorragia sofrida pelo sistema público de educação. Nesse meio tempo, o porto de Pireu foi bloqueado por uma greve de 24 horas dos trabalhadores marítimos a seguir ao apelo do seu sindicato, o PNO.

Passo a passo, o que parecia inevitável na cabeça da maioria tornou-se uma questão a ser resolvida pela correlação de forças. Um inquérito de opinião do jornal grego To Vima estimou a proporção daqueles contra a redução de salários em 79,5% da população [14] . Dentro do movimento social, os participantes estão a ganhar confiança e a ideia de que o resultado da luta ainda não está estabelecido ganha terreno. Despina, de 27 anos, não tomou parte nas manifestações de 4 de Maio de empregados públicos. Ela sublinhou contudo ao repórter do Humanité que "aqueles que estão no movimento estão certos: eles entenderam as causas deste movimento. Os funcionários públicos são as primeiras [vítimas directas das medidas de austeridade], mas todos na Grécia vão sofrer. Os sindicatos estão unidos e o governo está começando a abalar" [15] .

Todas as pessoas progressistas saúdam a resistência dos trabalhadores gregos à ditadura do capital financeiro. As mobilizações dos últimos três meses têm sido dignas da herança política da luta contra a junta ditatorial (1967-1974) e da resistência anterior ao fascismo. Muitas questões cruciais ainda estão para serem resolvidas.

Antes de mais nada, a estratégia seguida pela liderança sindical está aberta ao questionamento. Face a um governo que se recusa a atender aos protestos do povo nas ruas e além disso obriga o parlamento a aplicar medidas ditadas pelos grandes negócios, não haverá um risco de que repetidas greves de 24 horas acabassem por ser a prova da impotência do movimento para alterar o curso dos acontecimentos? O movimento dos trabalhadores em França sofreu um retrocesso desmoralizante na Primavera do ano passado após três rodadas de greves gerais de 24 horas. O desenlace dos acontecimentos ainda não está decidido na Grécia.

Mas o tempo poderia estar do lado dos trabalhadores, desde que os seus líderes tenham a coragem necessária. Até quando, por exemplo, poderia o governo PASOK e seus parceiros europeu aguentar-se face a uma greve geral ilimitada dirigida por assembleias-gerais do movimento de massa?

Uma segunda questão relaciona-se com a estrutura organizativa do movimento social. Será ela capaz de unir-se numa vou ou plataforma única? Será capaz de estabelecer um órgão democrático e unificado que fale pelos seus diferentes componentes nas ruas e assegure controle autónomo das suas mobilizações?

Estas questões parecem cruciais uma vez que determinarão durante os próximos meses o êxito ou o fracasso da tentativa dos trabalhadores de dar nascimento a novas possibilidade e portanto repelir a fatalidade da barbárie neoliberal. As apostas são altas: o futuro imediato do estado social está a ser decidido hoje nas ruas de Atenas.

Notas
1. Ver "Grèce, après la grève" by Andreas Sartzekis.
2. Avgi, May 6.
3. L'Humanité, May 6.
4. Avgi, May 6.
5. A primeira greve contra as medidas de austeridade foi lançada pela ADEDY dos empregados do estado em 11 de Fevereiro, ao passo que as lideranças de topo do GSEE recusaram-se a aderir argumentando que os interesses dos trabalhadores do sector privado não eram postos em perigo pelos anúncios do governo. É útil sublinhar que Panagopoulos é membro do Movimento Socialista Pan-helénico (PASOK) encabeçado pelo primeiro-ministro George Papandreu. Face à crescente pressão das bases, os líderes do GSEE alinharam com a ADEY a 24 de Fevereiro durante a primeira greve geral de 24 horas. L'Humanité, May 6.
6. L'Humanité, May 6.
7. L'Humanité, May 11.
8. Avgi, May 6.
9. Avgi, May 7.
10. Avgi, May 6.
11. L'Humanité, February 25.
12. L'Humanité, April 27.
13. Avgi, April 25.
14. L'Humanité, May 5.
15. L'Humanité, May 5.


[*] Natural de Quebec, vive em Paris. Uma versão anterior deste artigo foi publicada em francês com o título "La résistance sociale en Grèce: bilan et perspectives".

O original encontra-se em http://www.socialistproject.ca/bullet/366.php

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .


domingo, 13 de junho de 2010

Sobre o acordo nuclear Irã – Brasil – Turquia (NOTA POLÍTICA DO PCB)




A ação do governo Lula nas negociações com o governo do Irã visando a assinatura de um acordo para o enriquecimento do urânio iraniano na Turquia – um acordo que apresenta um saldo positivo, ao evitar a guerra e acumular no processo de consolidação de um polo alternativo aos Estados Unidos na esfera internacional – obedece aos interesses da burguesia brasileira, que segue, hoje, cada vez mais, no rumo da integração ao capitalismo internacional. Este movimento de expansão para o exterior exige tanto a internacionalização dos grandes grupos econômicos brasileiros quanto a busca de novos mercados (e o Irã oferece, sem dúvida, boas oportunidades de negócios). Assim, o fortalecimento da posição brasileira no cenário político internacional, sintetizado no esforço do país em firmar-se como potência média, capaz de ocupar uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU é, simultaneamente, razão e consequência destes elementos.

No entanto, ao mesmo tempo, não é de interesse nem dos grupos econômicos de base brasileira (em fase de internacionalização) nem dos grupos estrangeiros que atuam no Brasil qualquer rompimento com os Estados Unidos, que, embora combalidos economicamente, seguem como a maior economia do mundo. Os EUA possuem ainda o maior mercado importador e controlam o dólar, a principal moeda de reserva e referência para as trocas internacionais. Além do mais, como fator mais importante, dispõem do maior poderio militar do planeta.

Assim, o governo brasileiro segue representando muito bem os interesses burgueses ao manter a tradição pragmática do Itamaraty, de oscilar entre o alinhamento automático com os Estados Unidos e a busca por autonomia. É interessante lembrar, por exemplo, que, em pleno governo militar (sob o regime da ditadura empresarial-militar implantada pelo golpe de 1964, executado com apoio dos EUA), no final dos anos 70, em um momento de grande entrada de investimentos americanos no Brasil, o governo Geisel reconheceu a independência de Angola e rompeu acordo militar com os Estados Unidos.

A comprovação do caráter aparentemente ambíguo desta movimentação internacional do governo Lula é que, ao mesmo tempo em que fortalece o regime de Ahmajinejad, contrariando diretamente interesses dos EUA na região – dado o caráter antiamericano e anti-Israel do regime iraniano –, assim como contribui para o enfraquecimento do próprio papel dos EUA na esfera política mundial e para o fortalecimento de um pólo alternativo aos EUA de influência política internacional, o Brasil firma um novo acordo de cooperação militar com os Estados Unidos, na esfera da segurança, com o estabelecimento de um "escritório" para a atuação de agentes daquele país no Brasil.

De igual modo, Lula silencia sobre a política externa de Obama para a América Latina, centrada na intimidação mediante a instalação de bases militares em diversos pontos – como na Colômbia – e pela reativação da IV Frota no Atlântico Sul. Mais ainda, o Brasil vem patrocinando a proposta de Tratado de Livre Comércio entre Israel – país aliado incondicional dos EUA – e o Mercosul.

A carta de Obama a Lula, reconhecendo o esforço da diplomacia brasileira, indica o reconhecimento da presença crescente do Brasil na cena política internacional. No entanto, a reação estadunidense ao acordo trilateral, com o anúncio da intenção de manter a ameaça de estabelecimento de sanções econômicas, ações militares e pressões internacionais contra o Irã busca neutralizar essa voz contrária à política belicista dos EUA e a soberania de dois novos atores que repercutem a maioria da comunidade internacional, ou seja, a quase totalidade dos países que compõem a ONU e querem o diálogo e a negociação no caso da política nuclear do Irã.

Um outro aspecto a ser levado em conta é que esta ação - ao tentar consolidar uma imagem de pragmatismo e independência do Brasil nas relações internacionais e projetar o país como ator influente e soberano no plano mundial – também é funcional à campanha da candidata de Lula, junto a importantes parcelas do eleitorado.

O PCB, portanto, não é indiferente ao acordo firmado e considera que ele representa um fato positivo na tentativa de evitar a invasão do Irã pelas forças imperialistas estadunidenses, sob o argumento, semelhante ao antes utilizado para atacar o Iraque, de que o governo iraniano estaria desenvolvendo a energia nuclear para a guerra. Tal reconhecimento, no entanto, não pode esconder a análise de fundo sobre a atual política externa do governo brasileiro, extremamente pragmática no que tange a proteger e garantir a expansão dos interesses econômicos do grande empresariado brasileiro no mundo.

PCB – Partido Comunista Brasileiro

Comissão Política Nacional

Junho de 2010

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Partido Comunista Brasileiro – Fundado em 25 de Março de 1922

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Da censura à arte: as fotos do PCB

Da censura à arte: fotos do artista Ruy Santos são tema de exposição no Rio


Danielle Kiffer

Ruy Santos

Mais de 80 mil pessoas no estádio do Pacaembu: o fotógrafo
aproveitava a incidência da luz para formar imagens geométricas

Mais de 80 mil pessoas lotaram o estádio do Pacaembu, em São Paulo, em 15 de julho de 1945. E não foi para assistir a uma partida de futebol. O grande público se reuniu para presenciar o emocionado discurso de Luiz Carlos Prestes, que se pronunciava pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), pela segunda vez em público, após nove anos de prisão durante o governo de Getúlio Vargas. O poeta Pablo Neruda, senador pelo Partido Comunista chileno, veio ao Brasil especialmente para o comício e aproveitou a ocasião para ler o poema Mensagem, escrito em homenagem a Prestes. O momento, tão importante para a democracia brasileira, foi captado pelas lentes do fotógrafo e cineasta Ruy Santos.
São fotos desse acontecimento, mais alguns portraits de personalidades, como o pintor Portinari e o jornalista Samuel Wainer, e vários documentos que relatam a época de sua prisão, além de filmes dirigidos por ele, que compõem a exposição Ruy Santos: Imagens Apreendidas, em cartaz no gabinete de fotografia do Centro Cultural de Justiça Federal, no Centro do Rio, até o dia 13 de junho, com entrada gratuita. A mostra faz parte do projeto de pós-doutorado recém-doutor da pesquisadora Teresa Bastos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), intitulado "Fotografia e comunismo: imagens da polícia política no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (Aperj)", apoiado pela FAPERJ. As fotos e vários trabalhos de Ruy Santos foram apreendidos por ocasião da prisão do fotógrafo, em 1948. Paradoxalmente, embora tenha destruído uma parte do material, a polícia política brasileira acabou por se tornar a maior guardiã desse acervo.

Ruy Santos
O poeta chileno Pablo Neruda (centro) veio especialmente
ao Brasil para participar do comício de Luiz Carlos Prestes

Das 45 fotografias que restaram do comício de 1945, 17 estão presentes na exposição. Teresa fez uma seleção a partir do que mais representava a marca registrada de Ruy Santos: colocar o povo como protagonista da imagem e a qualidade estética. "Sua principal característica é a forma como lidava com a luz em suas fotografias. A plasticidade das imagens captadas por ele é construída com linhas definidas e, principalmente, por um jogo de luzes, com claro-escuro acentuado e um controle de luz na tentativa de potencializar a cena com fortes traços geométricos", explica a pesquisadora. Ela acrescenta ainda: "Nas fotos, o povo aparece em evidência, seja ouvindo os discursos, seja segurando faixas, mas sempre como sujeito/objeto das imagens. É sua forma de evidenciar, em elementos visuais, sua importância naquele momento da história." Sob as lentes de Ruy Santos, a multidão aparece enquadrada, registra-se a profusão de faixas onde se lê "O povo quer eleições". "De abstrato e anônimo, o povo tem o rosto, desfila, espera e lê a Tribuna Popular, enquanto aguarda o discurso dos líderes", prossegue.
Além de retratar um momento importante de manifestação popular, as fotos revelam um período muito específico da história, em que o PCB esteve na legalidade, pôde se comunicar e mostrar seus principais representantes. "Para a polícia política aquele acontecimento foi ótimo, pois todas as lideranças e personalidades filliadas ao partido saíram finalmente 'da toca'. Assim, os inimigos vermelhos, como eram chamados os comunistas na época Vargas, puderam ser identificados e posteriormente presos."
Encontros Possíveis

Para Teresa, no entanto, o principal atrativo da exposição não é o fato histórico em si, mas a construção que se faz dele. "A mostra tem um olhar especial e propõe aos visitantes um encontro diferente. Pretendemos instigar encontros possíveis através dos arquivos. Se invertermos a maneira de olhar e colocarmos o arquivo em primeiro plano, interpondo-se sobre o real imaginado do passado, ele pode criar tempos e construir contextos. Desta maneira, as imagens deixam de nos impor uma memória do passado para se tornarem recortes do tempo", analisa.

Teresa tem observado que as fotografias quase nunca são protagonistas de pesquisas, mas sim um complemento, uma ilustração do que se está escrito. "Como sou pesquisadora e professora de fotografia, meu olhar se volta para as imagens e sua história, e a narrativa se constrói a partir delas."


Ruy Santos

Portrait de Samuel Wainer: uma das
personalidades fotografadas por Santos

Da exposição, além do jornal Diário Carioca, de 28 de abril de 1948, que traz a notícia da prisão de Ruy Santos, uma vitrine expõe a carta escrita por um delegado da Divisão de Polícia Política e Social (DPS), que, segundo Teresa, representa uma prova do envio do roteiro do documentário Vinte e quatro anos de luta: como se formou o Partido Comunista do Brasil para a censura, de onde nunca mais retornou. Há ainda um artigo assinado por Jorge Amado, datado de 23 de agosto de 1946, no qual o escritor baiano enaltece o documentário, dizendo que "o filme é uma afirmação do bom cinema, de arte cinematográfica, verdadeira, colocada a serviço do povo. Arte revolucionária, para usar uma expressão que muitos querem esquecer". Com o documentário, no qual Luiz Carlos Prestes foi filmado ainda na cadeia, o fotógrafo recebeu convite para representar o Brasil como membro efetivo da diretoria da União Mundial dos Documentaristas, em Praga, Tchecoslováquia.
De acordo com a pesquisadora, poucos sabem que Ruy Santos é considerado um dos maiores diretores de fotografia do cinema brasileiro. Para conhecer um pouco mais sobre o artista, a exposição também incluiu uma mostra de filmes, seguida de debates, com participação de Hernani Heffener, pesquisador de cinema e conservador chefe da cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM), José Carlos Monteiro, crítico e professor do Departamento de Cinema e Vídeo, da Universidade Federal Fluminense (UFF), entre outros.

Ruy Santos: vida e obra

Ruy Borges dos Santos nasceu em 11 de agosto de 1916, no Rio de Janeiro, onde passou grande parte de sua vida. Na adolescência, apaixonado por cinema, conquistou seu primeiro cargo no mundo que tanto o fascinava, como laboratorista de Paulo Benedetti, um dos mais importantes cinegrafistas e técnicos de laboratório do cinema brasileiro. Em 1939, Ruy passou a trabalhar no Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do governo Getúlio Vargas. E, na década de 1940, o fotógrafo ingressou no Partido Comunista Brasileiro (PCB), onde desempenhou a função de fotógrafo, cineasta e militante.


Divulgação

O fotógrafo e cineasta Ruy Santos testa seu fotômetro


O que parece um pouco controverso – o fato de Ruy Santos ter trabalhado no DIP e logo depois ingressar no PCB –, na realidade, como conta Teresa, era um tanto comum, pois o DIP representava uma possibilidade de se trabalhar com cultura e adquirir experiência na área. "Ruy atribui sua veia documental à passagem pelo DIP, onde aprendeu e experimentou muito como fotógrafo. Posteriormente, utilizou toda essa experiência no Partido Comunista Brasileiro", diz.

Em sua incursão pelo cinema, além de documentários, Ruy Santos dirigiu, produziu, escreveu roteiros e fez a fotografia de filmes de ficção. Ele se tornou um dos principais diretores de fotografia do cinema nacional, além de desempenhar funções de câmera. Dentre os filmes que fotografou, destacam-se O malandro e a granfina (1947); Estrela da manhã (1848-1950, também como roteirista) e O vampiro de Copacabana (1975).

Sua prisão aconteceu em 1948, ano seguinte à entrada do PCB novamente na ilegalidade, em 1947. Ruy Santos foi preso pela polícia política brasileira "para averiguações" e grande parte do seu acervo foi apreendida. O artista, que reúne em sua bagagem uma centena de filmes entre curtas, médias e longas das mais variadas propostas, morreu em 7 de março de 1989 em Cabo Frio, no Rio de Janeiro.
A pesquisadora Teresa Bastos pretende dar continuidade à pesquisa. Para ela, o próximo passo é recuperar os filmes que ainda estão dispersos e analisar a condição das películas. "Este é um projeto que acredito ser muito importante. Grande parte das obras de Ruy Santos está dispersa. Pretendo conseguir, num âmbito de projeto maior, recuperá-las e colocá-las à disposição do público, e, com isso, contribuir para que o trabalho de Ruy Santos seja conhecido e apreciado", finaliza.
Para mais informações sobre a exposição, acesse: http://pesquisafotografica.blogspot.com/2010/05/ruy-santos-imagens-apreendidas-ate-13.html

© FAPERJ – Todas as matérias poderão ser reproduzidas, desde que citada a fonte.

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Partido Comunista Brasileiro – Fundado em 25 de Março de 1922

VITÓRIA DO OPERARIADO FRIBURGUENSE!

Depois de quase quinze dias parados, operárias e operários da Fábrica Filó, filial da multinacional Triumph International em Nova Friburgo (Rio de Janeiro), terminaram a greve no dia de ontem (09/06), tendo arrancado dos patrões importantes conquistas: reajuste de 16% (dezesseis por cento) nos salários, cesta básica, não desconto dos dias parados e o compromisso assinado de que, caso haja, da parte do Governo do Estado, vontade política para fazer valer o salário mínimo estadual de R$ 603,00, a empresa irá cumpri-lo. O piso salarial da fábrica (que negocia em separado com o Sindicato de Trabalhadores e não participa das negociações em torno do Acordo Coletivo e recusou-se a conceder reajuste no ano passado) ficou em R$ 560,00, um ganho razoável em relação ao piso anterior, de R$ 485,00.

Mais importante do que o ganho material – sem, entretanto, desprezar o significado deste reajuste nas mesas e casas das famílias que dependem dos empregos e salários – é destacar a enorme conquista para a organização e o salto de consciência do grupo de trabalhadores que encarou de forma corajosa as ameaças dos patrões, mantendo a greve até a negociação final satisfatória. A greve representou um marco na história da classe trabalhadora friburguense, que amarga há décadas o refluxo do movimento operário e sindical. As lutas mais significativas dos tempos mais recentes foram a greve dos operários da Fábrica de Rendas Arp (anos 1980), a ocupação da Fábrica metalúrgica Haga (anos 1990) e a também ocupação da Eletromecânica, no início deste século. As duas últimas mobilizações, no entanto, resultaram, depois de arrefecido o movimento, em ascensão de grupos com mentalidade capitalista à frente das empresas ocupadas.

A luta das trabalhadoras e trabalhadores da Filó tem um grande significado neste momento histórico, em que a classe trabalhadora brasileira encontra-se ainda tão dividida por conta dos imperativos do capitalismo contemporâneo e seu processo violento de expropriações (aumento vertiginoso da extração da mais-valia, ampliação da jornada de trabalho, fragmentação das unidades fabris, cooptação ideológica dos trabalhadores para o projeto individualista e consumista, etc). Para as imensas dificuldades de enfrentamento à lógica do capital e aos reflexos da crise econômica mundial, muito contribui a postura de acomodação de setores majoritários do sindicalismo (à frente a CUT e a CTB, que hoje, nacionalmente, pouco diferem da Força Sindical) diante do fenômeno da "globalização" e das ações emblemáticas do governo Lula, que se apresenta como protagonista de um capitalismo "humano", colaborando, na verdade, para o avanço vertiginoso das relações capitalistas no Brasil e da presença destacada do país no âmbito internacional, como uma nova potência a disputar seu espaço no interior do imperialismo.

Ao longo destes dias de greve, além da comprovada unidade posta em prática pelas operárias e operários da Filó, com a firme condução do Sindicato de Trabalhadores no Vestuário (por sinal, dirigido por companheiros ligados ao PT e à CUT – o que prova a heterogeneidade do movimento político e sindical brasileiro), vale ressaltar também a mobilização dos demais sindicatos de trabalhadores de Friburgo e sua solidariedade ativa ao movimento: metalúrgicos, têxteis, hoteleiros, professores (das redes pública e particular), trabalhadores da saúde, químicos estiveram na porta de fábrica no dia a dia dos piquetes. Outros sindicalistas colocaram sua estrutura material à disposição da luta. Também os militantes dos partidos de trabalhadores se solidarizaram, como o PT, o PSOL, o PCB e o PSTU, assim como ativistas da Intersindical e da Conlutas.

Avançar na organização da classe trabalhadora friburguense (e de todo o país) continua a ser o grande desafio de todos nós, que desejamos a superação revolucionária do capitalismo. Mas a vitoriosa luta encampada pelo operariado da mais importante fábrica do setor de vestuário de Friburgo (em que pese hoje ocupando posição de menor destaque na economia da cidade, com um número bem reduzido de trabalhadores em relação ao passado) serve de exemplo para os trabalhadores em geral, demonstrando uma vez mais que somente através do enfrentamento ao capital e da organização se obtêm conquistas. Sinaliza também, para setores de vanguarda do movimento sindical brasileiro, que tentam a todo custo a criação açodada e de cima para baixo de uma nova "central sindical", que a unidade se faz na luta e com a participação efetiva dos trabalhadores e das trabalhadoras.

A luta continua. Avançar na organização da classe trabalhadora para novas conquistas!

Ricardo Costa (Rico) – Secretário de Organização da Base Francisco Bravo (PCB de Nova Friburgo) / Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro



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quarta-feira, 2 de junho de 2010

REPÚDIO INDIGNADO A MAIS UMA COVARDE E DESUMANA AGRESSÃO SIONISTA - Nota do PCB



(Nota Política do PCB)

O Partido Comunista Brasileiro (PCB) manifesta seu repúdio e indignação diante do covarde ataque cometido por agentes do Estado terrorista de Israel, que agiram como verdadeiros piratas modernos contra a flotilha humanitária que levava remédios e suprimentos para a população bloqueada da Faixa de Gaza.

Trata-se de uma ação desumana e bárbara contra civis pacifistas, desarmados, realizada em águas internacionais, com o uso de barcos de guerra, forças especiais, helicópteros e armas pesadas. Foram assassinados cruelmente mais de 15 pacifistas e cerca de cinco dezenas ficaram feridos.

Este escandaloso massacre realizado pelos piratas israelenses faz parte da ofensiva sionista para calar todas as forças progressistas do mundo que clamam por uma paz justa na região e pela formação do Estado Palestino, livre e soberano. Além de uma violação ao direito internacional, esta agressão demonstra claramente para o mundo os métodos brutais com que o governo israelense trata não só os palestinos, mas todos os povos que se opõem à sua política de opressão na região. A impunidade de Israel é garantida por sua aliança com o imperialismo, sobretudo o norte-americano.

O Partido Comunista Brasileiro, coerente com sua ação internacionalista em defesa da liberdade dos povos, envia suas condolências às famílias dos pacifistas assassinados nessa ação selvagem, ao mesmo tempo em que manifesta sua profunda admiração por todos os pacifistas da Frotilha da Liberdade que, mesmo arriscando a própria vida, tiveram a coragem de expor ao mundo as atrocidades do bloqueio israelense por terra, mar e ar ao povo palestino na Faixa de Gaza.

Diante dessa barbaridade que envergonha o mundo, o Partido Comunista Brasileiro soma-se às forças progressistas que vêm emprestando irrestrita solidariedade ao povo palestino e dirige-se ao governo brasileiro no sentido de que rompa imediatamente todas as relações comerciais com Israel, expulse seu embaixador do Brasil e realize uma ação firme na ONU contra mais essa barbaridade cometida pelas forças sionistas.

Secretariado Nacional do PCB

31 de maio de 2010.

Delegação do PCB visita Cuba e Venezuela




DELEGAÇÃO DO PCB VISITA CUBA E VENEZUELA

Na segunda quinzena de maio, esteve na Venezuela e em Cuba uma delegação do Comitê Central do PCB, composta por Ivan Pinheiro e Ricardo Costa, ambos da Comissão Política Nacional do Partido.

Na Venezuela, os camaradas se reuniram com o Burô Político do PCV (Partido Comunista de Venezuela), quando passaram em revista a conjuntura internacional e em especial da América Latina. Estabeleceram-se acordos com vistas ao estreitamento das relações bilaterais entre os dois Partidos em diversos temas e para o fortalecimento e a unidade do movimento comunista internacional, nos marcos do internacionalismo proletário.

Em Caracas, o Secretário Geral do PCB, Ivan Pinheiro, deu uma concorrida entrevista coletiva para jornais e emissoras de rádio e televisão.

Ainda na Venezuela, a delegação do PCB manteve reunião com a direção do MCB (Movimento Continental Bolivariano), organização latino-americana criada em dezembro de 2009, da qual o PCB é fundador. O MCB tem como objetivo articular as organizações políticas e sociais revolucionárias da América Latina. Os dirigentes do MCB informaram que Ivan Pinheiro, Secretário Geral do PCB, foi integrado à Presidência Coletiva do movimento, cuja sede é em Caracas. Reafirmou-se o compromisso do PCB de divulgar no Brasil as iniciativas do MCB e de participar ativamente das lutas antiimperialistas na América Latina.

Já em Cuba, a delegação do PCB cumpriu uma agenda de cinco dias, na qual se destacaram reuniões, na sede nacional do PCC, com diversas áreas de relações internacionais do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, numa intensa troca de pontos de vista sobre a conjuntura mundial. A delegação do PCB, em todos os momentos, expressou a solidariedade militante do Partido à Revolução Socialista Cubana, diante da continuidade do cruel bloqueio a Cuba e da ofensiva midiática, política e econômica que lhe move o imperialismo. Estreitaram-se os laços de amizade e colaboração entre os dois Partidos.

A delegação do PCB foi recebida na Assembléia Nacional de Cuba, pelo Deputado que preside a Comissão de Relações Internacionais, onde conheceu com detalhes a verdadeira democracia direta e popular existente na Ilha Rebelde. Um dia da agenda foi dedicado a uma visita a Santa Clara, onde uma delegação do Comitê Provincial (estadual) do PCC levou nossos camaradas a conhecerem o Memorial de Chê Guevara e outros locais marcantes da vitória revolucionária no final dos anos cinquenta.

Outro ponto alto da estada em Havana foi a visita que a delegação do PCB fez à ELAM (Escola Latino Americana de Medicina), onde jovens do mundo inteiro estudam, a maioria de países periféricos e emergentes, indicados por partidos e movimentos sociais solidários a Cuba. O país do Caribe tem uma enorme tradição na formação de médicos que, além de competentes, invariavelmente seguem pela vida inspirados pelo internacionalismo proletário. Os delegados do PCB fizeram uma palestra sobre as resoluções do XIV Congresso Nacional do PCB para uma grande platéia de estudantes de toda a América Latina. A base de jovens comunistas do PCB, lá organizados como UJC (União da Juventude Comunista) é um exemplo de organização e militância política na instituição, mantendo uma publicação mensal (Avante) e promovendo diversas atividades.

Dentro em breve, divulgaremos um texto que está sendo elaborado pelo camarada Ricardo Costa, tratando da situação atual de Cuba frente ao bloqueio e à ofensiva imperialista, as possibilidades e o alcance das mudanças em debate na Ilha e, principalmente, a democracia cubana, ampla, participativa e protagônica. Todos os informes da delegação do PCB, com base nos diversificados contatos realizados, indicam que o povo cubano honrará mais uma vez sua histórica tradição de superar dificuldades e que serão mantidas e ampliadas todas as grandes conquistas da Revolução Cubana, que se transformaram em direitos constitucionais: emprego, igualdade de oportunidades, saúde e educação gratuitas e de qualidade para todos.

O saldo da viagem foi altamente positivo e houve um grande consenso em todos os contatos mantidos: o aprofundamento da crise sistêmica do capitalismo exige de todos os revolucionários o reforço da luta e da unidade de ação, mos marcos do internacionalismo proletário.

Secretariado Nacional do PCB

Junho de 2010

Fotos:

1 – UJC (Brasil) em Cuba;

2 – Entrevista coletiva em Caracas;

3 – Presença em Cuba










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segunda-feira, 31 de maio de 2010

USAID investe mais de 2,3 milhões de dólares em propaganda contra Cuba na net

Eva Golinger
O sistema capitalista tem uma enorme capacidade de regeneração que lhe prolongou a vida até a fase senil que nos atormenta. Neste texto, Eva Golinger denuncia que muito da campanha contra Cuba, hoje mais persistentemente e continuadamente violenta que nunca se alimenta da formatação das consciências que a campanha mediática do imperialismo possibilita. Para isso ela serviu-se de documentos secretos recentemente desclassificados. Dir-se-á que os documentos foram desclassificados. Mas a questão da formatação das consciências mantém-se: quem viu qualquer referência aos documentos nos meios de comunicação de massas, em todo o mundo dominados pelo grande capital?

Documentos recentemente desclassificados ao abrigo da Lei de Acesso à Informação (FOIA na sua sigla inglesa), evidenciam que a USAID investiu, desde 1999, mais de 2,3 milhões de dólares para disseminar a propaganda suja contra Cuba e financiamento de jornalistas dentro da ilha.

Os documentos, que incluem os contratos originais entre a USAID e a organização CubaNet demonstram um padrão de financiamento que aumenta e intensifica anualmente o seu esforço de promoção de informação distorcida sobre Cuba, tudo com a intenção de provocar uma «transição para a democracia», ou uma «mudança de regime» na ilha caribenha.

Desde há cinquenta anos que Washington está a fazer uma guerra suja contra Cuba. Um componente dessa agressão foi a utilização dos meios de comunicação para manipular e distorcer a realidade cubana perante a opinião pública internacional e, ao mesmo tempo, infiltrar e disseminar informação falsa dentro de Cuba.

Depois dos fracassos da Rádio e TV Martí, que ainda existem e recebem apoios financeiros de Washington apesar da sua inutilidade, um novo campo de agressão contra Cuba foi criada utilizando a internet. Em 1994, CubaNet estabeleceu-se como uma das primeiras páginas Web feitas para fazer propaganda contra a Revolução Cubana na internet. Sediada em Miami, CubaNet utiliza o dinheiro da USAUID e da National Endowment for Democracy (NED), de quem recebe multimilionárias contribuições para financiamento de «jornalistas» dentro de Cuba, e promover a campanha mediática internacional contra o governo cubano.

Apesar de não serem secretos o financiamento e as directrizes que CubaNet recebe das agências de Washington, os documentos recentemente desclassificados da USAID demonstram a estreita relação de controlo que as agências estadunidenses mantêm sobre a organização da propaganda.

Quando se fez o contrato entre a USAID e a CubaNet em 1999, o montante inicial de Washington previsto para o esforço de propaganda via internet era de 98.000 dólares. Esse dinheiro estava destinado a «apoiar um programa para a expansão de um Web sítio para jornalistas independentes dentro de Cuba». O contrato era de um ano, com a possibilidade de prolongamento pelo tempo necessário para a execução do programa. O encarregado do programa da USAID era David Mutchler, assessor principal da USAID para Cuba.

O contrato previa um relatório sobre o progresso da execução do programa trimestral a entregar à USAID, e um relatório anual, que detalhava todo o trabalho realizado no período anterior.

Quem manda é a USAID

Na cláusula 1.6 do contrato entre a USAID e a CubaNet, intitulado «Entendimentos principais da participação», sobressai o controlo mantido pela agência estadunidense sobre a organização de Miami. «Entende-se e acorda-se que a USAID manterá uma participação determinante durante a execução deste acordo de cooperação da seguinte forma: Pessoal Chave: o assessor principal da USAID para Cuba aprovará antecipadamente a selecção de qualquer pessoas chave e os seus subalternos. Planos de monitorização e Avaliação: o assessor principal da USAID para Cuba aprovará os planos para avaliar e monitorizar o progresso dos objectivos do programa durante o decurso do acordo de cooperação».

Basicamente, o funcionário da USAID é quem decide quem trabalhará no projecto CubaNet, qual o seu plano de trabalho e como se avaliará o seu progresso; por outras palavras, é quem manda na CubaNet.

Violação das leis dos EUA

Nos documentos que alteram o contrato original, que são 11 entre 2000 e 2007, fica demonstrado o aumento do financiamento anual do projecto CubaNet e revelam-se outros dados sobre a natureza do programa. Num documento de 19 de Abril de 2005 autorizou-se o envio de «fundos privados» para Cuba que não provinham da USAID ou de qualquer outra agência estadunidense, para «avançar com os objectivos do Acordo». Devido às restrições que o Departamento de Estado mantém sobre o envio de dólares estadunidenses para Cuba, os «fundos privados», segundo o documento da USAID, seriam escondidos dentro da autorização que já tinha a agência norte-americana para financiar o programa CubaNet.

O mesmo documento também revela que a CubaNet não só faz o seu trabalho dentro de Cuba, como também «continua a publicar reportagens… e a promover a sua distribuição nos meios massivos dos EUA e na imprensa internacional». Nos EUA é legalmente proibido distribuir propaganda financiada pelo governo estadunidense e utilizá-la como «informação» nos meios de comunicação. Não obstante, os documentos desclassificados evidenciam que a USAID está a violar totalmente essa lei.

Cada vez mais dólares

Os documentos mostram ainda que, anualmente, a USAID aumentava o seu financiamento a CubaNet para continuar os seus esforços de distribuir propaganda contra Cuba. Eis os montantes:

Ano de 1999: 98.000 dólares
Ano de 2000: 245.000 dólares
Ano de 2001: 260.000 dólares
Ano de 2002: 230.000 dólares
Ano de 2003: 500.000 dólares
Ano de 2005: 330.000 dólares
Ano de 2006: 300.000 dólares
Ano de 2007: 360.000 dólares

Total: 2, 323 milhões de dólares.

A campanha de agressão contra Cuba é hoje mais intensa que nunca, e este ano de 2010 a USAID dispõe de um orçamento de mais de 20 milhões de dólares para financiamento de grupos dentro de Cuba que promovem a agenda dos Washington. CubaNet continua a ser um dos principais actores na guerra suja contra Cuba.

Eis agora alguns dos documentos desclassificados disponíveis em PDF:

• Contrato original USAID-CubaNet:
http://centrodealerta.org/documentos_desclasificados/usaid_contract-_cubanet_199.pdf
• Alteração do Contrato USAID-CubaNet, año 2005:
http://centrodealerta.org/documentos_desclasificados/usaid-cubanet_modification_.pdf
• Alteração do Contrato USAID-CubaNet, año 2007:
http://centrodealerta.org/documentos_desclasificados/usaid-cubanet_2007_addendum.pdf

* Eva Golinger é advogada e escritora norte-americana de origem venezuelana

Este texto foi publicado em:
www.telesurtv.net/noticias/contexto/1955/usaid-invierte-mas-de-$23-millones-en-propaganda-contra-cuba-por-internet/

Tradução de José Paulo Gascão




domingo, 30 de maio de 2010

"Ser atacado pelo inimigo é uma boa e não má coisa"



"No que nos diz respeito, quer se trate de um indivíduo, um partido, um exército ou uma escola, julgo que a ausência de ataques do inimigo contra nós é má, porque significa, necessariamente que fazemos causa comum com o inimigo. Se somos atacados pelo inimigo, é bom, porque isto prova que traçamos uma linha de demarcação bem nítida, entre o inimigo e nós. E se ele nos ataca com violência, pintando-nos nas cores negras de denegrindo tudo quanto fazemos, melhor, porque isto prova não só que estabelecemos uma linha de demarcação nítida entre o inimigo e nós, mas ainda que conquistamos êxitos em nosso trabalho."

Mao Tsé Tung

Reflexões de um comunista italiano sobre o KKE (Partido Comunista Grego)




No dia 2 de julho de 2006, milhares de membros e simpatizantes do Partido Comunista da Grécia (KKE) e da Juventude Comunista da Grécia (KNE) reuniram-se na cidade de Likorakhi, situada no coração da cadeia de montanhas Grammos, para participar da cerimônia de inauguração de um memorial em comemoração aos 60 anos da fundação da Armada Democrática da Grécia (ADG) e homenagear os milhares de militantes que sacrificaram suas vidas em três anos de guerra civil (1946-1949), na luta contra a reação local e o imperialismo anglo-americano.

Reflexões de um comunista italiano sobre o KKE (Partido Comunista Grego)

Por Fosco Giannini, membro da direção nacional do Partido da Refundação Comunista

Como parte dessa pequena homenagem que nosso sítio faz, acertadamente, ao Partido Comunista da Grécia (KKE), gostaria de acrescentar somente algumas pequenas notas: no início dos anos 90, eu fui - enquanto membro do Departamento Político Estrangeiro do PRC e responsável pelas relações com as forças comunistas e a esquerda européias - ao Congresso do KKE, o Congresso consecutivo à cisão de direita do Synapsimos. Foi um Congresso difícil: a cisão do Synapismos, conduzida por Maria Damanaki, sobre as posições filosóficas "occhettiennes" (de Attilo Occhetto, liquidacionista do PCI em 1991) e voltado para a superação da autonomia comunista e a transformação do KKE em um "Partido de Esquerda" (o eterno retorno, pode-se dizer, se permanecemos dentro do espírito helenista e pensando sobre o que acontece há décadas na Itália, de "Bolognina" de Occhetto à conteporânea Vendola e a seus partidários no seio da própria RPC, passando por Bertinotti) havia criado problemas importantes para o KKE que rapidamente é contornado, principalmente devido a um amplo e profundo enraizamento, em particular entre a classe operária e os trabalhadores rurais.

No Congresso, o que me impressionou, entre outras coisas, foi uma frase do camarada Thanassis Papariga (então editor-chefe da Rizospastis, jornal do KKE e grande homem de espírito – que infelizmente faleceu - e marido da secretária geral do KKE, Aleka Papariga) que me disse: "Faz tantos anos que não víamos um camarada italiano que nós pensamos que você fosse uma invenção da CIA"

De fato, o PCI dos anos 80 (todo ocupado pelo eurocomunismo e, em seguida, pelas relações privilegiadas com as sociais-democracias de Willy Brandt e Olof Palme) teve muito diluídas - como aconteceu posteriormente com o PRC - suas relações com o KKE, considerado, tanto pelo PCI dos últimos anos como pela futura Refundação, demasiado "ortodoxo", pouco inclinado a inovações (de Occhetto, de Damanaki, Bertinotti ...)

Hoje, nós nos confrontamos com um paradoxo (aparente): os partidos do eurocomunismo ou culturalmente provenientes dele (italianos, franceses, espanhóis) que esnobaram e previram um fim iminente para os partidos comunistas ortodoxos "marxistas e leninistas (português e grego principalmente) têm hoje, pouco mais que um sopro de vida, estão à beira da extinção. Enquanto os camaradas gregos, portugueses, chipriotas e tchecos (apesar da "Lustration") estão indo bem, estão crescendo em termos eleitorais e à frente das lutas anticapitalista e anti-imperialistas (pois a luta travada pelo KKE contra a União Europeia é deste tipo).

Sobre esse aparente paradoxo, ele deverá refletir, sobretudo sobre uma questão central: o abandono e a liquidação do patrimônio teórico, histórico e político do movimento comunista ajuda realmente a reviver uma estratégia anticapitalista e anti-imperialista eficaz e consequente ou ela traz mais o declínio e dissolução da cultura e da prática da esquerda moderada? Comparado com o que a história nos ensina, a resposta parece óbvia...

Também deve ser dito que a capacidade diária de luta do KKE (que, como vemos, obtém rapidamente a simpatia dos jovens, dos trabalhadores e dos movimentos anti-Maastricht, anticapitalista e anti-imperialistas de toda a Europa) não vem do nada, não aparece de repente. Esta capacidade de luta (luta de massas, muito diferente do radicalismo sectário e dos extremismos, que os camaradas gregos rejeitam), o KKE a encontra em sua própria história, uma história marcada pela grande e heróica tentativa revolucionária do pós-guerra (quando o KKE tentou - apesar de Yalta - a tomada revolucionária do poder, pondo a duras provas o exército britânico de ocupação, chegando com os seus partidários armados e suas bandeiras vermelhas, quase tomou o centro do poder, que é Atenas, mas pagando, contudo, um tributo enorme de sangue: 300 mil comunistas mortos na luta revolucionária e de libertação nacional); uma história marcada pela luta corajosa contra os coronéis gregos que, em conluio com o governo norte-americano e com a CIA, conseguiram, em 21 de abril de 1967, seu golpe de Estado e lançou uma repressão antitrabalhista, antipopular e anticomunista; uma históra, a dos comunistas gregos, marcada pela resistência - política e teórica - aos profundos movimentos anticomunistas "Gorbachovistas" à deriva, consecutivos ao fracasso da "perestroika" e ao colapso da URSS. Uma história marcada- também nos últimos quinze anos - pelo fato de que o KKE encabeçou grandes lutas trabalhistas e camponesas que ocorreram (aquelas das últimas semanas não são, naturalmente, as primeiras) na Grécia contra as políticas hiper-liberais de Maastricht e contra as guerras imperialistas no Iraque e na Iugoslávia

Se hoje os camaradas gregos que, depois de ocupar a Acrópole, podem mandar uma mensagem de esperança e de luta para os povos da Europa e podem ser ouvidos por eles; se agora eles podem oferecer a todos os povos e trabalhadores europeus uma leitura da União Europeia bem diferente da visão conciliadora manifestada pela esquerda comunista italiana, e podem dizer – e ser ouvidos - com base em fatos e nas duras condições do povo grego, do "neo-imperialismo europeu"; se eles podem varrer as nuvens da desconfiança que tinham coberto o PCI nos últimos anos – que sentiu o "occhettisme", do PDS, do PRC e de uma certa "nova esquerda" européia, é porque o KKE resistiu aos anos muito difíceis da contra-revovução consecutiva a 1989, e aos gritos do "transformismo" da esquerda, nesse momento, pelas lutas e autonomia política e cultural, pela sua credibilidade no movimento operário grego e seu enraizamento social."

1 Mardi 11 mai 2010

Traduction AC pour http://solidarite-internationale-pcf.over-blog.net



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sexta-feira, 21 de maio de 2010

SAIBA O QUE É O CAPITALISMO

Atílio Borón*

O capitalismo tem legiões de apologistas. Muitos o fazem de boa fé, produto de sua ignorância e pelo fato como dizia Marx, "o sistema é opaco e sua natureza exploradora e predatória não fica evidente, perante os olhos de homens e mulheres do mundo" Outros o defendem porque são seus grandes beneficiários e arregimentam enormes fortunas graças a suas injustiças e iniqüidades. Há também outros (gurus, financistas, opinólogos, jornalistas especializados, acadêmicos bem pensantes e diversos representantes do pensamento único) que conhecem perfeitamente o que o sistema impõe em termos de custos sociais, degradação humana e do meio ambiente, mas como estão muito bem remunerados procuram omitir essas questões em seus relatos. Eles sabem muito bem, que a "batalha de idéias" que foi convocada por Fidel Castro é algo que pode ser perigoso para as ideologias que no intimo defendem e por isso não se empenham em denunciar as mazelas do capitalismo.

Para contraditar a proliferação de versões idílicas sobre o capitalismo e de sua capacidade de promover o bem estar geral examinemos alguns dados obtidos de documentos oficiais das ONU. Eles são sumamente didáticos quando se lê, principalmente em relação à crise atual – indicando que a solução dos problemas do capitalismo se obtém com mais capitalismo; ou que o G20, o FMI, a OMC e o BIRD, arrependidos dos erros do passado – irão efetivamente resolver os grandes problemas que afetam a humanidade. Todas essas instituições são incorrigíveis e irreformáveis e qualquer esperança de mudanças em seus comportamentos não é nada mais do que pura ilusão. Seguem propondo o mesmo, somente que o discurso é diferente e adotando uma estratégia de "relações públicas" desenhada para ocultar suas verdadeiras intenções. Quem tenha dúvidas que constate o que estão propondo para "solucionar" a crise na Grécia: as mesmas receitas que aplicaram e seguem aplicando na América Latina e África desde os anos oitenta do século passado.

Em continuação, podemos citar alguns dados com suas respectivas fontes recentemente sistematizados pelo Programa Internacional de Estudos Comparativos sobre a Pobreza localizado na Universidade de Bergen, Noruega, que fez um grande esforço para, desde uma perspectiva crítica, combater o discurso oficial sobre a pobreza elaborado desde mais de trinta anos pelo Banco Mundial e reproduzido incansavelmente pelos meios de comunicação, autoridades governamentais, acadêmicos e "especialistas" variados.

População mundial: 6,8 bilhões de habitantes em 2009.

1,02 bilhão de pessoas são desnutridos crônicos (FAO,2009);

2 bilhões de pessoas não tem acesso a medicamentos (http://www.fic.nih.gov/);

884 milhões de pessoas não têm acesso à água potável (OMS/UNICEF 2008);

925 milhões de pessoas são "sem teto" ou residem em moradias precárias (ONU Habitat 2003);

1,6 bilhões de pessoas não tem acesso à energia elétrica (ONU Habitat, Urban Energy);

2,5 bilhões de pessoas não são beneficiados por sistemas de saneamento, drenagens ou privadas domiciliares (OMS/UNICEF 2008);

774 milhões de adultos são analfabetos ( http://www.uis.unesco.org/ );

18 milhões de mortes por ano devido à pobreza, a maioria de crianças menores do que cinco anos de idade (OMS);

218 milhões de crianças entre 5 e 17 anos de idade, trabalham em condições de escravidão com tarefas perigosas ou humilhantes, como soldados da ativa atuando em guerras e/ou conflitos civis, na prostituição infantil, como serventes, em trabalhos insalubres na agricultura, na construção civil ou industria têxtil (OIT: "La eliminación Del trabajo infantil, un objetivo a nuestro alcance" 2006);

Entre 1988 e 2002, os 25% mais pobres da população mundial reduziram sua participação no produto interno bruto mundial (PIB mundial) de 1,16% para 0,92%; enquanto os opulentos 10% mais ricos acrescentaram fortunas em seus bens pessoais passando a dispor de 64% para 71,1% da riqueza mundial. O enriquecimento de uns poucos tem como seu reverso o empobrecimento de muitos;

Somente esses 6,4% de aumento da riqueza dos mais ricos seriam suficientes para duplicar a renda de 70% da população mundial, salvando muitas vidas e reduzindo os sofrimentos dos mais pobres. Entendam bem: tal coisa somente seria obtida se houvesse possibilidade de redistribuir o enriquecimento adicional produzido entre 1988 e 2002 dos 10% mais ricos da população mundial, deixando ainda intactas suas exorbitantes fortunas. Mas nem isso passa a ser aceitável pelas classes dominantes do capitalismo mundial.

CONCLUSÃO

Não se pode combater a pobreza (nem erradicá-la) adotando-se medidas capitalistas. Isso porque o sistema obedece a uma lógica implacável centrada na obtenção do lucro, o que concentra a riqueza e aumenta incessantemente a pobreza e as desigualdades sócio-econômicas a nível mundial.

Depois de cinco séculos de existência é isto e somente isto que o capitalismo tem para oferecer ao mundo! Que esperamos então para mudar o sistema? Se a humanidade tem futuro, esse será claramente socialista! Com o capitalismo, não haverá futuro para ninguém! Nem para os ricos, nem para os pobres! A sentença de Friedrich Engels e também de Rosa Luxemburg: "socialismo ou barbárie" é hoje mais atual do que nunca. Nenhuma sociedade sobrevive quando seu impulso vital reside na busca incessante do lucro e seu motor é a ganância, a usura. Mais cedo ou mais tarde provocará a desintegração da vida social, a destruição do meio ambiente, a decadência política e a crise moral. Todavia estamos ainda em tempo para reverter esse quadro – então vamos à luta!

*Atilio Borón, doutor em Ciência Política pela Harvard University, é professor titular de Filosofia Política da Universidade de Buenos Aires, Argentina, e ex-secretário-executivo do Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO).

http://www.atilioboron.com/

Tradução: Jacob David Blinder

Rebelión ha publicado este artículo con el permiso del autor mediante una licencia de Creative Commons, respetando su libertad para publicarlo en otras fuentes.



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sábado, 15 de maio de 2010

O MISTERIOSO E VERGONHOSO ACORDO MILITAR BRASIL-ESTADOS UNIDOS

* Ivan Pinheiro

Como o PCB denunciou, Brasil e EUA assinaram um acordo militar que vinha sendo negociado desde o primeiro governo Lula, com o segundo governo Bush. O último acordo militar entre os dois países havia sido firmado em 1952, no clima da Guerra Fria, tendo sido revogado em 1977, por incrível que pareça, pela ditadura militar, no governo Geisel.

Como informamos uma semana antes, o acordo foi assinado em Washington, no próprio Pentágono, no dia 12 de abril, por Nelson Jobim, o todo poderoso Ministro da Defesa de Lula, e Robert Gates, Secretário de Defesa de Obama.

O sigilo das negociações, os termos difusos e genéricos em que o documento é habilmente redigido e, sobretudo, o precedente vergonhoso obrigam as forças antiimperialistas brasileiras a articularem um amplo movimento pela revogação do acordo, por parte do Presidente da República, que não pode continuar se escondendo atrás do seu Ministro da Defesa, como já fez várias vezes, inclusive quando postergou a criação da Comissão da Verdade e diluiu seus objetivos, inviabilizando a punição dos torturadores antes mesmo da decisão do STF na ação movida pela OAB.

Logo na introdução, as partes declaram que a principal razão do acordo é “o interesse comum na paz e segurança internacionais”, ou seja, o governo brasileiro se associa expressamente à política do imperialismo norte-americano, para o qual o conceito de paz e segurança internacionais – manipulado na cruzada contra o “narcoterrorismo” – significa seu direito unilateral de invadir e ocupar países, prender e torturar suspeitos, impor instalações militares por todo o mundo, desestabilizar e derrubar governos, promover o separatismo, a criminalização de autoridades, crenças, religiões e costumes dos povos e apoderar-se de suas das riquezas naturais.

O Brasil, ao dizer textualmente aos Estados Unidos que comunga os mesmos interesses “na paz e segurança internacionais”, dá a esse país imperialista um cheque em branco para continuar atuando como a polícia do mundo, por cima das instituições multilaterais!

Na América Latina, esta declaração soa como traição, um sinal verde para a manutenção da Quarta Frota, das sete bases na Colômbia, das dezenas de instalações em outros países da região, muitas delas em embaixadas e consulados estadunidenses. É um desrespeito aos demais países da América Latina e ainda mais aos da América do Sul, com os quais o Brasil criou, há menos de dois anos, um CONSELHO DE DEFESA, corretamente sem qualquer participação dos EUA, no pressuposto de que não se trata de um aliado, mas de um contumaz agressor dos países da região, há mais de um século. Lula sabe que, ao assinar um acordo militar com o inimigo número um de Cuba, Venezuela, Bolívia e outros países, seus governos não podem criticá-lo publicamente pois precisam de um certo respaldo do Brasil para não cair no isolamento.

Apesar de setores governistas especialistas em “tapar o sol com a peneira” declararem que o acordo não prevê instalações militares em território brasileiro o certo é que ele também não as proíbe.

O “combate ao terrorismo e ao narcotráfico”, que justifica o acordo militar Brasil/Estados Unidos, tem sido um pretexto para satanizar e desestabilizar governos e organizações políticas e sociais de todo o mundo e para promover intervenções militares.

Da leitura do acordo, verifica-se que é impossível levar a efeito os objetivos anunciados, sem a existência de instalações militares norte-americanas no nosso território nacional. A tendência é que aqui se instale uma base de inteligência para espionagem, à semelhança das existentes no Paraguai, Peru, El Salvador e dezenas de países do mundo. Os EUA não precisam de soldados fardados e armados em todos os países, pois são deslocados para qualquer parte do mundo quase em tempo real. As instalações serão para os “sujeitos ocultos” do acordo: agentes da CIA, DEA, FBI, USAID e outros órgãos de inteligência das polícias e das Forças Armadas dos EUA.

Vejam os dois primeiros artigos do acordo assinado por Nelson Jobim, em nome de Lula, que está na íntegra no sítio eletrônico do Ministério da Defesa (www.defesa.gov.br):

Artigo 1 - Escopo
O presente Acordo, regido pelos princípios de igualdade, reciprocidade e interesse mútuo, em conformidade com as respectivas leis e regulamentos nacionais e as obrigações internacionais das Partes, tem como objetivo promover:

a) a cooperação entre as Partes em assuntos relativos à Defesa, particularmente nas áreas de pesquisa e desenvolvimento, apoio logístico, segurança tecnológica e aquisição de produtos e serviços de Defesa;
b) a troca de informações e experiências adquiridas no campo de operações e na utilização de equipamento militar de origem nacional e estrangeira, bem como as relacionadas a operações internacionais de manutenção de paz;
c) a troca de experiências na área de tecnologia de defesa;
d) a participação em treinamento e instrução militar combinados, exercícios militares conjuntos e o intercâmbio de informações relacionado a esses temas;
e) a colaboração em assuntos relacionados a sistemas e equipamentos militares; e
f) a cooperação em quaisquer outras áreas militares que possa ser de interesse mútuo das Partes.

Artigo 2 - Cooperação
A cooperação entre as Partes pode incluir:
a) visitas recíprocas de delegações de alto nível a entidades civis e militares;
b) conversações entre funcionários e reuniões técnicas;
c) reuniões entre as instituições de Defesa equivalentes;
d) intercâmbio de instrutores e pessoal de treinamento, assim como de estudantes de instituições militares;
e) participação em cursos teóricos e práticos de treinamento, orientações, seminários, conferências, mesas-redondas e simpósios organizados em entidades militares e civis com interesse na Defesa, de comum acordo entre as Partes;
f) visitas de navios militares;
g) eventos culturais e desportivos;
h) facilitação de iniciativas comerciais relacionadas à área de Defesa; e
i) implementação e desenvolvimento de programas e projetos de aplicação de tecnologia de defesa, considerando a participação de entidades militares e civis estratégicas de cada Parte.
Quando da assinatura do acordo, Robert Gates declarou, com justificável orgulho: “Este acordo aprofundará a cooperação entre Estados Unidos e Brasil em todos os níveis e mostrará como efetivamente nós poderemos enfrentar desafios comuns na área de segurança, quando trabalhamos em parceria”.

Com o anúncio deste acordo militar veio à tona outro acordo, também entre Brasil e EUA, tratando basicamente do mesmo tema, mas na área de atuação da Polícia Federal brasileira. De nossa parte, esta descoberta se deu apenas em função da dissimulação de setores governistas que negavam o acordo militar dizendo que ele era meramente policial.
Desenvolve-se no Brasil, desde 2008, um outro acordo Brasil/EUA, denominado “MEMORANDO DE ENTENDIMENTO SOBRE CONTROLE DE NARCÓTICOS E APLICAÇÃO DA LEI (*), ENTRE O GOVERNO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL E O GOVERNO DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA”.

(*) – não foi possível descobrir sobre de que lei se trata e de que país. Veja o acordo em: http://www2.mre.gov.br/dai/b_eua_339.htm.

Através desse acordo, os EUA concedem ao Brasil o total de 5,44 milhões de dólares para treinamento da Polícia Federal brasileira em projetos que vão desde “Técnicas de vigilância e agentes disfarçados”, “Coleta, processamento e disseminação de dados e inteligência”, “Combate ao crime urbano” e, o mais grave, “Treinamento em ações Transfronteiriças”, ou seja, as partes se declaram no direito de invadir países limítrofes ao Brasil. Além do Brasil abrir mão de sua soberania ainda ameaça a de nossos vizinhos.

O curioso é que este acordo, embora se refira a ações da Polícia Federal brasileira, não é assinado pelo Ministro da Justiça à época, Tarso Genro, a quem estava afeta a instituição policial. O acordo, assimetricamente, é assinado pelo Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, não com a então Secretária de Estado dos EUA, Condolezza Rice, mas com o embaixador norte-americano no Brasil na ocasião, Clifford Sobel. Todos os bens e serviços (leiam-se armas e equipamentos de espionagem) necessários ao cumprimento do acordo serão adquiridos nos EUA e de lá enviados, com total isenção de impostos e controles. Os agentes norte-americanos terão no Brasil passaporte de pessoal diplomático.

Na primeira semana deste mês, realizou-se no Rio de Janeiro uma Conferência Internacional Antidrogas. No encerramento, o Diretor Geral da Polícia Federal brasileira, Luiz Fernando Correa, e a Chefe da DEA (Agência de Combates às Drogas dos EUA, umbilicalmente ligada à CIA), Michelle Leonhart, deram uma entrevista à imprensa, em torno dos acordos a que chegaram as duas instituições. Houve tão grande coincidência de pontos de vista que os dois usaram literalmente a mesma frase, quando afirmaram que as fronteiras não podem ser usadas como barreiras para a ação dos órgãos de repressão. Anunciaram também a instalação de outros escritórios da DEA no Brasil, além dos que já funcionam em São Paulo e Brasília, em sintonia com a CIA e outros órgãos de inteligência dos EUA.

Na sequência, o atual Ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, anunciou que ainda este ano serão instaladas onze bases da Polícia Federal/Força Nacional em todas as fronteiras com todos os nossos onze países vizinhos.

O vínculo entre drogas e terrorismo, tema de destaque na Conferência, tem sido vastamente usado pelo imperialismo, para satanizar governos, povos e resistências populares e para criminalizar os movimentos sociais e a pobreza. Recente matéria no jornal “Brasil de Fato”, sob o título “A farsa da guerra contra as drogas”, revela que a maioria dos assassinados pela repressão no México, onde este tipo de acordo está em vigor, não tem qualquer vínculo com o narcotráfico. Trata-se de um extermínio da população pobre.

Certamente, um dos novos escritórios do DEA/CIA no Brasil será instalado no Rio de Janeiro, para esconder e exterminar a pobreza, pensando nos turistas que virão às Olimpíadas e à Copa do Mundo, além de favorecer a especulação imobiliária, que está de olho grande na construção de condomínios fechados nos lindos morros com vista deslumbrante, hoje habitados por pobres. O grande pretexto é que nestes morros se localizam os pontos de varejistas revendedores de drogas para a classe média e a burguesia. Esses pontos de venda (“bocas de fumo”), disputados à bala por quadrilhas concorrentes, são abastecidos pelos verdadeiros traficantes de drogas e armas, poderosos e impunes, que vivem em endereços nobres e aparecem nas colunas sociais e até nos parlamentos, quando resolvem comprar mandatos eletivos para garantir impunidade.
Há várias especulações sobre esses acordos, para além da questão militar. É forte a hipótese de ser uma moeda de troca em razão da possível opção do governo brasileiro pela compra dos aviões-caça franceses, em detrimento dos equivalentes da Boeing. Segundo outras fontes, o acordo inclui a venda aos EUA de aviões Super Tucanos fabricados pela EMBRAER.
O Ministro Nelson Jobim está cada vez mais forte no governo Lula. No início deste ano, setores que sustentam o governo diziam que Jobim quis “dar um golpe” em Lula, vetando a criação da Comissão da Verdade, prevista no Programa Nacional de Direitos Humanos. Tudo para insinuar que Lula é a favor da Comissão da Verdade e Jobim atrapalhou! Chegaram inclusive a ensaiar uma tímida campanha “Fora Jobim”, como se este não fosse nomeado e prestigiado por Lula. Ao contrário, Lula vem dando cada vez mais força ao seu Ministro da Defesa, tendo inclusive editado medida provisória criando mais de 200 (duzentos) cargos comissionados de nomeação exclusiva do Ministro da Defesa e outra outorgando a ele uma atribuição que sempre foi historicamente da Presidência da República, ou seja, plenos poderes para nomear com autonomia os comandantes das Forças Armadas.

Jobim tem viajado muito, para ir às compras no mercado de armas. Na Alemanha, comprou dezenas de tanques e os colocou na fronteira sul do Brasil com nossos hermanos bolivianos, argentinos e paraguaios. Em Israel, comprou aviões não tripulados, para espionagem e inteligência contra grupos insurgentes e o crime organizado. Da Rússia, acabam de chegar os primeiros “tanques voadores” MI-35, comprados para a FAB. É bom lembrar que, por proposta de Jobim, Lula, em 2009, autorizou expressamente a FAB a exercer nas fronteiras brasileiras o poder de polícia. Os A-H2, como foram rebatizados os MI-35 no Brasil, são tanques aéreos para operações antiguerrilha e contra alvos móveis em terra. Estão sendo instalados estrategicamente nas fronteiras na Amazônia, ou seja, com o Peru, o Equador, a Venezuela e a Colômbia. Para esta, Jobim vende armas brasileiras, incluindo munição e Super Tucanos, e firmou acordos para auxiliar o governo de direita a monitorar grupos insurgentes (leia-se FARC), inclusive com a colaboração do Sivam, sistema de radar que opera na região amazônica.

Como se vê, trata-se de um reaparelhamento das Forças Armadas voltado mais para o Brasil atuar como país imperialista do que para nos proteger do imperialismo.

Aliás, Jobim teve uma outra grande vitória este mês. A apuração dos crimes dos torturadores praticamente morreu, junto com o STF. Os enterros se deram no mesmo dia. As impressões digitais do governo apareceram na pomposa sala do “supremo tribunal”. Com base em pareceres da Advocacia Geral da União e do Procurador Geral da República e relatório e votos dos Ministros mais ligados a Lula, a “suprema corte” absolveu os torturadores que, daqui a pouco, estarão pedindo indenizações iguais às daqueles que foram torturados por eles!
Estes acordos militares Brasil/EUA põem por terra os argumentos de que a política externa brasileira é progressista. Alguns chegam a ponto de a qualificar antiimperialista. Na verdade, a política externa brasileira é a política do Estado burguês brasileiro, que tem como objetivo principal fazer do Brasil uma potência capitalista em âmbito mundial, como parte, ainda que subalterna, do sistema imperialista. Em cada episódio na arena internacional, o Brasil adota uma posição ditada pelo pragmatismo de abrir mercado para as já chamadas “multinacionais brasileiras”. Muitas vezes, inclusive, a ação do governo brasileiro coincide com a postura mais progressista, como é o caso de Cuba, Venezuela, Bolívia e Irã, países cujos mercados interessam à burguesia brasileira. Em outros casos, também em nome dos negócios, o Brasil patrocina a entrada de Israel no MERCOSUL, comanda as tropas da ONU que respaldaram um golpe no Haiti, faz vista grossa às bases norte-americanas na Colômbia e agora assina acordos militares com os maiores inimigos de todos os povos.

O fato de um governo mais à direita vir a exercer a mesma política externa do Itamaraty, no sentido de fazer do Brasil uma potência capitalista, mas com decisões mais conservadoras e mais alinhadas aos EUA, não confere à política externa atual qualquer caráter antiimperialista, muito menos anticapitalista. Para aqueles que apóiam Lula e se proclamam de esquerda seria mais honesto afirmar que a política externa atual é “menos ruim” do que a que seria praticada pela direita. Isto, pelo menos, os estimularia a pensar em alternativas à esquerda, para não ficar eternamente evitando o “mal maior”.

Até durante a ditadura, a política externa brasileira tinha uma certa autonomia (nunca antagônica, como até hoje) em relação aos interesses do imperialismo. Os ideólogos do Itamaraty, à época, chamavam a nossa política externa de “pragmatismo responsável”, chegando à ousadia de revogar um acordo militar com os EUA, em 1977. Não por qualquer verniz antiimperialista, mas porque Geisel negociava um acordo nuclear com a Alemanha e os EUA já vinham dando sinais de que não precisavam mais das ditaduras militares na América Latina, iniciando a transição para uma outra forma mais suave e sutil de ditadura da classe burguesa, o “estado democrático de direito”. Até porque, com a Operação Condor, já haviam fragilizado as forças revolucionárias do continente, com o assassinato de milhares de quadros em todos os países, principalmente no Cone Sul.

Nelson Jobim é muito mais que um Ministro do Governo Lula: ele é um dos principais quadros da burguesia brasileira. Foi Presidente da Câmara dos Deputados e do Supremo Tribunal Federal. Não se envolverá nesta campanha eleitoral. Em 2011, continuará no Ministério da Defesa ou em outro posto estratégico do governo, com Dilma ou com Serra. Assim como Henrique Meirelles, Presidente do Banco Central (ex-Presidente do Banco de Boston), que ganhou de Lula status de Ministro. Continuará no comando da política econômica, com os Mantegas da vida.

Jobim e Meirelles estavam na reunião em que Lula apresentou aos antigos os novos ministros, após a saída da maioria daqueles, para disputar as eleições de 2010. Na sua despedida aos que ficaram ministros (a maioria esquentando a cadeira para a volta dos titulares), Jobim e Meirelles, dos poucos que ficaram a pedido de Lula, ouviram da colega Dilma na hora de sua despedida: “Até breve!”.

* Ivan Pinheiro é Secretário Geral do PCB

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