domingo, 8 de abril de 2012

Tortura durante a ditadura, relato de DAMARIS LUCENA


Estávamos na nossa casa em Atibaia. Éramos eu, meu marido e meus filhos. A polícia cercou a casa, arrebentou o portão e bateu na porta. Meu marido estava dormindo. Mandaram chamá-lo e queriam levá-lo para prestar esclarecimento, mas ele pegou um fuzil e disse que não ia. Quando ele saiu na porta, a bala já bateu no peito dele, mas ele ainda estava vivo. Quando caiu, deram trinta, quarenta balas no corpo. O último foi na cabeça. Foi aí que ele morreu, e todos os homens entraram na casa. Eles diziam: ‘Mata ela e os fi lhos dela, mata essa puta’. Saquearam a casa toda. Lá era um aparelho, tinha todo o material da organização e muitas armas. Quando eu cheguei na delegacia, o pau comeu solto: arrancaram os meninos de mim, me jogaram no chão, pisaram em cima de mim, eu rolava no chão toda ensanguentada. Aí, começaram a vir os homens da Oban. Era soco, pontapé, batiam no meu quadril. Apanhei tanto na boca que a dentadura enganchou na gengiva. Minha boca fi cou toda inchada, cheia de dentes quebrados. De madrugada, me levaram para São Paulo, para a Operação Bandeirante, onde eu fiquei 23 dias apanhando. Era choque, choque, choque todo santo dia. Eu me urinava toda, e eles berravam: ‘Essa mulher tá podre, tira essa mulher fedorenta daqui’. Minha vagina ficou toda arrebentada por causa dos choques. Eu tive de fazer uma operação em Cuba, onde levei noventa pontos. Meu útero e minha bexiga fi caram para fora, eu estou viva por um milagre. Também levei muita porrada, muito soco na bunda. Fiquei completamente arrebentada, foi muito sofrimento. Nesses dias, eu não conseguia comer, porque, além da comida parecer ‘resto’, cheia de ponta de cigarro e palito, eu estava com a boca inchada. Então, só tomava uma xícara de café. Tinha também xingamento dos nomes mais pesados. De vez em quando, vinham e davam uma bofetada na nossa cara.

DAMARIS LUCENA, ex-militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), era feirante quando foi presa em 20 de fevereiro de 1970, em Atibaia (SP). Hoje, vive em São Paulo (SP).


Tortura durante a ditadura, relato de IGNEZ MARIA RAMINGER


Fui levada para o Dops, onde me submeteram a torturas como cadeira do dragão e pau de arara. No pau de arara, davam choques em várias partes do corpo, inclusive nos genitais. De violência sexual, só não houve cópula, mas metiam os dedos na minha vagina, enfi avam cassetete no ânus. Isso, além das obscenidades que falavam. Havia muita humilhação. Eles tiravam sarro ao mesmo tempo que nos batiam. E eu fui muito torturada, juntamente com o Gustavo [Buarque Schiller], porque descobriram que era meu companheiro. E ele fazia parte da direção da VAR-Palmares. A pior coisa que existe é ver um companheiro ser torturado. Uma vez, eles simularam que iam me degolar. Pegaram uma facona, saíram comigo e disseram para o Gustavo: ‘É a última vez que você vai vê-la’. Aí, eles saíram comigo com aquela faca na garganta e me botaram numa kombi. Depois, pararam o carro e fi caram discutindo o que fazer comigo. Acabaram me deixando de volta no presídio. Foi uma encenação, mas achei que estava indo ser morta. Isso me deixou com trauma durante muitos anos. Eu não conseguia mexer com faca grande na cozinha... No total, fi quei presa durante um ano e meio.

IGNEZ MARIA RAMINGER, ex-militante da VAR-Palmares, era estudante de Medicina Veterinária quando foi presa em 5 de abril de 1970, em Porto Alegre (RS). Hoje, vive na mesma cidade, onde é técnica da Secretaria Municipal de Saúde.

Tortura durante a ditadura, relato de INÊS ETIENNE ROMEU


[...] Fui conduzida para uma casa [...] em Petrópolis. [...] O dr. Roberto, um dos mais brutais torturadores, arrastou-me pelo chão, segurando-me pelos cabelos. Depois, tentou me estrangular e só me largou quando perdi os sentidos. Esbofetearam-me e deram-me pancadas na cabeça. [...] Fui várias vezes espancada e levava choques elétricos na cabeça, nos pés, nas mãos e nos seios. A certa altura, o dr. Roberto me disse que eles não queriam mais informação alguma; estavam praticando o mais puro sadismo, pois eu já havia sido condenada à morte e ele, dr. Roberto, decidira que ela seria a mais lenta e cruel possível, tal o ódio que sentia pelos ‘terroristas’. [...] Alguns dias depois, [...] apareceu o dr. Teixeira, oferecendo-me uma saída ‘humana’: o suicídio. [...] Aceitei e pedi um revólver, pois já não suportava mais. Entretanto, o dr. Teixeira queria que o meu suicídio fosse público. Propôs me então que eu me atirasse embaixo de um ônibus, como eu já fi zera. [...] No momento em que deveria atirar-me sob as rodas de um ônibus, agacheime e segurei as pernas de um deles, chorando e gritando. [...] Por não ter me matado, fui violentamente castigada: uma semana de choques elétricos, banhos gelados de madrugada, ‘telefones’, palmatórias. Espancaram-me no rosto até eu fi car desfi gurada. [...] O ‘Márcio’ invadia minha cela para ‘examinar’ meu ânus e verifi car se o ‘Camarão’ havia praticado sodomia comigo. Esse mesmo ‘Márcio’ obrigou-me a segurar seu pênis, enquanto se contorcia obscenamente. Durante esse período fui estuprada duas vezes pelo ‘Camarão’ e era obrigada a limpar a cozinha completamente nua, ouvindo gracejos e obscenidades, os mais grosseiros [...].

INÊS ETIENNE ROMEU, ex-militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), era bancária quando foi presa em São Paulo (SP), em 5 de maio de 1971. Hoje, vive em Belo Horizonte (MG). Recebeu o Prêmio Nacional de Direitos Humanos 2009, na categoria Direito à Memória e à Verdade.

Relato de perseguição ao PCB durante a ditadura.



Eu e meu ex-companheiro, George Duque Estrada, fomos presos em meio a uma avalanche de prisões que tinham como alvo o PCB, de norte ao sul do país. Só em São Paulo, em outubro de 1975, estavam detidas 96 pessoas do partidão, dentre as quais: Lenita Yassuda, Dilea Frate, Marisa Saenz Leme, Eleonora Freire, Sonia Morossetti, Sandra Miller, Sarita D’Ávila Mello, Zilda Gricolli, Marinilda Marchi, Rosa Faria, Ana Maria Brandão Dias, Eugenia Paesani, Nancy Trigueiros, Carmen Vidigal Moraes, Cristina Castro Mello, Monica Staudacher, Nanci Marcelino, Celia Candido, Stela Brandão. No DOI-Codi, passei a noite encapuzada, ouvindo os gritos de um homem sendo brutalizado. O dia seguinte, soube depois, foi aquele em que Vladimir Herzog foi torturadoaté a morte. Fui levada à sessão de interrogatório numa sala próxima à outra onde alguém também estava sendo interrogado e torturado. Diziam-me que era meu companheiro. Eram gritos abafados de uma pessoa amordaçada. Achei que iam matá-lo. Os homens que me torturavam se revezavam entre o local onde eu estava e a sala contígua. Estavam num estado de alteração psíquica indescritível. Eu era erguida da cadeira e jogada, nua e encapuzada, como se fosse uma peteca, de mão em mão, no meio de xingamentos e gritaria. Depois, fui submetida a tapas e choques elétricos. Perdi alguns dentes e todas as minhas obturações caíram. Como estava amamentando, o leite escorria pelo meu corpo, o que constrangeu alguns torturadores e estimulou outros. O entra e sai era frenético. De repente, instalou-se um silêncio sepulcral. Sobe e desce de escadas. Os interrogatórios foram suspensos. Na madrugada entre 25 e 26 de outubro, agentes passavam pelos corredores perguntando se 'alguém também estava passando mal'. Pensei que algo de terrível tivesse ocorrido com o George. Não havia sido com ele, mas com o Vladimir Herzog. Foram provavelmente dele os gemidos que ouvi da sala contígua

MARISE EGGER-MOELLWALD, ex-militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB),era estudante de Ciências Sociais quando foi presa no dia 24 de outubro de 1975, emSão Paulo (SP). Hoje, vive na mesma cidade, é socióloga e trabalha como consultoraem gestão pública e desenvolvimento de políticas sociais.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Jamais esqueceremos! Por: Paulo Schueler*



Este domingo, 1º de abril, marcou os 48 anos de instauração da ditadura militar-empresarial no Brasil. Uma data a ser lembrada, para que nunca mais volte a ocorrer, e que até hoje merece dos democratas especial atenção - haja vista a "comemoração" promovida na última quinta-feira (29/03), no Clube Militar, pelo que de pior existe na espécie humana.

Como afirmamos - o PCB - em Nota Pública anterior ao evento, que recebeu justo repúdio militante de centenas de pessoas que comparecemos à Manifestação de Repúdio ao convescote dos porões da Ditadura, tratava-se, no caso deles, de tentar impor aos poderes constituídos o não funcionamento de fato da Comissão da Verdade, em si já insuficiente por não ter poderes de punir - ou delegar a punição - de assassinos, torturadores, sequestradores; enfim, da escória dentro da escória.

Anunciada já há quatro meses, a referida comissão não teve seus participantes nomeados pela presidente da república - ela mesma uma ex-presa política que já sofreu as arbitrariedades da Ditadura.

Causa-nos indignação, por conseguinte, as declarações vaselinas dadas na última sexta-feira pelo ministro da Defesa, Celso Amorim. Questionado sobre a "comemoração" e a revolta de todos aqueles que prezam a democracia, materializada na manifestação, o fantoche de plantão saiu-se com esta: " Somos contra qualquer violência. Somos a favor de que haja sempre liberdade de expressão, desde que pacífica e respeitosa".

Amorim, como todos aqueles que governam o país desde 1985, quis tapar o Sol com a peneira. Mais pusilânime, só aquela que o nomeou. Justamente ela, que em seu discurso de posse afirmou honrar todos aqueles que tombaram contra a opressão e a barbárie daquele regime fascista. Mesmo após ter proibido comemorações militares do Golpe de 64, ocorreram - neste final de semana - manifestações claras de desrespeito à Presidência da República: no Rio de Janeiro, aviões passaram na orla com frases saudando a data, assim como os paraquedistas que saltaram dos céus - ou dos infernos. E Dilma? Nenhuma manifestação ou declaração.

Dito isso, voltemos aos acontecimentos de quinta-feira. Nós, do PCB, saudamos as forças políticas que se fizeram presentes na manifestação através de seus militantes. E cremos que devemos levar adiante, nas ruas e espaços institucionais, a correta campanha pela instauração da Comissão da Verdade - quiçá da revisão da Lei de Anistia, que tornou o Brasil um país pária do Direito Internacional.

Não custa lembrar que seremos novamente motivo de vergonha caso o executivo não leve adiante a recente notificação da Organização dos Estados Americanos (OEA) de apurar a morte do jornalista Vladimir Herzog, militante do PCB, durante os anos de chumbo.

Ao mesmo tempo, não nos causa nenhuma estranheza a editorialização que foi feita pelos grandes veículos de imprensa aos fatos ocorridos esta semana. Afinal de contas, a Folha de S. Paulo emprestou sua frota de veículos para a Operação Bandeirantes (OBAN) em São Paulo, e a Rede Globo se transformou no império das comunicações que é hoje com o apoio financeiro e logístico dos generais que governaram o país naqueles anos. Fiquemos apenas com esses dois exemplos...

A violência policial contra os manifestantes também serve de exemplo para aqueles à esquerda que, durante as últimas greves de policiais, se lançaram de forma oportunista ao apoio acrítico aos "companheiros" da PM.

Por fim, é preciso lembrar. Jamais esqueceremos todos aqueles que tombaram pela liberdade e a democracia naqueles anos de chumbo. Os jovens rostos de companheiros da União da Juventude Comunista (UJC) e de outras organizações juvenis que estivemos presentes às manifestações deixa isso claro.

Em respeito à memória dos que tombaram, é tarefa militante prioritária lutar para que sejam encontrados os restos mortais daqueles cerca de 140 combatentes da liberdade que até hoje estão desaparecidos, como os guerrilheiros do Araguaia e nossos camaradas de PCB, cujos nomes seguem abaixo.

Célio Guedes
David Capistrano
Elson Costa
Hiram Pereira Lima
Itair Veloso
Jayme Miranda
João Massena
José Montenegro de Lima
Luiz Maranhão
Nestor Veras
Orlando Bonfim
Walter Ribeiro

Jamais esqueceremos deles!

* Paulo Schueler é membro do Comitê Central do PCB

Crédito da imagem

Crédito da ação: Beatriz Seigner, Moana Mayall, Thiago Dezan, Luis Felipe, Fora do Eixo
Descrição:
Registro de noite de projeções de imagens selecionadas e projetadas, das quais participei junto com integrantes da rede de artistas e ativistas "Fora do eixo" ( Beatriz Seigner, Thiago Dezan e Luis Felipe). Incluiu filmes cedidos e outras imagens de arquivo e de pesquisas históricas e pessoais:" Uma Longa Viagem" de Lucia Murat, o "Perdão Mister Fiel" de Jorge Oliveira, "Amenarama", 'Diário de Uma Busca' de Flavia Castro etc.
Noite de 29 de março de 2012, data em que militares comemoravam aniversário do Golpe de 1964. Projeção do início da noite até aproximadamente 23h. Ato Contra a comemoração do golpe militar de 64. Fachada crítica. Herzog, símbolo da luta pela democracia e liberdade de expressão sobre a fachada do Clube Militar. Luz versus obscuridades. Pela Comissão da Verdade sobre os crimes de terrorismo de Estado durante os anos da ditadura militar no Brasil.


segunda-feira, 2 de abril de 2012

Boca no Trombone - Triste aniversário



Triste aniversário

Há 48 anos, o Brasil acordava com tanques e tropas nas ruas. Um golpe de Estado, articulado por civis e militares brasileiros, com apoio financeiro e militar norte-americano, iniciava o processo de deposição armada do presidente João Goulart. Os que tinham a obrigação de defender a Constituição do país, a violavam e inauguravam um período de 21 anos de obscurantismo e terrorismo de Estado.

Durante mais de duas décadas, a atividade política foi severamente controlada, a criação cultural e a imprensa censuradas e os interesses do capital impostos, manu militari, ao país. A tortura foi institucionalizada como método de coação e eliminação de adversários e o Brasil mergulhou numa




fase
ufanista, não raro identificada com cacoetes fascistas. As Forças Armadas participaram, vergonhosamente, da multinacional do terror de Estado, chamada Plano Condor, ajudando a sequestrar e matar opositores das ditaduras argentina, uruguaia e chilena. Os crimes cometidos jamais foram punidos e muitos executores e cúmplices, civis e militares, circulam entre nós, apostando na propalada falta de memória nacional.

O período 1964-1985 deixou marcas profundas na sociedade brasileira. Ainda hoje, o golpe é celebrado nos quartéis como "revolução". As famílias dos mais de cem desaparecidos não têm acesso às informações que permitiriam localizar os restos mortais seus entes queridos, para poder enterrá-los com dignidade. Enquanto argentinos, uruguaios e chilenos, que também passaram por ditaduras brutais, levam aos tribunais os algozes de seus povos, nós ainda engatinhamos, sob intensa pressão da direita e de setores militares, que se recusam a reconhecer os crimes cometidos pela ditadura contra o povo brasileiro. A Comissão da Verdade, que foi aprovada para investigar os crimes do Estado durante o período ditatorial, sequer foi criada. Mesmo que o seja, sem pressão social ela não terá força para cumprir seus objetivos.

Há quase meio século, a liberdade foi violentada no Brasil. Que a memória da ditadura nos abasteça de indignação e vacine a sociedade contra outras aventuras totalitárias.

Rio de Janeiro, 30 de março de 2012

ASA – Associação Scholem Aleichem de Cultura e Recreação
ACIZ – Asociación Cultural dr. Jaime Zhitlovsky (Uruguai)
ICUF – Federação das Entidades Culturais Judaicas da Argentina
Meretz Brasil
CCMA – Centro Cultural Mordechai Anilevitch
ADAF – Associação David Frischman (Niterói)
Instituto Casa Grande
Algo a Dizer – Jornal de Política e Cultura

--
Veja a Página do PCB – www.pcb.org.br

Partido Comunista Brasileiro – Fundado em 25 de Março de 1922